{"id":94,"date":"2011-01-11T01:45:00","date_gmt":"2011-01-11T01:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.analisebioenergetica.com\/site\/?p=94"},"modified":"2011-01-11T01:45:00","modified_gmt":"2011-01-11T01:45:00","slug":"o-cuidar-na-perspectiva-do-acompanhamento-terapeutico-um-campo-de-possibilidades-insuspeitadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/o-cuidar-na-perspectiva-do-acompanhamento-terapeutico-um-campo-de-possibilidades-insuspeitadas\/","title":{"rendered":"O CUIDAR NA PERSPECTIVA DO ACOMPANHAMENTO TERAP\u00caUTICO: UM CAMPO DE POSSIBILIDADES INSUSPEITADAS"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>    25 &#8211; T\u00edtulo do trabalho<br \/>    O CUIDAR NA PERSPECTIVA DO ACOMPANHAMENTO TERAP\u00caUTICO: UM CAMPO DE POSSIBILIDADES INSUSPEITADAS<\/p>\n<p>Ana Celeste de Ara\u00fajo Piti\u00e1<br \/>Doutora pelo Programa Interunidades de Doutoramento da Escola de Enfermagem da USP &#8211; Ribeir\u00e3o Preto \u2013 SP; Mestra em Enfermagem Psiqui\u00e1trica pela Escola de Enfermagem da USP- Ribeir\u00e3o Preto, Psicoterapeuta Corporal Neo-Reichiana, com forma\u00e7\u00e3o no Instituto Neo-Reichiano Lumen de Ribeir\u00e3o Preto, Treinee internacional em An\u00e1lise Bioenerg\u00e9tica pelo The International Institute for Bioenergetic Analysis Su\u00ed\u00e7a (4\u00ba ano), atrav\u00e9s da Sociedade de An\u00e1lise Bioenerg\u00e9tica Lumen de Ribeir\u00e3o Preto. Curso de Acompanhante Terap\u00eautico &#8211; 1997.<\/p>\n<p>Manoel Ant\u00f4nio dos Santos<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Este trabalho consiste em um relato de experi\u00eancia em Acompanhamento Terap\u00eautico de um paciente diagnosticado como portador de transtorno depressivo, em primeiro surto psic\u00f3tico. Trata-se de um homem de 46 anos, eletricista, encaminhado pelo setor de medicina do trabalho da empresa em que trabalhava, manifestando os seguintes sintomas: medo das m\u00e1quinas, sentimento de incapacidade para o trabalho e id\u00e9ia prevalente de ru\u00edna relacionada \u00e0 forte impress\u00e3o de que iria ser despedido de seu emprego, o que possibilitaria uma derrocada econ\u00f4mica em sua vida pessoal, uma vez que \u201ctoda sua fam\u00edlia ficaria na mis\u00e9ria\u201d.<br \/>Encaminhado para Acompanhamento Terap\u00eautico para ser auxiliado, terapeuticamente, em seu pr\u00f3prio local de trabalho, apresentava manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas que se relacionavam \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es com sua atividade funcional. No acompanhamento deste caso, chamou a aten\u00e7\u00e3o do acompanhante: a) a solicita\u00e7\u00e3o do Acompanhamento por iniciativa de uma empresa; b) a possibilidade do acompanhante terap\u00eautico se apresentar como um agente entre psiquiatra\/empresa\/cliente\/fam\u00edlia; c) a possibilidade de utiliza\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas de terapia corporal em situa\u00e7\u00f5es emergenciais apresentadas pelo cliente, em que respira\u00e7\u00e3o e movimentos de corpo auxiliaram na contin\u00eancia de estados de ansiedade e inseguran\u00e7a, favorecendo tamb\u00e9m o processo do constru\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo entre terapeuta e cliente.<br \/>Ao t\u00e9rmino da interven\u00e7\u00e3o, o cliente readaptou-se ao trabalho e mantinha o estado de recupera\u00e7\u00e3o por meio do suporte de uma psicoterapia corporal individual combinada com acompanhamento medicamentoso, com redu\u00e7\u00e3o gradativa nas dosagens.<br \/>Nosso intuito, nesta apresenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 trazer material cl\u00ednico que possibilite colocar em discuss\u00e3o opini\u00f5es, sugest\u00f5es e cr\u00edticas sobre uma maneira de se fazer o Acompanhamento Terap\u00eautico.<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Mediante este relato de experi\u00eancia pretendemos apresentar um caso de Acompanhamento Terap\u00eautico que foi conduzido pela primeira autora, de novembro de 1999 a agosto de 2000, na cidade de Ribeir\u00e3o Preto, munic\u00edpio de m\u00e9dio porte situado no noroeste do estado de S\u00e3o Paulo.<br \/>O cliente em quest\u00e3o foi encaminhado por um m\u00e9dico do trabalho que, frente a uma situa\u00e7\u00e3o de surto psiqui\u00e1trico diagnosticado como \u201cpsicose depressiva\u201d, que acometera um dos funcion\u00e1rios da empresa em que trabalha, necessitou estabelecer alguma medida que pudesse auxiliar aquela pessoa na dificuldade que se apresentava, de modo a se evitar, inclusive, sua dispensa do quadro de trabalhadores.<br \/>Percebemos, de in\u00edcio, que a busca do trabalho em AT podia ter tamb\u00e9m como justificativa a procura de um tratamento que pudesse evitar alguma medida empresarial mais r\u00edgida sobre um funcion\u00e1rio antigo e que at\u00e9 ent\u00e3o se mostrara eficiente em seu servi\u00e7o, na tentativa de reabilit\u00e1-lo para o retorno \u00e0 sua atividade laboral.<br \/>A acompanhante terap\u00eautica (at) recebeu algumas informa\u00e7\u00f5es do setor de medicina do trabalho da empresa a respeito do que estava sendo observado sobre o comportamento daquele funcion\u00e1rio e, a partir do contato pessoal com o cliente, puderam ser tra\u00e7adas as diretrizes b\u00e1sicas dos atendimentos.<br \/>Compreendemos que, atuando como acompanhante terap\u00eautico naquele caso, estar\u00edamos lidando com a desordem emocional e com a possibilidade de estresse ocupacional, o que abria a perspectiva de que poderia acompanh\u00e1-lo na pr\u00f3pria empresa \u2013 seu local de trabalho. Essa interven\u00e7\u00e3o poderia, ent\u00e3o, auxiliar o cliente em sua recupera\u00e7\u00e3o individual, contribuindo para evitar outras situa\u00e7\u00f5es de crise e assegurar o retorno da capacidade para o trabalho.<br \/>Os acompanhamentos passaram a ser realizados ao lado do atendimento do m\u00e9dico psiquiatra, que j\u00e1 estava administrando a prescri\u00e7\u00e3o medicamentosa para o cliente.<\/p>\n<p>O caso<br \/>Trata-se de um homem, ao qual daremos o nome fict\u00edcio de Heitor, de 46 anos de idade, eletricista do setor de manuten\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica, onde estava empregado h\u00e1 16 anos. Casado, pai de dois filhos, sendo um menino de 15 anos e uma menina de 5 anos. Em seu ambiente de trabalho, era considerado o melhor eletricista, com conhecimento inclusive hist\u00f3rico no processo de evolu\u00e7\u00e3o do funcionamento empresarial, dado seu tempo de servi\u00e7o e envolvimento afetivo com o local.<br \/>Segundo seu relato, cumpria uma escala de 12 horas de servi\u00e7os di\u00e1rios e era freq\u00fcentemente solicitado em horas-extras para resolu\u00e7\u00f5es de problemas na manuten\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas. Em casa era quem centralizava todas as decis\u00f5es sobre as despesas dom\u00e9sticas e aquisi\u00e7\u00e3o de bens dom\u00e9sticos. Ele pr\u00f3prio, juntamente com sua esposa, havia constru\u00eddo a resid\u00eancia da fam\u00edlia.<br \/>Pelos dados colhidos no setor de medicina do trabalho, come\u00e7ou a apresentar \u201cmedo das m\u00e1quinas\u201d, chegando a ficar parado, chorando, frente a alguma delas. Dizia-se estar incapaz para realizar seu trabalho. Al\u00e9m disso, e durante o processo terap\u00eautico, suas id\u00e9ias de ru\u00edna eram prevalentes e estavam relacionadas \u00e0 forte impress\u00e3o de que iria ser despedido do emprego, o que resultaria, em sua idea\u00e7\u00e3o delir\u00f3ide, em uma situa\u00e7\u00e3o de escassez e pen\u00faria econ\u00f4mica a ponto da sua fam\u00edlia ficar na \u201cmis\u00e9ria\u201d.<br \/>CASTEL (1991), comenta que, ao se dar a ruptura do v\u00ednculo social do trabalhador \u2013 exclu\u00eddo e, portanto, fora da possibilidade ou oportunidade de trabalho \u2013 este se insere em um processo de desfilia\u00e7\u00e3o, em que passa por precariedade econ\u00f4mica, priva\u00e7\u00e3o, fragiliza\u00e7\u00e3o relacional e isolamento. Percebemos uma rela\u00e7\u00e3o an\u00e1loga na manifesta\u00e7\u00e3o delir\u00f3ide apresentada pelo cliente, temendo fixamente ser despedido, desfiliando-se, portanto, de sua possibilidade relacional no contexto social.<br \/>Nessa empresa tamb\u00e9m haviam acontecido mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas no funcionamento de algumas m\u00e1quinas, que alteraram a maneira de se fazer a manuten\u00e7\u00e3o das mesmas. Tratava-se, agora, de um sistema computadorizado, dispositivo ainda pouco familiar ao cliente. Al\u00e9m disso, pela compet\u00eancia demonstrada ao longo de anos de trabalho, ocupava o lugar de eletricista n\u00famero 1 do setor, o que lhe conferia um lugar de l\u00edder de sua equipe. Segundo informa\u00e7\u00f5es, essa posi\u00e7\u00e3o foi tomada por ele como algo muito penoso, com o que n\u00e3o soube lidar, nem suportar a carga da responsabilidade assumida.<br \/>Iniciamos, ent\u00e3o, os acompanhamentos em 23 de novembro de 1999. Ele se encontrava internado em um hospital geral, pr\u00e1tica empregada pelo m\u00e9dico psiquiatra que o acompanhava na \u00e9poca.<br \/>Foram percebidos dois grandes eixos em suas idea\u00e7\u00f5es delir\u00f3ides \u2013 o primeiro: ele seria demitido, por n\u00e3o conseguir mais trabalhar como antes; o segundo: uma vez despedido, ficaria na \u201cmis\u00e9ria\u201d e sua fam\u00edlia n\u00e3o teria mais como viver, destacando-se aqui a id\u00e9ia de insufici\u00eancia e ru\u00edna.<br \/>MAUER &#038; RESNIZKY (1987) referem que os trabalhadores de sa\u00fade mental devem contribuir para um tratamento que alivie, ou mesmo remova, a dor ps\u00edquica a partir de: ouvir a loucura (o del\u00edrio); compreender a fragilidade do ser humano em sofrimento ps\u00edquico e acompanhar a sua desola\u00e7\u00e3o. Esse s\u00e3o objetivos terap\u00eauticos poss\u00edveis de serem alcan\u00e7ados pelo acompanhamento terap\u00eautico de enfermos mentais, quando se trabalha com uma outra concep\u00e7\u00e3o de enfermidade mental, que evita a clivagem de \u201cloucos\u201d e \u201cs\u00e3os\u201d.<br \/>No primeiro contato com o cliente, a acompanhante o encontrou extremamente ansioso e angustiado, apresentando sinais de rigidez muscular, que lhe impedia a deambula\u00e7\u00e3o, bem como deitar livremente sua cabe\u00e7a no travesseiro. Ele agarrou-se nas m\u00e3os da acompanhante e, em uma a\u00e7\u00e3o de desespero, pediu-lhe que o ajudasse, logo ap\u00f3s ela ter se identificado e explicado o que estaria fazendo ali, ao \u201cvisitar-lhe\u201d.<br \/>Dessa maneira, iniciado o processo terap\u00eautico de acompanhamento, iniciaram-se os atendimentos, \u00e0 medida que a at foi registrando a evolu\u00e7\u00e3o do cliente e comunicando-se com os demais profissionais envolvidos no tratamento.<br \/>Foi logo percebida, desde o in\u00edcio, sua forte liga\u00e7\u00e3o com o trabalho e, assim, a empresa foi utilizada para alguns acompanhamentos, uma vez que se observou que esse contato contribu\u00eda na diminui\u00e7\u00e3o da ansiedade relacionada com a idea\u00e7\u00e3o de que iria ser demitido. Essa observa\u00e7\u00e3o ofereceu subs\u00eddios para uma a\u00e7\u00e3o terap\u00eautica voltada para a necessidade expressa por esse indiv\u00edduo em dificuldade.<br \/>Sobre a cl\u00ednica do Acompanhamento Terap\u00eautico, a EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAP\u00caUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA (1991, 1997) comenta que o cliente \u00e9 algu\u00e9m com nostalgia do fluxo de vida, desejoso de reinser\u00e7\u00e3o prazerosa no cotidiano, considerando-se que seus \u00f3rg\u00e3os dos sentidos perderam a capacidade de captar o mundo e de captar-se como ser humano que almeja recobrar esses sentidos, em vez de ser atormentado por eles. Notamos que uma parcela da identidade desse cliente estava comprometido na complexidade individual e grupal do processo de fabrica\u00e7\u00e3o da loucura.<br \/>O compromisso do acompanhante terap\u00eautico, como agente de sa\u00fade, \u00e9 com o potencial saud\u00e1vel, a val\u00eancia positiva, ou seja, com o eixo vetorial voltado para a realidade. Desse modo, o compromisso assumido \u00e9 com a apropria\u00e7\u00e3o e re-apropria\u00e7\u00e3o dos sentidos, a rearticula\u00e7\u00e3o das percep\u00e7\u00f5es dentro de um movimento cont\u00ednuo de aproxima\u00e7\u00e3o entre o sentir e o pensar, tecendo a delicada arte de reinserir o cliente na trama das rela\u00e7\u00f5es sociais, revigorando assim o fluxo da vida.<br \/>O objetivo do acompanhante terap\u00eautico \u00e9 passar a integrar a vida cotidiana do cliente, por um n\u00famero estabelecido de horas, de tal maneira que se possa formar um v\u00ednculo seguro e est\u00e1vel com ele. O trabalho consiste em estar com ele em diferentes situa\u00e7\u00f5es e contextos, servindo de ego auxiliar que o ajude a estabelecer uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo, restabelecendo o fluxo permanente entre fantasia e realidade. Assim, \u00e9 poss\u00edvel auxiliar o indiv\u00edduo a receber, identificar e responder aos v\u00e1rios est\u00edmulos que se lhe apresentem, oferecendo um clima de seguran\u00e7a e incentivo, abrindo-o para novas viv\u00eancias. O at \u00e9 um int\u00e9rprete ativo, operacional, que atua no mundo real e concreto, parceiro cotidiano do cliente, investigando socialmente, tamb\u00e9m, o locus desse indiv\u00edduo, mas olhando esse locus como um contexto terap\u00eautico ampliado.<br \/>No atendimento do caso de Heitor, tamb\u00e9m estava sendo possibilitado que, atrav\u00e9s da manuten\u00e7\u00e3o do contato com a empresa, ele pudesse sentir o apoio que estava sendo oferecido pelos colegas, al\u00e9m do que isso poderia auxili\u00e1-lo no desenvolvimento de algumas atividades laborais, mesmo que voltadas a outras tarefas que n\u00e3o as suas de eletricista, procurando contribuir no sentido de que ele pudesse olhar para outras capacidades, mesmo sentindo-as m\u00ednimas naquele momento de crise. Ele sempre falava: \u201cComo \u00e9 que pode eu ficar assim, n\u00e3o vou poder trabalhar de novo, n\u00e3o consigo fazer nada.\u201d<br \/>No contato com o cliente observamos aspectos corporais predominantes que se relacionavam com os sentimentos de inseguran\u00e7a, instabilidade afetiva e falta de contato com a realidade: a dificuldade f\u00edsica de equil\u00edbrio corporal, tanto em ficar em p\u00e9, como em andar; o desejo extremado de voltar ao trabalho concomitante a um sentimento de insufici\u00eancia para tal; bem como a express\u00e3o de seu medo de ser mandado embora do servi\u00e7o, em que associava a preocupa\u00e7\u00e3o com os filhos e a manuten\u00e7\u00e3o das necessidades materiais da casa, o que incrementava seu sentimento de fracasso e incapacidade.<br \/>Heitor referia-se \u00e0s suas dificuldades f\u00edsicas com intensa perplexidade: \u201cnunca mais vou poder trabalhar de novo&#8230; veja, eu nem consigo andar&#8230; parece que estou sem pernas&#8230; como foi acontecer isso comigo?\u201d Al\u00e9m disso, n\u00e3o dormia direito h\u00e1 aproximadamente uma semana \u2013 e relacionava esse tempo com o in\u00edcio dos acompanhamentos, fazendo uma m\u00e9dia de uma hora de sono por dia. Percebemos, por outro lado, que nessa \u00e9poca ele estava saindo de uma escala de trabalho noturno.<br \/>Algumas quest\u00f5es afloravam \u00e0 mente da at em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua sensa\u00e7\u00e3o de falta de pernas: isso poderia sugerir sua falta de contato com a realidade, ou mesmo a sensa\u00e7\u00e3o de estar paralisado frente a sua pr\u00f3pria vida? Sua idea\u00e7\u00e3o delir\u00f3ide buscava traduzir aquilo que se manifestava corporalmente, na instabilidade que quase o impedia de ficar em p\u00e9? Em outro sentido, que respostas poder\u00edamos obter sobre o que seja a realidade?<br \/>LOWEN (1982, 1983) refere que existem algumas verdades que ele pensa serem fundadas na realidade, tais como: a import\u00e2ncia de uma boa respira\u00e7\u00e3o, o valor de se estar liberto de tens\u00f5es musculares cr\u00f4nicas, a necessidade de estar-se identificado com o seu pr\u00f3prio corpo e o potencial criativo do prazer. Nossas pernas s\u00e3o estruturas que nos comunicam com nossa base no ch\u00e3o, que s\u00e3o os p\u00e9s. Nesse sentido, p\u00e9s firmados no ch\u00e3o nos possibilitam seguran\u00e7a f\u00edsica corporal, associada a pernas que assegurem essa sensa\u00e7\u00e3o transmitida para o restante do corpo, sem que estejamos de joelhos travados, pois assim eles bloqueiam energeticamente o fluxo circulat\u00f3rio corporal.<\/p>\n<p>Os acompanhamentos<\/p>\n<p>No contato inicial com o cliente foi poss\u00edvel avaliar a necessidade de atendimento di\u00e1rio. Assim, estabelecemos acompanhamentos di\u00e1rios com a dura\u00e7\u00e3o aproximada de uma hora e trinta minutos. Dessa maneira, pudemos estabelecer contatos cada vez mais pr\u00f3ximos, que nos permitiram ir percebendo por onde intervir, por meio do v\u00ednculo que ia se estabelecendo gradualmente.<br \/>Heitor permaneceu internado por uma semana em um hospital geral. Nesse per\u00edodo, n\u00e3o conseguimos estabelecer contato com o m\u00e9dico psiquiatra que o acompanhava, pois nos desencontr\u00e1vamos nos hor\u00e1rios de atendimentos.<br \/>Ap\u00f3s a alta, ele ainda permanecia com extrema dificuldade de andar, perda de peso, rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e descuido da higiene corporal, que era feita pela esposa. Acompanhei-o at\u00e9 a consulta m\u00e9dica subseq\u00fcente \u00e0 interna\u00e7\u00e3o e aproveitei a oportunidade para apresentar-me ao psiquiatra e, assim, poder ser estabelecido um contato profissional de troca. O psiquiatra parecia desconhecer o trabalho em AT, contudo, n\u00e3o emitiu nenhum ju\u00edzo de valor sobre esse tipo de interven\u00e7\u00e3o, apenas ouviu o que lhe dissemos sem tecer nenhum coment\u00e1rio.<br \/>Os di\u00e1logos a respeito da evolu\u00e7\u00e3o do caso eram travados por ocasi\u00e3o das consultas com esse m\u00e9dico. Acompanh\u00e1vamos o cliente, juntamente com a esposa, e assim eram colocadas as vis\u00f5es da fam\u00edlia e da at.<br \/>Os acompanhamentos freq\u00fcentemente aconteciam em sua resid\u00eancia ou na pra\u00e7a em frente a sua casa. Por vezes ele aceitava tomar um sorvete, ou ir at\u00e9 o shopping, ou ir at\u00e9 o banco verificar sua conta-corrente, para que pudesse visualizar seu saldo banc\u00e1rio. Essa a\u00e7\u00e3o tinha o prop\u00f3sito de alivi\u00e1-lo de sua id\u00e9ia fixa de que n\u00e3o teria mais dinheiro no banco.<br \/>Nos encontros pod\u00edamos escut\u00e1-lo, acolhendo suas constantes id\u00e9ias de ru\u00edna e auto-deprecia\u00e7\u00e3o. Na pra\u00e7a, sent\u00e1vamos na grama e continu\u00e1vamos a ouvi-lo; vez por outra, o estimul\u00e1vamos a tirar os sapatos e poder colocar os p\u00e9s bem plantados no gramado, ou ped\u00edamos que ele pudesse pegar com as m\u00e3os a terra na qual estava sentado. Ao fazer isso perceb\u00edamos que ele ampliava sua respira\u00e7\u00e3o naquele momento. Parecia aliviar um pouco sua ansiedade, no que possibilitava uma melhora na maneira como andava, ou seja, conseguia nesses momentos desenvolver uma marcha mais firme, sem necessitar de aux\u00edlio nessa a\u00e7\u00e3o \u2013 considerando-se que era muito comum ele andar auxiliado pela at.<br \/>A empresa concedeu-lhe f\u00e9rias na expectativa de que pudesse melhorar nesse per\u00edodo e, assim, pudesse reassumir suas atividades. No decorrer de todo o processo de atendimento, o fator trabalho foi uma refer\u00eancia muito forte para o cliente, que pedia insistentemente para retornar \u00e0s suas atividades laborais.<br \/>Vencidas suas f\u00e9rias e como n\u00e3o houvesse tido melhoras consider\u00e1veis que lhe permitissem atuar novamente em sua fun\u00e7\u00e3o de eletricista, em acordo com o m\u00e9dico psiquiatra e com a permiss\u00e3o da empresa o conduzimos at\u00e9 o local de trabalho para que, exercendo qualquer outra fun\u00e7\u00e3o, permanecesse por algum tempo freq\u00fcentando o lugar, e, assim, pudesse ter algum tipo de reasseguramento que combatesse seu sentimento de incapacidade e medo de ser demitido.<br \/>Dessa maneira, no Ambulat\u00f3rio de Sa\u00fade do Trabalhador da f\u00e1brica, ele ajudava no preenchimento de fichas, orientado pela auxiliar de enfermagem do local. Ali ele passava algumas horas, levado pela at, para depois ser conduzido de volta \u00e0 sua casa pelo t\u00e9cnico de seguran\u00e7a da empresa, ou pela at. Por mais de uma vez pudemos observar que ele ficava extremamente ansioso por n\u00e3o estar conseguindo fazer o preenchimento correto das fichas.<br \/>A at acompanhava-o em sua casa e estabelecia contatos com a fam\u00edlia, mais especificamente com sua esposa, que relatava todas as dificuldades sentidas e surgidas no cotidiano dom\u00e9stico. Pudemos fornecer esclarecimentos sobre o diagn\u00f3stico, naquela altura j\u00e1 estabelecido pelo m\u00e9dico psiquiatra como Depress\u00e3o Psic\u00f3tica. Apresent\u00e1vamos ent\u00e3o todos os limites poss\u00edveis, considerando-se que, naquele momento, tanto o cliente quanto a fam\u00edlia necessitavam de estrutura.<br \/>Perceb\u00edamos pequenos sinais de rea\u00e7\u00e3o positiva ao tratamento, que eram logo derrubados por algum outro ind\u00edcio de rea\u00e7\u00e3o mais negativa. Por exemplo, ap\u00f3s uma noite em que conseguira ter quatro horas de sono, amanheceu parecendo estar disposto e nada falou sobre suas id\u00e9ias prevalecentes de ru\u00edna. No per\u00edodo da tarde, j\u00e1 se manifestava extremamente ansioso, andando de um lado para o outro, dentro de casa, falando sobre a extrema precariedade em que iria deixar a fam\u00edlia, por causa de sua incapacidade. Quando a at chegava, relutava muito em sair de casa. Contudo, j\u00e1 se encontrava \u201cpronto\u201d, afirmando que nada resolveria o seu caso. Por vezes at\u00e9 nos recebia de maneira hostil, para depois consentir em realizar alguma atividade.<br \/>A demonstra\u00e7\u00e3o de hostilidade voltava-se, primeiro, para si pr\u00f3prio, pois se considerava um fracassado. Quanto ao tratamento, al\u00e9m de assegurar de que nada resolveria o seu problema, falava que a empresa acabaria lhe mandando embora. Todos esses sinais eram caracter\u00edsticos da sintomatologia depressiva.<br \/>A tentativa de ser levado ao local de trabalho, como recurso terap\u00eautico, n\u00e3o surtiu o resultado esperado. Pelo contr\u00e1rio, percebemos que isso estava se constituindo at\u00e9 mesmo em um fator de estresse, dado que, como ele n\u00e3o conseguia reagir, devido aos pr\u00f3prios limites, o fato de ir at\u00e9 a empresa e n\u00e3o poder trabalhar como antes estava lhe causando maior inquieta\u00e7\u00e3o e ansiedade. Dessa maneira, em entendimentos com o m\u00e9dico do trabalho e com o psiquiatra, bem como com o setor de recursos humanos da empresa, que acompanhava tamb\u00e9m de perto os retornos dos atendimentos, decidiu-se pelo afastamento do funcion\u00e1rio via INSS.<br \/>O psiquiatra que lhe acompanhava recomendou que ele iniciasse uma psicoterapia de apoio. A esposa, dada \u00e0 proximidade afetiva propiciada por conta da forma de atendimento em Acompanhamento Terap\u00eautico, solicitou-nos que indic\u00e1ssemos algu\u00e9m. Heitor foi, ent\u00e3o, encaminhado a um outro m\u00e9dico, que al\u00e9m da facilidade de pertencer ao conv\u00eanio, era tamb\u00e9m algu\u00e9m pr\u00f3ximo do contato profissional da acompanhante, e tamb\u00e9m relacionado a mesma abordagem terap\u00eautica \u2013 a psicoterapia corporal.<br \/>A esposa do cliente encontrava-se extremamente afetada pela situa\u00e7\u00e3o do marido, visto que assumia sozinha as provid\u00eancias do seu tratamento. A fam\u00edlia (pais e irm\u00e3os) permanecia omissa, segundo a percep\u00e7\u00e3o da esposa, o que lhe acarretava uma sobrecarga emocional. Assim, em di\u00e1logo com ela, sugerimos um outro encaminhamento, o que possibilitou o in\u00edcio de uma psicoterapia individual de apoio para ela pr\u00f3pria.<br \/>Com o passar do tempo o quadro cl\u00ednico de Heitor ia se agravando: n\u00e3o havia resposta medicamentosa satisfat\u00f3ria e o sono continuava insuficiente, assim como persistiam as id\u00e9ias predominantes de fracasso e desespero. As interven\u00e7\u00f5es corporais realizadas surtiam efeitos, mesmo que moment\u00e2neos, quando em crise de ansiedade extrema. Tamb\u00e9m eram fornecidos muitos est\u00edmulos \u00e0 deambula\u00e7\u00e3o, que propiciava trabalhar terapeuticamente seu corpo e sua rea\u00e7\u00e3o \u00e0 crise depressiva, possibilitando tamb\u00e9m uma descarga de tens\u00e3o emocional.<br \/>A esta altura, a esposa do cliente tomou a iniciativa de mudar de psiquiatra, justificando que as medica\u00e7\u00f5es que ele tomava n\u00e3o surtiam mais efeito, pois o sono n\u00e3o se regularizava. Al\u00e9m disso, alegou dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o com o m\u00e9dico que o assistia. Em nossos atendimentos continuamos oferecendo apoio maci\u00e7o \u00e0s tomadas de decis\u00f5es da fam\u00edlia, especificamente a esposa, que sempre procurava conversar antes de decidir.<br \/>Com o novo psiquiatra, medica\u00e7\u00f5es de primeira linha foram utilizadas, sem contudo surtir o efeito desejado. Nesse instante do tratamento, a perda de peso corporal era consider\u00e1vel. Heitor continuava deambulando com dificuldade, demonstrando fraqueza muscular e desequil\u00edbrio em seu eixo corporal.<br \/>Procur\u00e1vamos, nos atendimentos, estimular a deambula\u00e7\u00e3o, em uma tentativa de possibilitar maior firmeza de suas pernas e seus p\u00e9s no ch\u00e3o, oferecendo-lhe apoio como um meio de fortalecer seu sentimento de seguran\u00e7a, al\u00e9m de possibilitar-lhe contato com o seu pr\u00f3prio corpo e, conseq\u00fcentemente, consigo mesmo.<br \/>Exerc\u00edcios corporais do tipo alongamento e flexibilidade eram executados na pra\u00e7a em frente de sua casa. No momento em que realizava esses movimentos, ele parecia se acalmar e, assim, pod\u00edamos conversar longamente sentados no banco da pra\u00e7a. E o escut\u00e1vamos dizer como era estranho estar nesse estado de perturba\u00e7\u00e3o mental, queixando-se que sofria muito com sua incapacidade para trabalhar. Apresentava uma labilidade afetiva importante, e chorava como crian\u00e7a ao falar sobre sua preocupa\u00e7\u00e3o de ver sua fam\u00edlia abalada por sua doen\u00e7a. Dizia: \u201cParece que estou assistindo a um filme&#8230; \u00c9 um pesadelo tudo isso.\u201d Observ\u00e1vamos, nesses momentos, que era como se ele estivesse mesmo falando de uma outra parte sua. Pois era um eu dividido que se apresentava nos momentos em que descrevia a sensa\u00e7\u00e3o de estar assistindo a um filme de si pr\u00f3prio.<br \/>Perceb\u00edamos que minha figura de at, atrav\u00e9s do v\u00ednculo estabelecido, estava se tornando um agente que se inseria entre ele, sua fam\u00edlia, a empresa e os demais profissionais de sa\u00fade. Intermedi\u00e1vamos provid\u00eancias a serem tomadas, estabelec\u00edamos um canal de troca de informa\u00e7\u00f5es que eram prestadas aos profissionais e \u00e0 fam\u00edlia, e nos retornos que d\u00e1vamos \u00e0 empresa sobre o processo de tratamento. Este \u00faltimo, por meio de relat\u00f3rios de atividades entregues mensalmente \u00e0 empresa, os quais eram acrescentados ao prontu\u00e1rio do funcion\u00e1rio, informando sucintamente sobre a evolu\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, resguardados todos os cuidados \u00e9ticos necess\u00e1rios.<br \/>Considerando-se tudo o que j\u00e1 se falou na bibliografia sobre acompanhamento terap\u00eautico, pudemos sentir pelo nosso contato com essa pr\u00e1tica que o compromisso do acompanhante terap\u00eautico, como agente terap\u00eautico de sa\u00fade, \u00e9 com o potencial saud\u00e1vel, a val\u00eancia positiva, o eixo vetorial voltado para a verdade e a realidade. Desse modo, o compromisso \u00e9 com a apropria\u00e7\u00e3o e re-apropria\u00e7\u00e3o dos sentidos, a rearticula\u00e7\u00e3o das percep\u00e7\u00f5es, tecendo a delicada arte de reinserir o cliente na trama das rela\u00e7\u00f5es sociais para que ele possa revigorar o fluxo da vida<br \/>No entanto, pelo contato com esse cliente percebemos sua resist\u00eancia, vista em sua rea\u00e7\u00e3o negativa a todo tratamento que lhe era oferecido. As medica\u00e7\u00f5es n\u00e3o surtiam efeitos satisfat\u00f3rios, nem quanto ao sono, nem quanto \u00e0 idea\u00e7\u00e3o delir\u00f3ide. O quadro foi se agravando ao ponto de Heitor haver tentado suic\u00eddio por enforcamento em uma madrugada de ins\u00f4nia. Na \u00e9poca, j\u00e1 se vislumbrava a possibilidade de ser hospitalizado em regime de semi-interna\u00e7\u00e3o em hospital-dia, ao lado da continuidade do trabalho da at, fora do hospital.<br \/>Contudo, essa sua investida contra a pr\u00f3pria vida indicou aos profissionais que estavam realizando a triagem a necessidade de interna\u00e7\u00e3o integral. Eles n\u00e3o conheciam o trabalho de Acompanhamento Terap\u00eautico, de modo que tivemos pouca abertura para alguma troca profissional. Como at, oferecemos suporte ao cliente e \u00e0 fam\u00edlia, no sentido de serem tomadas as provid\u00eancias necess\u00e1rias ao internamento.<br \/>Dessa maneira, tanto sua esposa como a empresa assumiram o posicionamento de n\u00e3o o internarem em hospital psiqui\u00e1trico do tipo manicomial. Atrav\u00e9s de informa\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico, que estava atuando como terapeuta de apoio, foi mantido contato com um hospital que funciona nos moldes de uma comunidade terap\u00eautica. A empresa autorizou o internamento pelo conv\u00eanio do funcion\u00e1rio.<br \/>Assim, continuamos os atendimentos at\u00e9 serem resolvidos os pap\u00e9is de interna\u00e7\u00e3o e o acompanhamos at\u00e9 o hospital, levando um relat\u00f3rio do m\u00e9dico respons\u00e1vel pela terapia de apoio, que ficou como respons\u00e1vel pelo caso, uma vez que tinha o conv\u00eanio necess\u00e1rio ao internamento. A at tamb\u00e9m elaborou um outro relat\u00f3rio, em que relatava a trajet\u00f3ria dos acompanhamentos e o processo evolutivo do cliente. A empresa cedeu um de seus carros e fomos juntos: o cliente, a esposa, a at e um funcion\u00e1rio que dirigia o carro. Durante todo o caminho Heitor manteve-se abra\u00e7ado \u00e0 esposa e, vez por outra, segurava na m\u00e3o da at dizendo: \u201cAna, n\u00e3o deixa que me levem para l\u00e1 n\u00e3o? Eu n\u00e3o quero ser internado.\u201d Sent\u00ed muita compaix\u00e3o por seu sofrimento e segurava fortemente a sua m\u00e3o, olhando-o nos olhos, acolhendo sua dificuldade e sua dor, afirmando-lhe que no fim tudo ia acabar bem.<br \/>Sua interna\u00e7\u00e3o durou cerca de aproximadamente dois meses e meio. Ele permaneceu por algum tempo em uma \u00e1rea restrita, devido ao risco de fuga e suic\u00eddio, que j\u00e1 havia apresentado em casa e que indicava, mais especificamente, a interna\u00e7\u00e3o integral.<br \/>Internado ele tamb\u00e9m passou por nove sess\u00f5es de eletrochoques, conforme crit\u00e9rios desse tipo de interven\u00e7\u00e3o, justificada pela configura\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia depressiva neste caso: aus\u00eancia de respostas \u00e0s medica\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas utilizadas e id\u00e9ia predominantemente suicida e de fuga, que n\u00e3o respondia ao tratamento.<br \/>Esse procedimento foi marcado por rea\u00e7\u00e3o de choque de sua esposa, que autorizou por escrito as administra\u00e7\u00f5es das sess\u00f5es, mediante esclarecimentos do m\u00e9dico psiquiatra do hospital. Contudo, apesar de devidamente esclarecida, ela continuava bastante abalada. A at s\u00f3 tomou conhecimento dessas sess\u00f5es de ECT quando no carro, de volta a Ribeir\u00e3o Preto, visto que n\u00e3o participou da entrevista do m\u00e9dico com a esposa. E, o susto da esposa mediante essa modalidade de interven\u00e7\u00e3o, associou-se ao da at que, apesar de conhecer os procedimentos cient\u00edficos para tal empreitada, opta por uma outra maneira de atender pessoas em dificuldades ps\u00edquicas.<br \/>Gostar\u00eda de relatar aqui o sentimento de extrema solid\u00e3o e impot\u00eancia que a at passou, enquanto respons\u00e1vel pelo caso. Trabalhando de maneira aut\u00f4noma e sem fazer parte de uma equipe, nem de profissionais voltados para atendimentos em sa\u00fade mental, nem de ats, surpreendi-me em d\u00favida quanto a possibilidade de resultados mais satisfat\u00f3rios na situa\u00e7\u00e3o de Acompanhamento Terap\u00eautico, talvez por n\u00e3o contar com outros profissionais com os quais pud\u00e9sse revezar esse papel e, assim, se pudesse acompanhar o cliente de maneira mais intensiva, o que possivelmente teria evitado uma interven\u00e7\u00e3o mais \u201cdr\u00e1stica\u201d como o uso de sess\u00f5es de eletroconvulsoterapia.<br \/>Questionamos, ent\u00e3o: ser\u00e1 que n\u00e3o seria poss\u00edvel se evitar, nesse caso, esse tipo de a\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, ou mesmo a interna\u00e7\u00e3o 24 horas, se houvessem outros profissionais at para revezamento no caso? At\u00e9 que ponto o uso desse procedimento (eletrochoque) \u00e9 mesmo aplic\u00e1vel? As manifesta\u00e7\u00f5es mais severas e persistentes do cliente teriam sido sanadas, mesmo que em um prazo mais prolongado, se estivesse sendo acompanhado por uma equipe de ats e uma outra equipe de profissionais da sa\u00fade mental que trabalhassem de forma integrada?<br \/>Essas s\u00e3o perguntas que nos fazemos e para as quais ainda n\u00e3o temos respostas objetivas, talvez pela experi\u00eancia ainda em constru\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica como acompanhante terap\u00eautico, ou mesmo por ficarem no plano do questionamento e do nosso pr\u00f3prio sentimento de insufici\u00eancia em momentos extremos.<br \/>Durante o per\u00edodo da interna\u00e7\u00e3o, obt\u00ednhamos not\u00edcias por interm\u00e9dio de sua esposa, que nos ligava constantemente para falar de como se sentia e tamb\u00e9m para dar not\u00edcias sobre ele. Conversamos com o cliente ao telefone, em um momento j\u00e1 pr\u00f3ximo de sua alta, e o percebemos um tanto confuso. Por\u00e9m ele dizia se lembrar da pessoa da at, ao escutar a voz, que segundo ele, era inconfund\u00edvel.<br \/>Na \u00e9poca da alta hospitalar, nos dirigimos at\u00e9 o hospital, acompanhando a esposa e um funcion\u00e1rio, o mesmo que, no dia do internamento, havia dirigido o carro cedido pela empresa para lev\u00e1-lo. Ao chegarmos no hospital o clima de ansiedade era intenso por parte de todos, dada a expectativa de como Heitor estaria. N\u00f3s o encontramos j\u00e1 de malas arrumadas e percebemos sua popularidade no lugar, sugestivo de uma mudan\u00e7a em seu estado de humor. Ele nos reconheceu e, ap\u00f3s conversar reservadamente com sua esposa, chamou-nos para mostrar onde estava alojado. Cumprimentou a todos, contou sobre tudo que havia feito l\u00e1. Sa\u00edmos do hospital ap\u00f3s contato com a psic\u00f3loga e o m\u00e9dico e sob fortes recomenda\u00e7\u00f5es acerca dos cuidados necess\u00e1rias no per\u00edodo de convalescen\u00e7a.<br \/>Ap\u00f3s o retorno da interna\u00e7\u00e3o, o cliente optou por permanecer apenas com o m\u00e9dico terapeuta de apoio como seu psiquiatra, que era tamb\u00e9m o respons\u00e1vel pela parte medicamentosa. Prosseguimos com o trabalho de AT, assim como tamb\u00e9m foram avaliadas as possibilidades de seu retorno \u00e0s atividades de trabalho. A essa altura Heitor se apresentava bem diferente do homem que hav\u00edamos conhecido: tinha engordado, estava conseguindo dormir a noite toda, comia melhor e permanecia sorridente a maior parte do tempo. Dizia estar pronto para voltar ao trabalho. Por outro lado, encontrava-se ainda sob efeito de uma dosagem elevada de medicamentos.<br \/>No trabalho em AT era objetivada os passos de sua recupera\u00e7\u00e3o, de forma que se estabelecesse a no\u00e7\u00e3o de que tudo iria aos poucos voltar \u00e0 normalidade, o que possibilitou o reconhecimento de seus limites. Por essa \u00e9poca prossegu\u00edamos com os trabalhos corporais na pra\u00e7a em frente de sua casa.<br \/>Acompanh\u00e1vamos Heitor nas compras do supermercado, no caixa do banco, em caminhadas pr\u00f3xima \u00e0 sua casa, ou simplesmente permanec\u00edamos dentro de sua casa. Ele demonstrava uma ar de disposi\u00e7\u00e3o para tudo, o sorriso era constante, embora muitas vezes imotivado.<br \/>Ap\u00f3s um m\u00eas de retorno do internamento, o m\u00e9dico psiquiatra nos procurou, sugerindo uma tentativa de retorno ao trabalho de maneira processual. Assim, mantivemos contato com a empresa, que propiciou seu retorno ao setor de origem, contudo readaptado em uma outra fun\u00e7\u00e3o, como trabalhador do almoxarifado, lidando com pe\u00e7as de seu conhecimento. Ele aceitou o novo cargo. Passou por um per\u00edodo de experi\u00eancia trabalhando meio turno, ainda em car\u00e1ter extra-oficial e, depois que recebeu alta da per\u00edcia m\u00e9dica do INSS, continuou nesse setor e fun\u00e7\u00e3o em per\u00edodo integral.<br \/>Os acompanhamentos continuaram sendo feitos alguns dias no local de trabalho, em que acompanh\u00e1vamos sua readapta\u00e7\u00e3o. Para qualquer iniciativa de mobiliza\u00e7\u00e3o com o funcion\u00e1rio, o setor de recursos humanos da empresa entrava em contato com a at, pedindo orienta\u00e7\u00f5es.<br \/>Dando prosseguimento ao atendimento, o cliente passou por psicoterapia individual com a at, ap\u00f3s receber alta dessa pr\u00e1tica cl\u00ednica. Essa mudan\u00e7a de fun\u00e7\u00e3o de at para terapeuta individual de apoio, foi constru\u00edda em conjunto com o m\u00e9dico psiquiatra, que interviu positivamente nessa proposta de manuten\u00e7\u00e3o do quadro de recupera\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s termos observado o cumprimento dos objetivos inicialmente tra\u00e7ados para o trabalho de Acompanhamento Terap\u00eautico.<br \/>O m\u00e9dico psiquiatra procede com a diminui\u00e7\u00e3o gradativa do medicamento. Por outro lado, o retorno sobre o processo de evolu\u00e7\u00e3o sa\u00fade\/doen\u00e7a continua sendo dado pela terapeuta, ao setor de recursos humanos da empresa e ambulat\u00f3rio de sa\u00fade do trabalhador. Os contatos com o psiquiatra que o acompanha permaneceram mais esporadicamente, em que eram realizadas trocas de experi\u00eancias dos profissionais, o que tem favorecido bastante a manuten\u00e7\u00e3o do quadro de convalescen\u00e7a do cliente, al\u00e9m de evitar uma poss\u00edvel nova crise.<br \/>O trabalho de AT foi encerrado naturalmente, na medida em que atingiu o objetivo de reinserir o cliente em seu cotidiano familiar e profissional.<br \/>O trabalho corporal individual em consult\u00f3rio foi iniciado para dar continuidade ao processo de recupera\u00e7\u00e3o, permitindo ampliar seu auto-conhecimento corporal, bem como uma possibilidade de investiga\u00e7\u00e3o mais profunda de sua din\u00e2mica de personalidade, atrav\u00e9s do conhecimento de sua hist\u00f3ria pessoal, possibilitado pelo v\u00ednculo estabelecido. Temos nos utilizado de diversas estrat\u00e9gias de apoio e aux\u00edlio no reconhecimento dos seus limites humanos, no intuito de promover condi\u00e7 \u00f5es para que ele possa identificar altera\u00e7\u00f5es em seu corpo que se reflitam em suas atividades e em seu funcionamento pessoal.<br \/>O trabalho corporal atua terapeuticamente na dire\u00e7\u00e3o de uma frase difundida por Wilhelm Reich: \u201cO corpo \u00e9 o inconsciente vis\u00edvel\u201d, ao lado de outra, mencionada por Stanley Keleman: \u201cO corpo \u00e9 um rio de acontecimentos\u201d.<br \/>Portanto, nesse inconsciente vis\u00edvel que \u00e9 o corpo pode-se trabalhar, terapeuticamente, o desbloqueio de tens\u00f5es corporais, a fim de que se possa fazer circular a energia vital existente em todo ser humano.<\/p>\n<p>Coment\u00e1rios finais<\/p>\n<p>Ao apresentarmos esse relato de experi\u00eancia, por ocasi\u00e3o do I Encontro Nacional de Acompanhantes Terap\u00eauticos, pudemos ouvir e discutir opini\u00f5es, sugest\u00f5es e cr\u00edticas sobre essa possibilidade de se trabalhar em AT. O acompanhante terap\u00eautico \u00e9 um profissional que ocupa um lugar singular, n\u00e3o s\u00f3 ao acolher o material ps\u00edquico, fruto das experi\u00eancias individuais do cliente, como tamb\u00e9m por toda a peculiaridade que reveste este trabalho de escuta da singularidade, em que o terapeuta vai ao encontro da dificuldade pessoal de seu cliente onde ele se apresenta.<br \/>Como acompanhantes terap\u00eauticos nos sentimos extremamente estimulados no exerc\u00edcio dessa pr\u00e1tica. No estabelecimento de um v\u00ednculo, colocamo-nos lado a lado com o sujeito em dificuldades, explorando as v\u00e1rias maneiras de conviv\u00eancia e ultrapassagem de obst\u00e1culos que se apresentem. O movimento rompe essas barreiras e possibilita uma sa\u00edda criativa e vi\u00e1vel para os impasses terap\u00eauticos com que nos deparamos em cada caso.<br \/>Percebemos tamb\u00e9m nessa pr\u00e1tica um aspecto fundamental e rico, que \u00e9 o campo de interdisciplinaridade que se apresenta ao se trabalhar como acompanhante terap\u00eautico. Como profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade, visualizamos o imenso potencial dessa \u201ccl\u00ednica do espa\u00e7o\u201d \u2013 como vem sendo considerado o trabalho de Acompanhamento Terap\u00eautico.<br \/>Vemos como uma pr\u00e1tica cl\u00ednica inovadora no sentido da rela\u00e7\u00e3o terapeuta\/cliente e que traz in\u00fameras possibilidades de a\u00e7\u00f5es em favor do usu\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 dos servi\u00e7os de sa\u00fade mental, como em outros contextos de tratamento marcados pelo confinamento, pela clausura e pela exclus\u00e3o. O AT vem restituir o valor do movimento, do tr\u00e2nsito permanente e do fruir da liberdade, como marcas inscritas naquilo que o sujeito manifesta e que pode ser traduzido em sua necessidade de atendimento pelos servi\u00e7os de sa\u00fade.<br \/>Trata-se, em suma, de uma motiva\u00e7\u00e3o para aqueles que buscam sa\u00eddas e caminhos poss\u00edveis na realiza\u00e7\u00e3o de um efetivo trabalho voltado para a pessoa que atravessa situa\u00e7\u00f5es de dificuldade.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>CASTEL, R. A ordem psiqui\u00e1trica: A idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.<br \/>EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAP\u00caUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA (Org.) A rua como espa\u00e7o cl\u00ednico: acompanhamento terap\u00eautico. S\u00e3o Paulo: Escuta, 1991.<br \/>EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAP\u00caUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA (Org.) Crise e cidade: acompanhamento terap\u00eautico. S\u00e3o Paulo: Educ, 1997.<br \/>LOWEN, Alexander. Bioenerg\u00e9tica. S\u00e3o Paulo: Summus Editorial, 1982.<br \/>LOWEN, Alexander. O corpo em depress\u00e3o: as bases biol\u00f3gicas da f\u00e9 e da realidade. S\u00e3o Paulo: Summus Editorial, 1983.<br \/>MAUER, Susana Kuras de &#038; RESNIZKY, Silvia. Acompanhamento terap\u00eautico e pacientes psic\u00f3ticos: manual introdut\u00f3rio a uma estrat\u00e9gia cl\u00ednica. (tradu\u00e7\u00e3o: Waldemar Paulo Rosa) Campinas-SP: Papirus, 1987. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>25 &#8211; T\u00edtulo do trabalho O CUIDAR NA PERSPECTIVA DO ACOMPANHAMENTO TERAP\u00caUTICO: UM CAMPO DE POSSIBILIDADES INSUSPEITADAS Ana Celeste de Ara\u00fajo Piti\u00e1Doutora pelo Programa Interunidades de<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-94","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-congresso-2003"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}