{"id":993,"date":"2016-04-25T16:11:25","date_gmt":"2016-04-25T19:11:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.analisebioenergetica.com\/site\/?p=993"},"modified":"2016-04-25T16:11:25","modified_gmt":"2016-04-25T19:11:25","slug":"verdades-psicocorporais-ha-muitas-etica-relacional-ha-so-uma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/verdades-psicocorporais-ha-muitas-etica-relacional-ha-so-uma\/","title":{"rendered":"\u201cVerdades psicocorporais h\u00e1 muitas, \u00e9tica relacional h\u00e1 s\u00f3 uma\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>\u201cUm dia , o diabo falou-me assim : \u201cDeus tamb\u00e9m tem o seu inferno , \u00e9 o seu amor pelos homens.\u201d<\/p>\n<p>E, mais recentemente , ouviu-o dizer estas palavras : \u201d Deus Morreu ; foi da sua ,compaix\u00e3o para com os homens , que Deus morreu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cComo fil\u00f3sofo , eu deveria ter agarrado num martelo e imposto novos valores ao mundo . Agora s\u00f3 h\u00e1 novos cad\u00e1veres e novos t\u00famulos\u201d<\/p>\n<p>\u201cAssim falava Zaratustra\u201d \u2013 F. Nietzsche.<\/p>\n<p>A 10 de Dezembro de 1948 , em Paris , foi assinada a melhor das cartas internacionais \u2013 A declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem.<\/p>\n<p>Cito-vos apenas o 1\u00ba art\u00ba desta importante Declara\u00e7\u00e3o : \u201cTodos os seres humanos nascem livres e iguais , em dignidade e em direitos. Dotados de raz\u00e3o e de consci\u00eancia , devem agir uns para com os outros em esp\u00edrito de fraternidade\u201d. A realidade \u00e9 mesmo esta?<\/p>\n<p>O facto de fazer cr\u00f3nicas semanais numa R\u00e1dio de Braga h\u00e1 j\u00e1 13 anos , de ser membro da Amnistia Internacional , de fazer forma\u00e7\u00e3o e col\u00f3quios em Direitos Humanos , de ter um papel interventivo nos Direitos das mulheres , das crian\u00e7as , contra a pena de morte ( onde trabalho especificamente ) e a favor das minorias sexuais e liberdade das orienta\u00e7\u00f5es e identidades sexuais , levou-me a reflectir sobre a \u00e9tica dos psicoterapeutas , das rela\u00e7\u00f5es com os pacientes , da neutralidade , da moralidade e da liberdade e respeito total pelo ser , ou desenvolvimento do ser , dos nossos pacientes.<\/p>\n<p>Desenvolvimento do ser , \u00e9 algo que associo a D. Winnicott , quando teoriza acerca da rela\u00e7\u00e3o materna , como o espa\u00e7o relacional que potencia e permite desenvolver compet\u00eancias psico-gen\u00e9ticas , a partir do \u201cAfecto suficientemente bom\u201d , sem bloquear o \u201cverdadeiro self\u201d , ou a verdade do ser em estrutura\u00e7\u00e3o , numa perspectiva anal\u00edtica e humanista \/ existencialista.<\/p>\n<p>F. Nietzsche n\u00e3o podia sintetizar e metaforizar de forma exemplar , o melhor que poder\u00e1 ter e dever\u00e1 ser um processo ou viagem relacional psicoterap\u00eautica.: \u201cTorna-te no que \u00e9s.\u201d \u00c0s vezes com \u201ccurvas\u201d perigosas , com lombas , que nos fazem travar , por vezes com travagens brutais , no ritmo e em sintonia com o paciente , \u00e0s vezes com acelera\u00e7\u00f5es sem controle que confirmam a nossa ansiedade , a nossa megalomania t\u00e9cnica , o nosso exibicionismo t\u00e9cnico-interpretativo e quantas vezes a nossa prepot\u00eancia , arrog\u00e2ncia relacional , com poder , sem fragilidades , com seguran\u00e7as e sem medos psicoterap\u00eauticos.<\/p>\n<p>Alguns te\u00f3ricos e cl\u00ednicos do paradigma psicanal\u00edtico , actualmente escrevem e reflectem sobre os objectivos duma psican\u00e1lise ortodoxa, ou duma psican\u00e1lise em geral . Ser\u00e1 uma psicoterapia ? Ser\u00e1 um processo de auto-conhecimento ? Ser\u00e1 uma est\u00e9tica da interioridade e da hist\u00f3ria repetida relacional humana ?<\/p>\n<p>E os psicoterapeutas , quem s\u00e3o ? Ser\u00e3o eles idealizados ou representados pr\u00f3ximos da realidade humana relacional : Que grau de sa\u00fade mental existe nesta classe ? Apetece-me sublinhar aqui , a excelente vis\u00e3o do Psicoterapeuta Alem\u00e3o Arno Gruen, a partir da sua c\u00e9lebre obra : \u201d A Loucura da Normalidade \u201d . Para ele , o problema n\u00e3o est\u00e1 nos identificados perturbados ou diagnosticados com psicopatologia evidente , o problema \u00e9 de facto , com os normopatas , hiper-conformistas e hiper-adaptados , porque escondem uma perversidade e patologia , que aparece nas institui\u00e7\u00f5es , nas rela\u00e7\u00f5es e no que produzem , que s\u00f3 Marie France Hirigoyen soube t\u00e3o bem analisar.<\/p>\n<p>E se Eugen Drewermann , te\u00f3logo e psicoterapeuta psicanal\u00edtico , tem raz\u00e3o , quando afirma na continuidade de Nietzsche , que a psicoterapia dever\u00e1 ser uma \u201cgaia ci\u00eancia\u201d , um \u201clivro para os esp\u00edritos livres\u201d, uma escola de aus\u00eancia de moral e de treino , para a satisfa\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es , sem quaisquer escr\u00fapulos\u201d. Seria assim um tratamento \u201cpara al\u00e9m do bem e do mal\u201d, ou at\u00e9 amoral em si mesmo, contr\u00e1rio \u00e0 norma , sobreindividualizado , anti-social e socialmente destrutivo? Para Freud , a psicoterapia \u201d tem de se reclamar para si alguma amoralidade , na medida em que a civiliza\u00e7\u00e3o , ou conjunto de normas e de convic\u00e7\u00f5es de um povo , est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com a felicidade e o mundo espiritual do indiv\u00edduo\u201d . Por isso , h\u00e1 que ser \u201ccr\u00edtico\u201d da civiliza\u00e7\u00e3o e da moral dominante , que imp\u00f5e as normas vigentes. A psican\u00e1lise , poder\u00e1 ser destrutiva e desagregadora em termos sociais. A psicoterapia dever\u00e1 ter como objectivo o questionar da moralidade vigente , interna \u2013 estrutural \u2013 , ou externa , \u2013 hist\u00f3ria das mentalidades ( rigidez , esteri\u00f3tipos , preconceitos e \u201clixo socio-cultural \u201d ou julgamentos aprior\u00edsticos ) . Por exemplo , o neur\u00f3tico super-defensivo , apresenta culpabilidade falsa , infantil, e exagerada , porque a moralidade o protege e defende de forma egoc\u00eantrica.<\/p>\n<p>A \u201cRevue d\u2019Analyse Psycho-Organique \u201d (ADIRE) , o n\u00ba de 1999 , dedica-o \u00e0 tem\u00e1tica da \u00c9tica . Um conjunto de artigos excelentes , que pretendem concluir , que a \u00c9tica , se situa entre o amor e a lei , n\u00e3o a lei Moral , mas a lei do fazer o bem e evitar fazer o mal , mas n\u00e3o de moralizar os comportamentos em bons e maus , isto \u00e9 , de n\u00e3o avaliar o agir , em o que se pode e n\u00e3o pode fazer.<\/p>\n<p>N\u00f3s psicoterapeutas que lidamos com o rosto , que estamos na rela\u00e7\u00e3o com o rosto do outro e com o nosso pr\u00f3prio rosto , n\u00e3o posso esquecer o fil\u00f3sofo Emmanuel Levinas , que na sua obra \u201c\u00c9tica e Infinito\u201d , fala acerca do que ele chama a \u201cfenomenologia do rosto\u201d e afirma que o acesso ao rosto \u00e9 num primeiro momento , \u00e9tico . Mas o que \u00e9 especificamente rosto , \u00e9 o que n\u00e3o se reduz a ele. \u00c9 a sua exist\u00eancia , que nos pro\u00edbe de matar , o que n\u00e3o significa que seja imposs\u00edvel matar. Mas \u00e9 o rosto do outro que me fala e \u00e9 a ele que eu lhe falo . Tal como Winnicott , nos ensinou na rela\u00e7\u00e3o entre o rosto da m\u00e3e e do b\u00e9b\u00e9 , a partir do reflexo dos olhares , que todos n\u00f3s sentiram a exist\u00eancia e estruturaram a delimita\u00e7\u00e3o de self . O rosto do outro , \u00e9 a base da \u00e9tica relacional . Pelo rosto , sentimos a dimens\u00e3o do humano e da sua igualdade . N\u00e3o uma igualdade imposta pelas cartas internacionais , pelos valores actualmente vigentes. N\u00c3O\u2026 Falo da igualdade sentida , que para l\u00e1 da toler\u00e2ncia , \u00e9 acima de tudo de aceita\u00e7\u00e3o total . Infelizmente a dimens\u00e3o tr\u00e1gica , pulsional , animal e da actual estrutura familiar , repressiva e castradora ( Pai , figura de Lei , de repressividade , numa perspectiva psicanal\u00edtica ortodoxa e para W. Reich ) , n\u00e3o permitem aceder ao que j\u00e1 denominei de \u201cMeta-toler\u00e2nca\u201d , que numa perspectiva anal\u00edtica , seria a capacidade de aceitar , ou para os mais sens\u00edveis , tolerar , tudo o que est\u00e1 fora de mim , por mais diferente que seja ou por mais anti-social que seja , perante a lei vigente , mas para isso temos que aceitar as diferen\u00e7as existentes no nosso interior. E o que fazemos ? Clivamos realidades internas , sentido-as como \u201cm\u00e1s\u201d e por um processo de nega\u00e7\u00e3o e projec\u00e7\u00e3o , atacamos as realidades externas diferentes , que as sentimos como amea\u00e7a ou ataque .Afirmamos ent\u00e3o arrogantemente \u201cLoucos , perversos e estranhos s\u00e3o os outros\u201d. Da\u00ed que Freud fa\u00e7a todo o sentido , quanto mais analisamos e aprofundamos um indiv\u00edduo , mais nos aproximamos da base id\u00eantica , original em todos os seres humanos \u2013 as dores interiores , as perdas , as tens\u00f5es corporais , os medos da rela\u00e7\u00e3o e as ang\u00fastias mais prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>Aprendi muito , com o trabalho de jovens delinquentes , que solicitam acima de tudo , uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a , de seguran\u00e7a , de amor e \u00e9tica relacional. Sem julgamentos e sem necessidade obsessiva das institui\u00e7\u00f5es , de educa\u00e7\u00e3o para a justi\u00e7a ou para o direito.<\/p>\n<p>Na continuidade de Santo Agostinho , \u201cpodemos amar os viciados , sem amar os seus v\u00edcios\u201d , tal como , um portugu\u00eas , Frei Bernardo afirmou , que podemos amar os desviados , sem amar os seus desvios , ainda que para mim a palavra desvio ser\u00e1 mal utilizada e o seu significado incorrecto. Para Alex Leph\u00e9vre comportamento desviante nada tem de patol\u00f3gico . O desvio , que implica marginaliza\u00e7\u00e3o , \u00e9 acima de tudo originalidade . A psicopatologia teve sempre a tentativa de reduzir todo o fen\u00f3meno do desvio \u00e0 patologia . Para C\u00e2ndido da Agra , isso \u00e9 mau , para l\u00e1 de errado . \u00c9 um reducionismo. Da Agra afirma mesmo numa entrevista que me concedeu ,: \u201ch\u00e1 comportamentos desviantes saud\u00e1veis \u201d , sem necessidade do normal e do patol\u00f3gico. Afirmou , este meu ex-professor , acima de tudo , para l\u00e1 de psic\u00f3logo , um grande epistem\u00f3logo : \u201d Se os psis querem perceber alguma coisa do Desvio das normas , t\u00eam r\u00e1pidamente que abandonar o s\u00edtio onde se colocam . Qual \u00e9 esse o s\u00edtio ? O s\u00edtio m\u00e9dico , o da psicopatologia. Abandonar esta aura que os seduzem tanto , por raz\u00f5es de poder e de prest\u00edgio , em que a arrog\u00e2ncia est\u00e1 na raz\u00e3o directa da ignor\u00e2ncia , para n\u00e3o dizer da estupidez. \u201c. O desvio , tem outros sentidos , para l\u00e1 do normal e do patol\u00f3gico. Normalidade n\u00e3o \u00e9 oposto de patologia , existem normalidades patol\u00f3gicas , lembrem-se dos hiper-adaptados , hiper-conformistas , normopatas , concretos , sem realidade interior , sem fantasia , sem imagina\u00e7\u00e3o. Da Agra vai mais longe e refere que estamos habituados a julgar \u00e0 priori as coisas , e isso \u00e9 um grave erro. Considerar o desvio como patologia n\u00e3o tem fundamento ci\u00eant\u00edfico nenhum . Seremos n\u00f3s neutros , numa perspectiva Freudiana , na nossa pr\u00e1tica , ou faremos julgamentos moralistas , dos nossos pacientes e quantas vezes entre colegas?<\/p>\n<p>Como forma de provoca\u00e7\u00e3o , saibam que num congresso de epistem\u00f3logos , os mesmos chegaram \u00e0 conclus\u00e3o da falta de cientificidade das pr\u00e1ticas m\u00e9dicas. Se os psis , concretamente os psicoterapeutas querem com tanta arrog\u00e2ncia que as suas pr\u00e1ticas sejam ci\u00eant\u00edficas , ent\u00e3o que abandonem as grelhas de leituras m\u00e9dicas , higienistas e moralistas , com ju\u00edzos de valor , reduzindo os comportamentos desviantes \u00e0 psicopatologia.<\/p>\n<p>O Fil\u00f3sofo Paul Ricoeur n\u00e3o podia ter analisado melhor a rela\u00e7\u00e3o entre a norma e a interdi\u00e7\u00e3o , a introdu\u00e7\u00e3o do negativo perante a normaliza\u00e7\u00e3o.\u201dA interdi\u00e7\u00e3o tem uma motiva\u00e7\u00e3o que \u00e9 a cis\u00e3o existente no cora\u00e7\u00e3o do homem entre o prefer\u00edvel e o desej\u00e1vel , entre aquilo que vale mais e aquilo que eu desejo\u2026 \u00c9 a figura da norma , a separa\u00e7\u00e3o do normal e do \u201cpatol\u00f3gico\u201d. Considerando o n\u00e3o prefer\u00edvel como moralmente patol\u00f3gico , como desviante , como negativo , surge a interdi\u00e7\u00e3o a indicar as coisas que n\u00e3o se devem fazer. Come\u00e7a a aparecer o \u201c\u00e9 preciso\u201d como algo de estranho a mim e ao outro. A severidade da moralidade e a tristeza do moralismo come\u00e7am a impor-se , esquecendo a liberdade do homem\u201d. ( Fernandes , A. : O: , 1996).<\/p>\n<p>Thomas Szasz disse muito bem , ao afirmar que a ideologia que hoje amea\u00e7a as liberdades individuais n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a religiosa , mas a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Mas Nietzsche n\u00e3o poderia ter dito melhor : \u201d \u00c9 perigosa a cren\u00e7a de que a verdade confere \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es uma chancela moral \u2026O homem criou a boa educa\u00e7\u00e3o , mas para que serve ela , se Deus n\u00e3o soube criar o bom homem \u2026O Saber divide-se em aceit\u00e1vel e inaceit\u00e1vel . Ser\u00e1 que existem direitos de prioridade no saber aceit\u00e1vel ? Ser\u00e1 imoral uma falta de verdade? Ser\u00e3o imorais todos os factos que a ci\u00eancia n\u00e3o explica?\u2026O homem esgota-se ao reconhecer a verdade \u2026 Nada \u00e9 verdadeiro , todas as coisas s\u00e3o leg\u00edtimas\u201d.<\/p>\n<p>Numa perspectiva verdadeiramente humana , fazendo uma metafora com a imunologia corporal , Francisco Varela no cap\u00edtulo do \u201cEu do corpo\u201d , em conversas com Dalai Lama , nas \u201cEmo\u00e7\u00f5es que curam\u201d afirma que as doen\u00e7as auto-imunes , s\u00e3o uma prova de que por vezes o corpo n\u00e3o reconhece as pr\u00f3prias c\u00e9lulas e a sua integridade individual , e come\u00e7a a destruir-se . Numa vers\u00e3o externa , o que acontece por ignor\u00e2ncia , n\u00e3o reconhecemos os outros como iguais a n\u00f3s mesmos. A \u00e9tica destrutiva da vida \u00e9 o n\u00e3o reconhecimento de que a vida somos n\u00f3s mesmos e o outro de igual forma , por mais diferente que seja.<\/p>\n<p>E n\u00f3s os psicoterapeutas psicorporais , temos o direito de moralizar caracteres ou funcionamentos psicol\u00f3gicos?. Com que direito , nos colocamos por vezes no espa\u00e7o da normalidade para ler os outros? A nossa pseudonormalidade \u00e9 a da nossa estrutura de personalidade ou car\u00e1cter? A brilhante psicanalista Joyce McDougall na sua c\u00e9lebre obra \u201cEm defesa duma certa anormalidade\u201d, questiona e confronta-nos : Existem seres normais ? Existir\u00e1 normalidade do ponto de vista anal\u00edtico ? Existem analistas normais ? Existe sexualidade normal ? Existem \u201cnormas anal\u00edticas\u201d? Conclui afirmando que existem normais que s\u00e3o patol\u00f3gicos , s\u00e3o os \u201canalisandos-robots\u201d. O quantific\u00e1vel , a norma estat\u00edstica , pode ter um interesse cultural , mas n\u00e3o tem de certeza valor anal\u00edtico. Esquecemo-nos de Wilhelm Reich com \u201cAs origens da Moral Sexual\u201d, argumentando que as neuroses colectivas , que afectam as grandes massas , s\u00e3o consequ\u00eancia duma economia sexual , que est\u00e1 na base da organiza\u00e7\u00e3o das sociedades humanas .<\/p>\n<p>Que leitura fazemos n\u00f3s da Vida Sexual de Catherine Millet ? Famosa no mundo das artes pl\u00e1sticas e chefe de redac\u00e7\u00e3o da Revista \u201cArt Press\u201d , que exp\u00f4s na sua obra , a sua vida sexual , que seremos tentados a identific\u00e1-la como perversa ou ninfoman\u00edaca ? Seremos Neutros e Justos?Ou da obra de Jacques Henric , o seu marido que desde o in\u00edcio dos anos 70 , durante 30 anos fotografou o corpo nu de Millet , daquela que foi a actriz central da sua vida e dos seus romances. Um livro que pretende ser um belo livro de amor.<\/p>\n<p>Que leitura fazemos n\u00f3s , de Ana S\u00e1 Lopes , antrop\u00f3loga portuguesa , que estudou em Londres , uma excelente aluna na Universidade , que foi modelo para a pintora portuguesa Paula R\u00eago e que criou um Sindicato de\u201dSex Workers\u201d? . Defende estes profissionais , nos seus direitos e ficamos a saber que muitos profissionais de v\u00e1rias \u00e1reas da sociedade , passam a deixar a profiss\u00e3o para serem Sex Workers. Que an\u00e1lise anal\u00edtico-moralista ser\u00e3o tentados a fazer muitos psis em geral ? Da\u00ed que a fil\u00f3sofa Laura Kipnis na sua obra \u201cContra o Amor\u201d , de forma provocat\u00f3ria nas confer\u00eancias em Nova Iorque e Paris come\u00e7a por pedir a todos os adulteros , heteros ou gays , presentes na sala , que se levantem. Kipnis afirma que a conjugalidade moderna \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cgoulag\u201d dom\u00e9stico. Questiona se a religi\u00e3o , a arte , a sociedade e quanto a mim , muitos psis , sacralizam o casal , para melhor reprimir o desejo? Kipnis sempre provocat\u00f3ria afirma que o adultero representa o \u00faltimo rebelde , neste mundo que nos asfixia de interdi\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Que leitura fazemos n\u00f3s da prostitui\u00e7\u00e3o ? Cito-vos um excelente artigo , duma psic\u00f3loga Joana Amaral Dias , numa revista \u201cCorpo-Intimidade e Poder\u201dque denominou a partir do filme \u201cBelle de Jour\u201d , citando-a :<\/p>\n<p>\u201cMuita da ret\u00f3rica que est\u00e1 por detr\u00e1s do tr\u00e1fico actual das mulheres , tem uma base nas campanhas anti-escravatura branca , racista e xen\u00f3foba .Nenhum homem queria ter rela\u00e7\u00f5es sexuais com mulheres de cor (Outra Ra\u00e7a?) e o \u201cescravizadores\u201d seriam normalmente esteriotipados , como imigrantes.<\/p>\n<p>A colega Joana Amaral Dias vai mais longe , mas perto de Ana S\u00e1 Lopes : \u201cA maioria dos trabalhadores \u2013 mulheres , homens e transsexuais \u2013 t\u00eam menor capacidade de defender os seus direitos , j\u00e1 que \u00e9 a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o social que lhes limita a capacidade de resistir \u00e0 explora\u00e7\u00e3o\u2026 As prostitutas sentem-se condenadas e rejeitadas , insistindo que n\u00e3o querem ser tratadas como simbolo da \u201copress\u00e3o capitalista e patriarcal\u201d, mas antes reconhecidas pelo seu trabalho\u2026 A Literatura ocupa-se da prostitui\u00e7\u00e3o feminina e pouco da masculina ou dos transsexuais , e \u00e9 ainda muito mais sobre sexo , vitimiza\u00e7\u00e3o e risco do que sobre trabalho. Revela estigmatiza\u00e7\u00e3o , esteri\u00f3tipos , interpretando comportamentos em termos de caracter\u00edsticas \u201cdesviantes\u201d\u2026\u201d<\/p>\n<p>Que leitura fazemos n\u00f3s do aborto ? Sempre com quest\u00f5es fundamentalistas biol\u00f3gicas , com quest\u00f5es eticas e morais , ou socio-jur\u00eddicas e pol\u00edticas , acabando por n\u00e3o reconhecer os c\u00f3digos pessoais , viol\u00eancias internas , ang\u00fastias e depress\u00f5es , despsicologizando a mulher que aborta , porque como o psicanalista Jaime Milheiro afirma \u201cN\u00e3o existem m\u00e1quinas de fazer filhos quimicamente puras , nem m\u00e3es de proveta sem afecto\u201d. Seria bom que a favor da \u00e9tica humana e da realidade interna das mulheres e dos homens , que decidem abortar , se ponha fim a fundamentalismos religiosos e jur\u00eddicos , aut\u00eanticos moralistas envelhecidos , que n\u00e3o contribuem para o bem estar e a sa\u00fade das pessoas e das popula\u00e7\u00f5es .<\/p>\n<p>Que leitura fazemos n\u00f3s , da possibilidade de casais do mesmo sexo , poderem casar , constituir fam\u00edlia , a partir da adop\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as ? Questionarmos a no\u00e7\u00e3o de pai e m\u00e3e , que duma forma obrigat\u00f3ria , ter\u00e1 que existir de forma triangular , segundo a Santa Estrutura Familiar Conservadora . Que n\u00e3o podem existir outras formas de fam\u00edlia , alargando e questionando a no\u00e7\u00e3o de Estrutura Edipiana , com altera\u00e7\u00e3o da diferencia\u00e7\u00e3o ou igualdade de g\u00e9neros . Como se a sociedade tivesse que ser imut\u00e1vel e prolongar ou repetir ao longo da hist\u00f3ria o que tem tanto de caduco , como de r\u00edgido , na concep\u00e7\u00e3o do amor humano. O Amor \u00e9 de todos e para todos . Todos merecem amar para l\u00e1 de g\u00e9neros iguais ou diferentes , bem como merecem estruturar fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A dita fam\u00edlia conservadora heterocr\u00e1tica , tem tanto de idealizado , que consegue provar a exist\u00eancia de seguran\u00e7a , de confian\u00e7a , de amor , de espa\u00e7o de \u201ccolo\u201d afectivo , como de espa\u00e7o de invejas , ci\u00fames , rivalidades , viol\u00eancia , abusos e potenciador de estruturas psicopatol\u00f3gicas e perversidades , que bloqueiam o salutar desenvolvimento humano. Quem pode ditar as normas e a \u00e9tica duma fam\u00edlia humana? Se os direitos Humanos existem para todos , porque ser\u00e1 que a sociedade n\u00e3o ter\u00e1 que procurar altera\u00e7\u00f5es , salvaguardando o respeito e o Amor Universal?<\/p>\n<p>Flora Leroy-Forgeot publica uma obra , fazendo uma an\u00e1lise geral sobre as realidades de homoparentalidade . Da internormatividade , desde a normatividade teol\u00f3gica , da crian\u00e7a , dos seus direitos e limites , da moral , da \u00e9tica , da normatividade psicanal\u00edtica , e dentro desta , a Lacaniana , a normatividade biol\u00f3gica , m\u00e9dica e m\u00edtico-simb\u00f3lica , passando sempre pelos estudos e investiga\u00e7\u00f5es a n\u00edvel psicol\u00f3gico , afectivo e de identidade sexual , das crian\u00e7as , desenvolvidas nestas condi\u00e7\u00f5es , provam que as mesmas s\u00e3o mais tolerantes e de abertura socio-cultural , relativamente \u00e0s crian\u00e7as que se desenvolveram nas fam\u00edlias tradicionais.<\/p>\n<p>Martine Gross e Mathieu Peycer\u00e9 publicaram a sintese das analises jur\u00eddicas , \u00e9ticas e psicol\u00f3gicas , da \u201cFunda\u00e7\u00e3o duma Fam\u00edlia Homoparental\u201d.<\/p>\n<p>Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari , na c\u00e9lebre obra \u201cO anti-\u00e9dipo \u2013 Capitalismo e Esquizofrenia\u201d criticam duramente a idealiza\u00e7\u00e3o do \u00e9dipo , na psican\u00e1lise como sendo o objectivo do desenvolvimento da maturalidade , do car\u00e1cter genital. Para eles , o \u00e9dipo , transforma-se numa esp\u00e9cie de simbolo cat\u00f3lico universal . Existe no desenvolvimento humano para a psican\u00e1lise uma edipianiza\u00e7\u00e3o furiosa , depois de Freud a descobrir na sua auto-an\u00e1lise. Tenho pena que ao longo da hist\u00f3ria da psicoterapia , os psis n\u00e3o tenho explorado e questionando a c\u00e9lebre express\u00e3o Freudiana \u201d Romance Familiar\u201d. O \u00c9dipo seria uma verdadeiro imperialismo ao servi\u00e7o do capitalismo , que G. Bush , muito apreciar\u00e1 , apesar da sua pobreza cognitivo-intelectual e cultural. Arno Gruen n\u00e3o tem d\u00favidas , quando afirma na sua obra \u201d A trai\u00e7\u00e3o do Eu \u201d , que a aplica\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise reflecte nas m\u00e3os de muitos que a exercem , a ideologia da domina\u00e7\u00e3o. Vai mais longe quando afirma : \u201d A interpreta\u00e7\u00e3o que Freud d\u00e1 ao mito de \u00e9dipo , a meu ver , oculta a possessividade como um expediente para dar volta ao jogo destrutivo que \u00e9 o dom\u00ednio do homem sobre a mulher e que n\u00e3o nasce do amor , mas das suas distor\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Mas para a c\u00e9lebre Joyce McDougall a norma da psican\u00e1lise em fun\u00e7\u00e3o da estrutura normalisante , da estrutura edipiana , \u00e9 algo de preexistente ( culturalizado ) \u00e0 crian\u00e7a e que regula as rela\u00e7\u00f5es intrasubjectivas e interhumanas.<\/p>\n<p>Talvez por isso , quando dois psicanalistas argentinos , se deslocaram a Paris , para um Congresso internacional , sobre as altera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia no futuro , McDougall , mostrou-se aberta e entusiasmada com as transforma\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia , com a possibilidade do amor , ser para l\u00e1 da diferencia\u00e7\u00e3o de sexos e da possibilidade de adop\u00e7\u00e3o por casais do mesmo sexo. Duma forma irreverente , esta psicoterapeuta na altura com mais de 80 anos , referiu , que estes casais do mesmo sexo , n\u00e3o tem que defender o slogan \u201cNem putas , nem submissas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNem Putas , nem submissas\u201d , foi um movimento criado por Fadela Amara , Isl\u00e2mica , laica , que apoiou a laicidade Francesa e que denunciou a forma como a mulher \u00e9 tratada pelos fundamentalismos religiosos , depois de nos suburbios de Paris um Isl\u00e2mico ter queimado a sua namorada . Este movimento surgiu em Paris , espalhou-se a outras cidades Francesas , hoje existe em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa , nomeadamente em Espanha e Portugal e nos EUA e no Canad\u00e1 , bem como em pa\u00edses do MAGREBE. A revolta deste movimento , com slogan provocat\u00f3rio \u201cNem putas , nem submissas\u201d , levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o duma equipa do governo , chefiado por Jean-Pierre Raffarin para responder \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es apresentadas. Fadela Amara assume-se isl\u00e2mica , mas com uma abertura face \u00e0 no\u00e7\u00e3o de homem , mulher , das sexualidades e da laicidade , maior que a de muitos cat\u00f3licos , praticantes ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Joyce McDougall na sua obra \u201cEm defesa duma certa anormalidade\u201d , criou o termo de \u201cneosexualidades\u201d e de \u201csexualidades aditivas\u201d , que n\u00e3o eram perversas , mas que permitiam a indiv\u00edduos \u00e0 beira da \u201cloucura\u201d , encontrarem o caminho da cura , da criatividade e da auto-realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta continuidade pretendo citar a grande actriz francesa Isabelle Huppert , que ap\u00f3s o seu c\u00e9lebre filme : A Pianista\u201d , deu uma entrevista a uma revista psicanal\u00edtica Lacaniana e afirma : \u201cO filme fala do controle , da perda de controle , de sexualidade e de viol\u00eancia , que nos remete sempre para a nossa origem : ang\u00fastia de abandono , medo de amar e de ser amado . N\u00e3o h\u00e1 em Erika , um caso de pervers\u00e3o ou de sadomasoquismo. Nada \u00e9 patol\u00f3gico\u201d. Uma pedrada brutal a todos os psis , que n\u00e3o perderam tempo , a fazer tais interpreta\u00e7\u00f5es. Isabelle Huppert saber\u00e1 o que diz , quando afirma na mesma entrevista que \u201d Uma actriz , no cinema d\u00e1 o seu corpo \u201cEm desordem\u201d a um realizador que nos trabalha , que nos modela como a mat\u00e9ria. \u00c9 este aspecto de \u201ctranfus\u00e3o\u201d de imagin\u00e1rios , que nos abre limites inteiros , sobre o nosso pr\u00f3prio mundo , exactamente como numa an\u00e1lise. Tenho empatia , uma fus\u00e3o total com as mulheres que eu represento\u201d.<\/p>\n<p>Portanto , se queremos ter um esp\u00edrito ci\u00eant\u00edfico , temos que ter abertura ao relativismo ao contr\u00e1rio , do actual Papa Bento XVI , que se choca com os relativismos actuais. Para isso , ser\u00e1 importante sabermos as contesta\u00e7\u00f5es e a bibliografia recente publicada , violenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise e as respectivas reac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A psicanalista Elisabeth Roudinesco publicou um livro , \u201cPor que a Psican\u00e1lise? \u201cpara responder \u00e0s falsas interpreta\u00e7\u00f5es e distor\u00e7\u00f5es dos professores de F\u00edsica : Alan Sokal e Jean Bricmont , acerca dos psicanalistas e concretamente de Lacan , a partir da obra violenta \u201cImposturas Intelectuais\u201d , bem como , do neuropsiquiatra Pierre Debray-Ritzen , com a sua obra , cheia de falsas interpreta\u00e7\u00f5es : \u201d A Psican\u00e1lise \u2013 essa Impostura\u201d.<\/p>\n<p>Mais recentemente , foi a vez de quatro cognitivo-comportamentais Franceses , escreverem \u201cO Livro Negro da Psican\u00e1lise\u201d , depois de sairem v\u00e1rios Livros Negros ( Do capitalismo , do Comunismo , Do Chile , De Cuba ) . Os autores come\u00e7am por agredir a Fran\u00e7a e a Argentina , por serem os pa\u00edses mais Freudianos do mundo .<\/p>\n<p>Elisabeth Roudinesco respondeu de seguida , com a obra : \u201d Porqu\u00ea tanto \u00f3dio?\u201d .<\/p>\n<p>Quanto a mim a Psican\u00e1lise e os modelos psicorporais , podem ter um grande valor , podem ser modelos acima de tudo \u00e9ticos , porque respeitam a liberdade do ser , dever\u00e3o respeitar a diferencia\u00e7\u00e3o dos seres e enfatizam a rela\u00e7\u00e3o como repeti\u00e7\u00e3o ou prolongamento dos fen\u00f3menos precoces do desenvolvimento , que permitem ao ser humano , neste quadro ou setting terap\u00eautico , num clima de seguran\u00e7a , confian\u00e7a , se quiserem \u201csuficientemente bom\u201d , promover o lado humano , que diferencia , mas nos aproxima da realidade que \u00e9 igual para todos. A perspectiva cognitivo-comportamental est\u00e1 mais preocupada com o auto-controle e a adaptabilidade social , e quantas vezes com o refor\u00e7o positivo , num terreno movedi\u00e7o , da auto-estima e auto-imagem , favorecendo n\u00facleos narc\u00edsicos , sem qualquer tipo de integra\u00e7\u00e3o no todo da personalidade . Estes modelos negam e defendem-se das partes \u201cloucas\u201d da personalidade , mais prim\u00e1rias ,mais arcaicas , no interior de todo o ser humano. A interven\u00e7\u00e3o \u00e9 pragm\u00e1tica , preocupada com a objectividade , aparentemente ci\u00eantifica no ser humano , sem enfatizar rela\u00e7\u00e3o humana , como potenciadora duma nova vis\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o com o mundo interno e externo.<\/p>\n<p>O que defendo \u00e9 que esta rela\u00e7\u00e3o , dever\u00e1 promover liberdade e respeito , numa base de \u00e9tica relacional , sem moralismos ou obsess\u00e3o com a adaptabilidade social , se esta n\u00e3o promove felicidade , mas constrangimentos ou bloqueios e encoura\u00e7amentos , que nos desviam dos desejos e dos prazeres mais individuais .<\/p>\n<p>Defendo que a cl\u00ednica anal\u00edtica psicorporal deve respeitar a diferen\u00e7a , a partir da delimita\u00e7\u00e3o eu-n\u00e3o eu , eu-outro , paciente \u2013 psicoterapeuta , que promova a liga\u00e7\u00e3o corpo-mente , das sensa\u00e7\u00f5es \u00e0s representa\u00e7\u00f5es , podendo este identificar e associar com menos dor e mais toler\u00e2ncia interna , ou mais colorido emcional , as partes s\u00e3s e as partes loucas , as dores e as tens\u00f5es , sem se encapsular , delirar , psicossomatizar ou rigidificar de forma neur\u00f3tica , a sua hist\u00f3ria e o seu funcionamento psico-corporal.( Gomes , J.L. , 2003 ).<\/p>\n<p>Para isso defendo na continuidade de Alain Delourme que a implica\u00e7\u00e3o afectiva ou alian\u00e7a de trabalho , s\u00e3o as bases do reconhecimento do transfert e da gest\u00e3o dos limites entre a aproxima\u00e7\u00e3o e a dist\u00e2ncia , ou melhor dito , de dist\u00e2ncia intima . Esta ser\u00e1 um cruzamento da filosofia \u00e9tica , da psican\u00e1lise freudiana e das terapias psico-corporais.<\/p>\n<p>O Colombiano Lu\u00eds Carlos Restrepo , Alto Comiss\u00e1rio para a Paz na Col\u00f4mbia , a partir da excelente obra \u201c\u00c9tica do Amor \u201d , defende que a ternura nada tem a ver com a \u00e9tica normativa , e que a educa\u00e7\u00e3o deve ter a ver com est\u00e9tica social, isto \u00e9 , cultivar a singularidade e n\u00e3o uma f\u00e1brica de homog\u00e9neos , de normativos. Abandonar o analfabetismo emocional , ensinar para a liberdade , que faz de n\u00f3s humanos , a partir do afecto , considerando o outro , como lugar sagrado , quanto a mim , para l\u00e1 de qualquer divindade existente. Temos que perder o medo da desordem e acreditar que esta \u00e9 origem da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos que repensar se o amor \u00e9 depend\u00eancia , como prolongamento ou repeti\u00e7\u00e3o , do modelo simbi\u00f3tico-fusional m\u00e3e-b\u00e9b\u00e9 , e um fundamentalismo psicanal\u00edtico , como Carlos Amaral Dias , refere num di\u00e1logo com Nuno Nabais , metaforizando com a rela\u00e7\u00e3o senhor e escravo , como modelo maximo da depend\u00eancia. O Fil\u00f3sofo Nuno Nabais , n\u00e3o vai por a\u00ed , considera o sofrimento do amor , como uma forma de pervers\u00e3o , tal como Freud e Lacan , consideram quase todas as formas de sexualidade , inclusivamente as Heterossexuais. \u201cA anula\u00e7\u00e3o de si , diante da pessoa amada , \u00e9 uma forma desviante ou mais subtil de busca de prazer \u2026o sofrimento do amor , como experi\u00eancia do nada , do desaparecimento de si? Ser\u00e1 o que Freud chama de puls\u00e3o de morte? \u2026O Amor \u00e9 a descoberta mais terr\u00edvel de que estamos condenados \u00e0 solid\u00e3o de sermos uma singularidade\u201d Existir\u00e1 Amor ou Amores ? O Amor ser\u00e1 singular ou conceito plural , de acordo com a idade que se ama ou conforme a rela\u00e7\u00e3o? Existe ou n\u00e3o existe o amor ? Ser\u00e1 uma forma da rela\u00e7\u00e3o do inconsciente , da fantasia da uni\u00e3o entre dois seres , como Lacan soube bem comparar tranfer\u00eancia anal\u00edtica e amorosa , sendo a primeira universal e a segunda espec\u00edfica. O lugar onde me coloco , quase di\u00e1riamente , quando realizo avalia\u00e7\u00f5es e diagn\u00f3sticos de Regula\u00e7\u00f5es do Poder Paternal \u00e9 o Lugar previligiado de perversidade e de patologia brutal , numa separa\u00e7\u00e3o , do tal dito \u201camor\u201d ou melhor \u201crela\u00e7\u00e3o amorosa\u201d e que nos prova a brilhante intui\u00e7\u00e3o de M\u00e9lanie Klein contra Jean Jacques Rousseau . Isto \u00e9 : \u201cO homem \u00e9 mau por natureza , anda a provar a vida inteira , que \u00e9 bom\u201d, e n\u00e3o , \u201d O homem \u00e9 bom por natureza , a sociedade \u00e9 que o estraga\u201d.<\/p>\n<p>Estas formas de ler o humano , levam-me \u00e0 vis\u00e3o idealizada e ao mesmo tempo castradora de se humanizar o homem e socializ\u00e1-lo , a partir da repressividade da institui\u00e7\u00e3o super-eg\u00f3ica religiosa Judaico-crist\u00e3. Apesar de Freud ter interpretado a religi\u00e3o como uma neurosa colectiva e uma ilus\u00e3o , a verdade \u00e9 que te\u00f3logos e padres se interessaram pela psican\u00e1lise , pelo que ela pode ter de adaptativo e n\u00e3o de liberdade na singularidade do ser. S\u00e3o os opostos entre a psicologia do ego americana e a objectologia , ou psicologia das rela\u00e7\u00f5es objectais , mais europe\u00edsta. Alguns psicoterapeutas e te\u00f3logos chegaram mesmo a argumentar que \u201ca psican\u00e1lise n\u00e3o apresenta perigo se for administrada por um analista , com uma filosofia crist\u00e3. Mas poder\u00e1 ser perniciosa , se o analista tiver uma filosofia materialista e ateia , da qual Freud foi um ardente defensor\u201d. O Papa Pio XII , salientou para n\u00e3o confundir div\u00e3 e confiss\u00e3o , referindo que nenhum tratamento psicol\u00f3gico , pode vencer ou ultrapassar a culpabilidade , dum indiv\u00edduo que cometeu um pecado. Uma obra publicada em Fran\u00e7a por Marc Oraison (1914-1979) , em 1952 , com uma tese de teologia dedicada \u00e0 vida crist\u00e3 e aos problemas da sexualidade, isto \u00e9 , atrav\u00e9s dum exame pericial psicol\u00f3gico na Igreja , verificar quem escolheu a religi\u00e3o n\u00e3o por voca\u00e7\u00e3o , mas para obedecer a uma escolha pulsional. Defendia uma laiciza\u00e7\u00e3o da vida religiosa. O Papa Pio XII ordenou que o livro do padre Franc\u00eas fosse inclu\u00eddo no Index. Mas numerosos padres franceses come\u00e7aram a ser analisados , bem como na B\u00e9lgica e na Am\u00e9rica Latina, influenciados pela Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o . Em vinte anos de 1955 a 1975, alguns padres renunciaram \u00e0 profiss\u00e3o , tornaram-se psicoterapeutas , outros ainda viveram com mulheres ou praticaram clandestinamente uma homossexualidade at\u00e9 ent\u00e3o recalcada. Num mosteiro no M\u00e9xico , 60 monges foram seguidos em terapia de grupo , com a orienta\u00e7\u00e3o de dois psicanalistas , da IPA. Ap\u00f3s dois anos , o director do mosteiro \u2013 Lemercier e 40 monges abandonaram a profiss\u00e3o de sacerdotes , para se casarem ou manterem rela\u00e7\u00f5es sexuais.<\/p>\n<p>Woody Allen tinha toda a raz\u00e3o quando afirmou , que a masturba\u00e7\u00e3o era a \u00fanica forma de se fazer amor , com quem se ama verdadeiramente. Alain Vanier n\u00e3o podia ter dito melhor , quando num semin\u00e1rio que decorreu em Paris sobre \u201cOs sexos Indiferentes\u201d , denominou a sua excelente comunica\u00e7\u00e3o : \u201d A indiferen\u00e7a dos sexos , \u00e9 o amor\u201d.<\/p>\n<p>Portanto , teremos que ter aten\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura que fazemos da realidade do outro e \u00e0 indica\u00e7\u00e3o das mais importantes para Freud e para as terapias anal\u00edticas . Teremos que pensar acerca do desenvolvimento moral dos psicoterapeutas . Aqui lembro-me de L. Kohlberg , esse grande psic\u00f3logo do desenvolvimento moral . L. Kohlberg , que algu\u00e9m o propos para pr\u00e9mio Nobel da Psicologia , se o mesmo existisse.<\/p>\n<p>Para ele , o desenvolvimento moral dividia-se , ou estruturava-se em est\u00e1dios cognitivo-afectivos , que estariam agrupados em 3 n\u00edveis : pr\u00e9-convencional , convencional e p\u00f3s-convencional . L. Kohlberg estratificou 6 est\u00e1dios : 2 dirigidos ao si pr\u00f3prio , sob a base de recompensa e castigo , 2 dirigidos \u00e0 sociedade e boa adapta\u00e7\u00e3o socio-legal , e 2 dirigidos \u00e0 universalidade dos direitos \u00e9tico-.morais.<\/p>\n<p>O pior saiu das investiga\u00e7\u00f5es inter-culturais deste grande \u201cPsi\u201d. A mulher em termos m\u00e9dios situa-se no est\u00e1dio 3 e o homem no est\u00e1dio 4.<\/p>\n<p>A Psic\u00f3loga Carol Gilligan contestou e muito bem , estes dados , salientando que estes estudos confirmam a teoriza\u00e7\u00e3o do grande \u201cpsi\u201d , que os seus est\u00e1dios se perspectivam em fun\u00e7\u00e3o de um ponto de vista predominantemente masculino. N\u00e3o h\u00e1 inferioridade alguma ,mas sim diferen\u00e7a de g\u00e9neros na elabora\u00e7\u00e3o de uma escala de valores. Nem lhe valeu o Super-ego feminino inferior , dependente de paix\u00f5es .<\/p>\n<p>Depois de estudos inter-culturais ( Taiwain , M\u00e9xico , Turquia , \u00cdndia , Qu\u00e9nia , Bahamas e Israel ) , Kohlberg tentou um 7\u00ba est\u00e1dio , que tal n\u00e3o conseguiu resolver , de acordo com as \u00e9ticas discursivas pelo grande fil\u00f3sofo Alem\u00e3o Jurgen Habermas.<\/p>\n<p>Pergunto eu , se s\u00f3 apenas 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial ascende ao est\u00e1dio 6 do desenvolvimento moral , ser\u00e1 que n\u00e3o deveria ser uma exig\u00eancia dos psicoterapeutas anal\u00edticos e psicocorporais ? E a ser assim , ser\u00e1 que que os psis n\u00e3o teriam que fazer forma\u00e7\u00e3o rigorosa e estimula\u00e7\u00e3o socio-\u00e9tico-humana em desenvolvimento moral?<\/p>\n<p>Na continuidade , de reavali\u00e7\u00e3o do \u00e9dipo anal\u00edtico e do seu prolongamento da fam\u00edlia conservadora , burguesa e patriarcal , ser\u00e1 que os psis e cl\u00ednicos da psican\u00e1lise e dos modelos psicorporais , n\u00e3o ter\u00e3o de integrar os novos conceitos , teoriza\u00e7\u00f5es e saber revolucion\u00e1rio , tanto a n\u00edvel psicol\u00f3gico e antropol\u00f3gico , como epistemol\u00f3gico , da Teoria \u201cQueer\u201d. Refira-se que este termo , est\u00e1 muito para al\u00e9m do sentido perjorativo , de pessoas com orienta\u00e7\u00e3o homossexual . Mas na linha duma defini\u00e7\u00e3o de inst\u00e1vel , de n\u00e3o fixo , de n\u00e3o definido. Pretende-se acabar com a \u201cteologia cl\u00ednica\u201d e promover uma laiciza\u00e7\u00e3o dos valores e das teorias na cl\u00ednica e na psicoterapia. Para estes acad\u00e9micos universit\u00e1rios , reconhecidos internacionalmente , como Judith Butler ou Teresa de Lauretis , pretende-se com este conceito e os estudos Gay e L\u00e9sbicos , evidenciar a dificuldade das mulheres se representarem numa linguagem e aparelho conceptual criado pelos homens. Uma nova forma de pensar o sexual ou fazer uma pol\u00edtica de identidade , sem processos de nomea\u00e7\u00e3o. Lugar inst\u00e1vel , de contesta\u00e7\u00e3o de identidades fixas , r\u00edgidas , est\u00e1veis .<\/p>\n<p>A espanhola Beatriz Preciado publicou um manifesto contra-sexual. Vive entre Fran\u00e7a e Estados Unidos e pretende apresentar uma teoria do corpo , com manifestos e contratos , para abolir as oposic\u00f5es masculino \/ feminino , heterossexualidade \/ homossexualidade . A contra-sexualidade \u00e9 uma an\u00e1lise cr\u00edtica da diferen\u00e7a de g\u00e9nero e de sexo , como produto de um contrato social heterocentrado , como se fosse uma verdade biol\u00f3gica da natureza. Pretende-se que os corpos se reconhe\u00e7am uns aos outros , n\u00e3o como homens ou mulheres , mas como sujeitos que falam , que se expressam , sem ser id\u00eanticos. A base dos conceitos s\u00e3o de Gilles Deleuze , Jacques Derrida e Michel Foucault.<\/p>\n<p>Marie-H\u00e9l\u00e8ne Bourcier em Fran\u00e7a , activista Queer , da Universidade de Lille , cr\u00edtica Lacan e mesmo Pierre Bourdieu , um soci\u00f3logo de esquerda liberal , mas tamb\u00e9m o feminismo , e o movimento \u201cNem putas , nem submissas\u201d.Pretende libertar o sexo da pol\u00edtica e da psicopatologia , do desvio , e das leituras moralistas e absurdas das ci\u00eancias humanas e sociais.<\/p>\n<p>Anne Loncan , pedo-psiquiatra e psicanalista , foi directiva numa revista \u201cCultures en Mouvement\u201d , com a tem\u00e1tica : \u201cFam\u00edlias em Mudan\u00e7a\u201d , um congresso que decorreu em Paris , em que estiveram presentes os psicanalistas argentinos que entrevistaram Joyce McDougall(que citei anteriormente) . Afirma que a corrente \u201cQueer\u201d, ilustra a dificuldade de compreender como \u201cpai\u201d e \u201cm\u00e3e\u201d, continuam a existir nas identifica\u00e7\u00f5es , quando as novas parentalidades (conceito novo na Justi\u00e7a da Fam\u00edlia ) , metem o acento sobre a pessoa , as suas compet\u00eancias e as suas pr\u00e1ticas parentais.<\/p>\n<p>Loncan, cita Didier Anzieu , sobre o transfert homossexual de Freud com Fliess , sobre o \u00e9dipo e a no\u00e7\u00e3o generalizada de bissexualidade , que mobiliza defesas contra o reconhecimento da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o e contra a rememoriza\u00e7\u00e3o da teoria sexual infantil , que explica a diferen\u00e7a dos sexos pela castra\u00e7\u00e3o das mulheres. Cita M. Klein e o seu \u00e9dipo precoce , a exist\u00eancia de \u201cproto-pais\u201dpouco diferenciados , que se tornam s\u00f3 mais tarde , mais realistas e sexuados.<\/p>\n<p>A teoria \u201cqueer \u201d defende a versatilidade da identidade de g\u00e9nero , pr\u00f3-Michel Foucault , contra o poder conservador do sexo. A defesa da fluidez das identidades , caracter\u00edsticas das novas sociedades : rapidez , plasticidade, evolu\u00e7\u00e3o , fragmenta\u00e7\u00f5es e recomposi\u00e7\u00f5es aceleradas.<\/p>\n<p>Que o diga Javier S\u00e1ez , soci\u00f3logo Espanhol , que dirige um curso da Teoria \u201cQueer\u201d, milita grupos de defesa de direitos do homem e antihom\u00f3fobos, na sua obra \u201cTeoria Queer e psican\u00e1lise\u201d. Interessante a sua an\u00e1lise brilhante sobre as rela\u00e7\u00f5es de Freud e at\u00e9 de Lacan , ao longo da sua vida , sobre as no\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero sexual e as mudan\u00e7as sobre os efeitos nos processos de identifica\u00e7\u00e3o . Do \u201canti-\u00e9dipo\u201d de Deleuze e Guattari at\u00e9 \u00e0 actualidade da psican\u00e1lise , a obra pretende alertar para o fim das pr\u00e1ticas e posi\u00e7\u00f5es normativas , a partir dum corpo sexuado , e dos seus efeitos sobre o sujeito \u2013 pessoa , para l\u00e1 do g\u00e9nero. Compara sempre uma leitura \u201cqueer\u201d e uma leitura psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>O conservadorismo patriarcal associado \u00e0 religiosidade , no caso ocidental , ao Juda\u00edsmo-cristianismo , conduziu a sexualidade ao obscuro , \u00e0 patologia , \u00e0 perversidade , ao medo , ao pecado , a um conformismo social e familiar.<\/p>\n<p>Com Wilhelm Reich , que bem soube analisar na sua obra \u201co Assassinato de Cristo\u201d , ,que em toda a hist\u00f3ria da humanidade , se distorceu , reprimiu e negou a liberdade do ser humano , ao contr\u00e1rio do que Cristo ensinou e bem , a partir da Par\u00e1bola da Maria Madalena , que quem n\u00e3o tem pecados que lhe atire a primeira pedra , deduzimos uma verdade antropol\u00f3gica e psicol\u00f3gica , que o ser humano , s\u00f3 pelo facto de ser HUMANO , est\u00e1 condenado a pecar , que numa perspectiva religiosa e psicanal\u00edtica , ambas tem em comum , a culpabilidade a partir da transgress\u00e3o . Ultrapassar os interditos religiosos , ou estar em sintonia com as puls\u00f5es e adormecer , flexibilizar ou por vezes matar a r\u00edgida inst\u00e2ncia super-eg\u00f3ica. Se com Freud aprendemos que todo o ser humano \u00e9 algo neur\u00f3tico , se com M. Klein e Bion , aprendemos que os n\u00facleos psic\u00f3ticos e o funcionamento relacional psic\u00f3tico faz parte do ser humano , no seu desenvolvimento , se com R. Stoller , Freud ou mesmo Lacan , aprendemos que a perversidade , faz parte do ser humano e da sua sexualidade , como poderemos julgar algu\u00e8m duma forma cl\u00ednica e moralista , parecendo que nos regemos por vezes com um saber de aut\u00eantica \u201cteologia cl\u00ednica\u201d?<\/p>\n<p>O actual Papa Bento XVI , publicou uma obra , ainda era cardeal Ratzinger , sobre a decad\u00eancia da Europa , ao liberalizar sexualidades que as considera , anti-naturais e pecaminosas , ao aceitar casamentos entre pessoas do mesmo sexo , ao n\u00e3o respeitar os direitos das crian\u00e7as , permitindo que casais homossexuais possam adoptar crian\u00e7as , substituindo a terminologia de pais , para progenitores , ao permitir que a mulher assuma fun\u00e7\u00f5es na sociedade indiferenciadas do pr\u00f3prio homem , ao n\u00e3o defender o casal heterossexual e a fam\u00edlia , conduzindo \u00e0 baixa de natalidade , tudo isto levar\u00e1 \u00e0 decad\u00eancia moral , social e humana da Europa .<\/p>\n<p>Respondo a esta vis\u00e3o pouco humana , n\u00e3o respeitadora das diferen\u00e7as e dos relativismos , que para o Papa Bento XVI , s\u00f3 servem para criarem d\u00favidas e incertezas perante os dogmas da f\u00e9 , sendo por isso mesmo um defensor do absolutismo .<\/p>\n<p>Gordon Graham , um fil\u00f3sofo da \u00c9tica e da moralidade , encontra o significado da moral , ao longo da hist\u00f3ria , entre o pecado e o crime. Apesar da sua an\u00e1lise ser exaustiva , Graham segue uma perspectiva Nietzschiana , a partir da sua obra : \u201cA Genealogia da Moral\u201d. Com a \u201cmorte de Deus\u201d , d\u00e1-se a implos\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 e teremos que fazer uma reavalia\u00e7\u00e3o de Todos os Valores.<\/p>\n<p>Cito-vos Graham : \u201cO que chamamos moralidade , n\u00e3o \u00e9 uma esfera universal e eterna do certo e errado, mas um artefacto cultural , que atrav\u00e9s do igualitarismo crist\u00e3o , pode de forma falsa , consolar o povo com a cren\u00e7a de que possuem um tipo de valor semelhante \u00e0quele que , no mundo antigo das virtudes , apenas \u00e9 possu\u00eddo por seres humanos excelentes e especiais\u201d . Atribui-se um valor humano a toda a gente , quer o mere\u00e7a , quer n\u00e3o. Com a \u201cmorte de Deus\u201d , deixa de existir fundamento para c\u00f3digos espec\u00edficos de moralidade. Precisamos ent\u00e3o de facto duma Reavalia\u00e7\u00e3o de Todos os Valores .<\/p>\n<p>Por exemplo , concordo com alguns analistas que encontram no \u00e9dipo , a figura central de solucionar enigmas e provar-nos que o homem se coloca entre a culpa e a reden\u00e7\u00e3o , e n\u00e3o , para confirmar algum tipo normal ou ideal de fam\u00edlia . Alguns psicanalistas e antrop\u00f3logos interpretaram formas edipianas , em fam\u00edlias diferentes de certas tribos , por exemplo da Nova Guin\u00e9.<\/p>\n<p>Portanto , o poder pol\u00edtico e religioso , e muitas vis\u00f5es de psicoterapeutas , a partir de leis , interdi\u00e7\u00f5es e certas interpreta\u00e7\u00f5es da realidade humana , que separam o puro , o verdadeiro , o normal , do impuro , perverso e anormal , tem consequ\u00eancias directas na organiza\u00e7\u00e3o subjectiva do ser humano e por isso mesmo , um ataque \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n<p>Pretendo fazer uma apologia duma contra-cultura libert\u00e1ria , contra as formas de opress\u00e3o do individuo . A Psican\u00e1lise ( como outras doutrinas \u201cpsi\u201d) , pelo modo como se d\u00e1 o recrutamento e a transmiss\u00e3o da arte de psicanalizar, acaba exigindo um grau de ades\u00e3o pr\u00f3ximo da convers\u00e3o religiosa , afirma Jane Russo. H\u00e1 que criticar estas an\u00e1lises ing\u00eanuas , adaptadoras , despolitizadas , que sempre s\u00e3o autorit\u00e1rias , para n\u00e3o dizer fascizantes. \u201cReligi\u00e3o\u201d dita ci\u00eant\u00edfica , \u00e9 verdadeiramente subversiva , uma nova religi\u00e3o do Filho , liberto do Pai , e destinada a substituir a \u201cfalsa religi\u00e3o\u201d pela egofania er\u00f3tica.<\/p>\n<p>Termino afirmando , que se pensam que fiz um ataque aos modelos anal\u00edticos , jamais serei capaz de fazer tal coisa . Acima de tudo , pretendi relativizar , problematizar e contestar conceitos , que se tornam enquistados e que n\u00e3o permitem a muta\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos e das sociedades , bem como , a preserva\u00e7\u00e3o e defesa dos b\u00e1sicos direitos humanos , e destes nos nossos consult\u00f3rios , a partir das nossas psicoterapias e dos nossos pacientes . Tentei mostrar , como muitas vezes , a partir de moralismos patol\u00f3gicos , securizantes a partir de saber ci\u00eant\u00edfico incontest\u00e1vel , absoluto , n\u00e3o permitimos a liberdade do SER dos nossos pacientes. Como afirmei com o t\u00edtulo da comunica\u00e7\u00e3o : \u201cVerdades Psicorporais h\u00e1 muitas , \u00e9tica relacional h\u00e1 s\u00f3 uma\u201d.<\/p>\n<p>Aos meus pacientes e a todos os utentes do Tribunal de Fam\u00edlia e Menores de Braga , dedico esta minha reflex\u00e3o , muta\u00e7\u00e3o e crescimento no saber e no sentir do outro . O outro , s\u00f3 faz e est\u00e1 na vida , duma forma estrutural , porque n\u00e3o sabe e est\u00e1 limitado, para estar e fazer de uma outra forma . Se n\u00e3o for pedir demais , espero ter crescido nas fases propostas por L. Kholberg.<\/p>\n<p>3\u00aas Jornadas Ib\u00e9ricas de An\u00e1lise Bioenerg\u00e9tica \u2013 28 \u2013 29 de Janeiro de 2006 \u2013 Bilbao \u2013 Espanha.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Gomes<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; See more at: http:\/\/www.analisebioenergetica.com\/site\/?p=993#sthash.YnMrW1c9.dpuf<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm dia , o diabo falou-me assim : \u201cDeus tamb\u00e9m tem o seu inferno , \u00e9 o seu amor pelos homens.\u201d E, mais recentemente , ouviu-o<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1443,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,4,6],"tags":[],"class_list":["post-993","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise-bioenergetica","category-artigos","category-destaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=993"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/993\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1443"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}