{"id":292,"date":"2016-02-12T16:00:00","date_gmt":"2016-02-12T18:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.analisebioenergetica.com\/site\/?p=292"},"modified":"2016-02-12T16:00:00","modified_gmt":"2016-02-12T18:00:00","slug":"o-olhar-na-analise-bioenergetica-o-que-o-olhar-pode-alcancar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/o-olhar-na-analise-bioenergetica-o-que-o-olhar-pode-alcancar\/","title":{"rendered":"O olhar na An\u00e1lise Bioenerg\u00e9tica &#8211; O que o olhar pode alcan\u00e7ar"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><b>Maria Goretti &#8211; Psicoterapeuta<\/b><\/p>\n<p>Viajava com uma amiga, \u00e0 procura de encontrar paisagens diferentes e algo de novo no horizonte.<\/p>\n<p>De tempos a tempos, \u00e9 preciso desfocar o olhar das rotinas e das emo\u00e7\u00f5es recorrentes que tardam em ser metabolizadas, dando origem a outras.<\/p>\n<p>O movimento ajuda-me a sentir um pouco mais, a sair do impasse. Viajar, deixando para tr\u00e1s responsabilidades, permite-me estar a s\u00f3s com o meu cora\u00e7\u00e3o e olhar para ele, sem pressa. Um olhar de um estranho, numa cidade desconhecida, pode despoletar em mim um sonho, uma tristeza, uma alegria, uma grande inspira\u00e7\u00e3o criativa. Ou fazer-me recordar um medo e perceber um sem n\u00famero de defesas que n\u00e3o me deixam ousar e ir mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>Por vezes, basta um movimento.<\/p>\n<p>Outras vezes, basta uma palavra no momento certo, de olhos nos olhos. E o cora\u00e7\u00e3o pode abrir-se. Assim aconteceu, j\u00e1 na descida para Lisboa.<\/p>\n<p>A minha amiga, de apar\u00eancia sempre altiva e segura, de palavras firmes e s\u00e1bias, de sorriso discreto, de olhar escondido, de movimentos cansados, de cora\u00e7\u00e3o trancado, de repente, depois de muitas conversas sobre o amor e sobre a confian\u00e7a, ousou olhar-me e confiar (Olhar-se e confiar). A viagem estava no fim e era preciso que ela cumprisse a sua miss\u00e3o, tal como uma terapia que, ao aproximar-se do fim, leva o cliente a tocar nos seus jardins mais secretos, com medo de ir embora sem a grande resposta.<\/p>\n<p>No seu olhar t\u00edmido e nos seus gestos comedidos, havia um pedido subtil de um conselho s\u00e1bio. Mulher inteligente que soube proteger-se dos seus medos e que pressente que est\u00e1 na hora de ter coragem de se abrir e testar as pr\u00f3prias asas! Nesse pedido subtil, j\u00e1 se vislumbrava uma vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Com o meu feedback, fez-se um sil\u00eancio repleto de emo\u00e7\u00e3o. Os seus olhos encheram-se de l\u00e1grimas e de vida. Nunca foram t\u00e3o grandes! O seu rosto ficou rosado e os seus movimentos mais redondos e harmoniosos. Aquela mulher s\u00e1bia e distante transformou-se, em segundos, numa mulher mais jovem e calorosa. Havia alegria e curiosidade no seu olhar e uma emo\u00e7\u00e3o enorme na sua voz que assumira uma tonalidade aveludada e profunda. Os minutos iam passando e ela tornava-se mais jovem ainda, uma menina. Os seus gestos eram espont\u00e2neos e a voz mais fresca, soando entre pequenas gargalhadas e sil\u00eancios cheios. De repente, uma vontade enorme de chorar. De felicidade. Admitir a possibilidade de voltar a ver aquele homem, de falar com ele, olhos nos olhos, foi suficiente para desencadear nela um fluxo vital. Tornar o passado presente e reviver o sentimento amoroso. Percebeu que estava cristalizada numa atitude defensiva e que tinha trancado o seu cora\u00e7\u00e3o para n\u00e3o sofrer. Percebeu que \u00e9 preciso abrir-se \u00e0 possibilidade de sofrer de amor, para voltar a ser feliz e deixar para tr\u00e1s as idealiza\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelos seus movimentos cansados. \u201cNunca me pareceste t\u00e3o humana\u201d, disse-lhe eu. \u201c\u00c9s t\u00e3o mais bonita, assim vulner\u00e1vel. Mais feminina e pr\u00f3xima\u201d. Nunca me tinha sentido t\u00e3o pr\u00f3xima dela.<\/p>\n<p>De facto, quando as portas est\u00e3o mal fechadas, a vida fica interrompida e o corpo esmorece. \u00c9 preciso voltar ao s\u00edtio onde a hist\u00f3ria ficou incompleta, para a poder resolver e integrar. Sentir a dor para voltar a ter prazer.<\/p>\n<p>Ao sabor de uma respira\u00e7\u00e3o profunda e sincronizada, os nossos olhares mantiveram-se em contacto como duas mulheres que se respeitam. A sua confian\u00e7a em mim emocionou-me muito. E, neste processo, levantou-se um v\u00e9u sobre a resposta que procurei nesta viagem. A confian\u00e7a. A intui\u00e7\u00e3o. Preciso de confiar na minha intui\u00e7\u00e3o e sabedoria e, com base nela, tomar a decis\u00e3o mais dif\u00edcil da minha vida. Abrir ou fechar completamente uma porta. \u00c9 preciso ter a coragem de olhar para dentro e sentir todos os medos, todas as tristezas, todas as raivas, para limpar o canal da comunica\u00e7\u00e3o e estar livre para amar de novo. As grandes decis\u00f5es s\u00e3o solit\u00e1rias e a verdade nem sempre \u00e9 linear. Os nossos mestres e pais internos dizem-nos, muitas vezes, para n\u00e3o fazer isto ou aquilo, para n\u00e3o sofrermos mais uma desprote\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 preciso ouvir o cora\u00e7\u00e3o atentamente e sacar-lhe a verdade, para que o olhar volte a ter brilho.<\/p>\n<p>Algures as nossas hist\u00f3rias se assemelhavam. E cada uma de n\u00f3s viu na outra o espelho da esperan\u00e7a, a possibilidade de reviver algo que est\u00e1 morto e precisa de ter vida. No fim da viagem, separamo-nos verdadeiramente. Cada uma est\u00e1 s\u00f3, com a sua tarefa existencial. Os nossos olhares que, em tempos se fundiram, hoje est\u00e3o mais l\u00edmpidos e n\u00f3s, individuadas.<\/p>\n<p>Despedimo-nos com uma enorme gratid\u00e3o. Ela foi com brilho nos olhos e com a certeza de que teria que finalizar um ciclo para um novo se poder iniciar. Eu fiquei com a plena no\u00e7\u00e3o da minha for\u00e7a e da minha solid\u00e3o. Tudo farei para voltar a sentir o mar dentro de mim e as suas ondas reflectidas no meu olhar.<\/p>\n<p>Tenho-me debru\u00e7ado sobre o olhar dos meus clientes, e do meu pr\u00f3prio, observando as transforma\u00e7\u00f5es ao longo dos processos terap\u00eauticos e, por vezes, durante uma mesma sess\u00e3o. A terapia bioenerg\u00e9tica, na sua dualidade de an\u00e1lise e trabalho corporal, tem efeitos extraordinariamente reparadores e transformadores. E tenho percebido que cada transforma\u00e7\u00e3o num cliente \u00e9 uma maravilhosa oportunidade de crescimento para mim pr\u00f3pria, aprofundando cada vez mais o meu olhar e o meu sentir. \u00c9 imposs\u00edvel ajudar um cliente sem sincronizar com ele as batidas do cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso fazer uma dan\u00e7a, sim\u00e9trica, \u00e0s vezes e, outras vezes, completamente assim\u00e9trica para produzir mudan\u00e7a criativa. Nesta dan\u00e7a, \u00e9 imposs\u00edvel estar de fora. H\u00e1 clientes que t\u00eam o olhar congelado no medo o qual, uma vez trabalhado, poder\u00e1 descongelar, despertando a tristeza profunda ou at\u00e9 o prazer da alegria. Outros h\u00e1 que parecem estar radiantes de alegria, mostrando um olhar aparentemente vivo e aberto e, atrav\u00e9s da mobiliza\u00e7\u00e3o da alegria, \u00e9 poss\u00edvel reencontrarem o medo h\u00e1 muito reprimido. \u00c9 preciso ir atr\u00e1s do que o cliente nos traz, embarcar com ele no mar do espectro emocional dor\/prazer. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resgatar o prazer sem passar pelos n\u00facleos de dor e ang\u00fastia. E neste trabalho, tenho percebido que \u00e9 fundamental levar os meus clientes a focalizar. Os meus olhos servem de espelho reflector do seu estado de alma. Outras vezes, reflicto eu diferentes olhares, sobretudo olhares significativos para cada cliente, para que revivam algo que ficou esquecido. Os olhos s\u00e3o um portal para o mundo inconsciente e confrontam o cliente com a verdade. O terapeuta precisa de ter o olhar l\u00edmpido e descontaminado para poder reflectir com a m\u00e1xima qualidade!<\/p>\n<p><strong>DEPOIS DO MEDO, N\u00c3O H\u00c1 MAIS MEDO&#8230;E O CORPO PODE DAN\u00c7AR<\/strong><\/p>\n<p>O A., de 47 anos de idade, frequenta um programa de reabilita\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica h\u00e1 cerca de 6 meses e est\u00e1 em terapia comigo. \u00c9 um homem com muitas dificuldades sociais, entrando facilmente em p\u00e2nico perante o conflito ou perante uma simples cr\u00edtica. Nesse dia, entrou em p\u00e2nico. Grandeevolu\u00e7\u00e3o. Em situa\u00e7\u00f5es anteriores id\u00eanticas, ter-se-ia isolado e teria reca\u00eddo. Nesse dia, procurou-me, cambaleando de tonturas, cabisbaixo, com m\u00e3o no peito e a proferir palavras de desespero \u201cestou muito mal; n\u00e3o consigo; n\u00e3o aguento; n\u00e3o posso\u201d. Mal respirava e os seus olhos reviravam-se como se fosse desmaiar. Apesar de se ter dirigido \u00e0 consulta, o seu corpo apresentava sinais de fuga. N\u00e3o me olhava, abanava a cabe\u00e7a, o seu corpo pendia assimetricamente para um dos lados, sentando-se perto da porta. Com a m\u00e3o no peito, soltava gritos de dor. N\u00e3o tinha bebido e isso era extraordin\u00e1rio. Fi-lo sentar-se e olhar para mim, respirando. N\u00e3o conseguia faz\u00ea-lo mais do que 2 ou 3 segundos. Em cada inspira\u00e7\u00e3o e expira\u00e7\u00e3o, o peito e o est\u00f4mago do\u00edam-lhe sobremaneira. Massajei-lhe o pesco\u00e7o, dando-lhe suporte na testa. Incentivei-o a abrir os olhos e a respirar, enquanto lhe massajava o pesco\u00e7o e os m\u00fasculos dos ombros. Ele gritava de dor. Pedi-lhe para mobilizar os ombros e os bra\u00e7os, soltando gritos; de p\u00e9, pedi-lhe que fizesse tudo isso e soltasse as pernas tamb\u00e9m. Era excessivo. Ficava tonto e cambaleava. Fi-lo deitar-se e, com firmeza, segurei-lhe o pesco\u00e7o com uma m\u00e3o e, com a outra, trabalhei-lhe alternadamente os m\u00fasculos do pesco\u00e7o, do peito, do diafragma, incentivando-o a respirar e a abrir os olhos, olhando para mim. Olhei-o com muita compreens\u00e3o e, numa voz firme e tranquila, incentivava-o a respirar e a olhar-me sem medo. O A. contorcia-se de dor e todo o seu corpo tremia, desde o maxilar, \u00e0s m\u00e3os, bra\u00e7os e pernas. Enquanto se contorcia, era imposs\u00edvel abrir os olhos. Ele n\u00e3o podia ver o tamanho da sua dor. A minha voz, firme, tranquila e maternal, substitu\u00eda o olhar. Ia-lhe dizendo que o frio era o medo a descongelar e que, no fim, o seu corpo ia aquecer. Expliquei-lhe, com muita tranquilidade, que o seu medo era muito grande e que era muito antigo e que era muito bom ele estar a descongelar. As dores do seu corpo deviam-se \u00e0s fortes tens\u00f5es cr\u00f3nicas musculares que, neste momento, estavam a ser atravessadas por ondas respirat\u00f3rias mais intensas. Era importante segur\u00e1-lo com firmeza porque o p\u00e2nico era t\u00e3o intenso que parecia que o seu corpo se desfragmentava em agonia. Continuei a ajud\u00e1-lo a respirar enquanto lhe pressionava os m\u00fasculos do pesco\u00e7o, da base do cr\u00e2nio, dos maxilares, do peito e do diafragma. As tremuras continuavam, mas as l\u00e1grimas come\u00e7aram a correr. O choro tornou-se mais flu\u00eddo, embora ainda longe daquele choro que se parece com um rio de \u00e1gua corrente. E neste vai vem de l\u00e1grimas e gritos, o A. fala da culpa. Que estragou a vida dele, que era um fraco e que tinha muito medo de encarar as pessoas, que tinha vergonha, que tinha muita vergonha. Num ritmo cont\u00ednuo, mas tranquilo, incentivava-o a respirar, pressionando-lhe os m\u00fasculos, e dizia-lhe que ele tinha sido muito corajoso em vir \u00e0 consulta, em n\u00e3o ter fugido, em ter encarado o medo. Que ele estava a tocar o seu medo mais terr\u00edvel e mais antigo e que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel voltar a ter prazer, depois de atravessar o medo e a dor. E que eu acreditava que ele ia ser capaz. Eu s\u00f3 o deixaria ir embora depois de ele aquecer e se acalmar e ser capaz de olhar para mim, sem fugir com o seu olhar, para ser capaz de ver o seu medo e a sua tristeza profunda, e de ver tamb\u00e9m o resultado disso.<\/p>\n<p>O seu corpo come\u00e7ou gradualmente a aquecer e a sua respira\u00e7\u00e3o tornou-se mais profunda. Os sons adquiriram uma tonalidade mais tranquila e o choro irrompeu como acontece a uma crian\u00e7a consciente da sua dor, da sua perda. Enquanto solu\u00e7ava, olhava para mim e dizia \u201cBati no fundo\u201d. Ajudei-o a respirar comigo, olhos nos olhos, transmitindo-lhe compreens\u00e3o e confian\u00e7a. Devolvi-lhe que a sua respira\u00e7\u00e3o estava mais fluida e profunda e que o seu corpo j\u00e1 n\u00e3o tremia e que os seus olhos estavam presentes e muito tristes. Nunca o tinha visto t\u00e3o digno, t\u00e3o presente! J\u00e1 n\u00e3o sentia dor no peito e no est\u00f4mago, ao respirar. De tempos a tempos, solu\u00e7ava como uma crian\u00e7a depois de um grande choro convulsivo. E era gratificante ver que o seu diafragma respirava melhor, apesar da grande tens\u00e3o que ainda tinha e que teria por muito tempo\u2026 ou at\u00e9 para sempre.<\/p>\n<p>Fi-lo levantar-se e ficar em grounding, sempre mantendo o contacto visual comigo e respirando. Pedi-lhe que sacudisse o corpo, bra\u00e7os e pernas. Que soltasse as pernas intensamente e emitisse sons bem alto, olhando para mim. Grounding. Voltar a fazer os movimentos e os sons. Grounding novamente. J\u00e1 n\u00e3o tinha tonturas. O seu olhar era outro. Brilhava e estava grande. Apareceram laivos de alegria e, com gra\u00e7a, voltou a saltar, como uma crian\u00e7a a descobrir o seu corpo. Ria-se e dizia que estava a gostar de fazer judiarias com o seu corpo. E tentava ousar cada vez mais. Em grounding, o seu corpo estava direito, como um homem \u00edntegro.<\/p>\n<p>Sent\u00e1mo-nos e o A. falou do seu bem-estar. Que se sentia leve e que aquele aperto tinha desaparecido. E que j\u00e1 era poss\u00edvel olhar-me, sem vergonha. Agradeceu-me profundamente. Mais uma vez fiz-lhe a leitura do que tinha acontecido e ele percebeu que o po\u00e7o que \u00e9 cavado pelo medo e pela tristeza \u00e9 o mesmo que se encher\u00e1 de alegria. \u00c9 preciso atravessar o medo e, depois do medo, n\u00e3o h\u00e1 mais medo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da sess\u00e3o, o A. encontrava-se no extremo esquerdo do espectro dor\/prazer de que fala Lowen no seu livro \u201cPrazer\u201d. Depois desta sess\u00e3o, que durou 2 horas, respirava melhor, os seus movimentos eram mais espont\u00e2neos e harmoniosos e o seu olhar estava vivo, alegre e presente. Sentia prazer e alegria. Terminou a sess\u00e3o, falando do seu filho de 4 anos. Queria ser um bom pai e ter mais paci\u00eancia com ele. Levei-o at\u00e9 ao espelho e sugeri-lhe que olhasse para si e cumprimentasse o novo homem. \u201cOl\u00e1, A.! Olha para ti. Perdeste muito tempo. Ganha ju\u00edzo. Tens um filho pequeno e \u00e9s respons\u00e1vel. Muda de vida\u201d, disse ele. \u201cV\u00ea como est\u00e1 diferente, A.?\u201d, perguntei-lhe eu. \u201cEstou. Estou mais vivo e j\u00e1 n\u00e3o sinto aquele aperto dentro de mim\u201d.<\/p>\n<p>Fiquei a observ\u00e1-lo a ir-se embora. Movimentava-se pelo corredor, de costas direitas e cabe\u00e7a erguida, e os seus bra\u00e7os acompanhavam harmoniosamente o ritmo das suas pernas. Em voz alta e bem colocada, despedia-se das enfermeiras e do m\u00e9dico daquele servi\u00e7o. Notava-se uma vibra\u00e7\u00e3o alegre e eu fiquei muito emocionada.<\/p>\n<p>Na sess\u00e3o seguinte, o A. entrou com vis\u00edvel alegria e vitalidade. Falou imenso, sempre mantendo o contacto comigo, e contou as grandes novidades da semana: que passou a ter mais fome e a comer com muito apetite e que as dores de est\u00f4mago tinham desaparecido, que falou muito no servi\u00e7o dele, e sem medo, que brincou com os colegas, que se fartou de brincar com o filho e que, pela primeira vez, tinha olhado para os seus olhos. Contou tamb\u00e9m que fez imensas judiarias com o corpo \u2013 alguns dos exerc\u00edcios que t\u00ednhamos feito aqui e outros que ele e o filho inventaram. Rebolou no ch\u00e3o e cantou muito. Reconheceu que quando os fantasmas interiores se diluem, \u00e9 mais f\u00e1cil estar dispon\u00edvel para os outros. \u00c9 como se visse melhor. Nesta sess\u00e3o, falou de coisas que lhe davam prazer e que tinha abandonado durante anos, e que iria retom\u00e1-las. Levou-me umas pedras lindas, pintadas por ele, que simbolizavam as suas viv\u00eancias prazenteiras e dolorosas. Queria muito olhar para elas para nunca mais se esquecer do que sofreu e do que lhe d\u00e1 prazer de viver. Nesta sess\u00e3o, fizemos alguns exerc\u00edcios corporais porque ele estava muito alegre e queria mexer-se. Desatou a inventar exerc\u00edcios e eu fui atr\u00e1s. Entretanto, um dos movimentos era o famoso twist, o que nos inspirou aos dois. Fartou-se de dan\u00e7ar e cantar. Nos movimentos mais lentos, cantou can\u00e7\u00f5es da sua terra \u2013 os famosos cantares alentejanos.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, pensei que este era um homem sem simbolismo. Com o descongelamento do medo, apareceu o seu lado alegre e criativo, o seu lado profundo e espiritual. O seu olhar mudou muit\u00edssimo, passando a ver mais longe e mais fundo, passando a ver as pessoas e os objectos mais n\u00edtidos e a ver coisas que nunca tinha visto antes, como, por exemplo, o olhar curioso do filho. O olhar ba\u00e7o e esquivo transformou-se num olhar mais alegre e sem fuga. O seu est\u00f4mago doente ganhara apetite e at\u00e9 engordara nos \u00faltimos dias. \u00c9 incr\u00edvel como tudo o que se passa nos \u00f3rg\u00e3os internos, se reflecte nos olhos. Um corpo com dores \u00e9 um corpo com medo. Todos os seus m\u00fasculos externos e internos estavam esp\u00e1sticos, afectando o funcionamento dos seus \u00f3rg\u00e3os internos e reflectindo um olhar ba\u00e7o e sem vida. Depois deste trabalho intenso, o funcionamento do seu organismo melhorou<\/p>\n<p>substancialmente, reflectindo tamb\u00e9m um olhar mais suave e vital, em perfeita presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Este \u00e9 apenas o in\u00edcio do degelo. Durante uns tempos, o A. saborear\u00e1 o prazer da vitalidade e edificar\u00e1 um pouco mais a sua auto-estima. Estou consciente de que este \u00e9 apenas o in\u00edcio de um trabalho longo e doloroso.<\/p>\n<p>Foi muito importante faz\u00ea-lo olhar para mim. Nesse contacto, o cliente fica mais consciente do seu sentir. Fechar os olhos \u00e9 n\u00e3o querer ver, \u00e9 n\u00e3o querer sentir. Simultaneamente, o olhar emp\u00e1tico, amoroso e tranquilo do terapeuta pode ser curativo e fazer o cliente perceber a outra dimens\u00e3o da vida, que h\u00e1 pessoas capazes de amar e confirmar a sua exist\u00eancia. Entreguei-me muito a este trabalho. No final, os meus olhos estavam h\u00famidos e senti-me mais humana. Respirava melhor e, quando caminhava em direc\u00e7\u00e3o a casa, senti os meus passos firmes, num movimento harmonioso e sem pressa. Perante a dor de um ser humano e perante o milagre da transforma\u00e7\u00e3o tudo fica t\u00e3o relativo!<\/p>\n<p><strong>A PELE TAMB\u00c9M V\u00ca<\/strong><\/p>\n<p>O JM. \u00e9 um homem de 35 anos, licenciado em psicologia, cego de nascen\u00e7a, com uma estrutura defensiva marcadamente masoquista e esquiz\u00f3ide. O trabalho com ele tem sido dific\u00edlimo e fascinante ao mesmo tempo. Tem exigido de mim uma enorme criatividade e flexibilidade. \u00c9, muitas vezes, dif\u00edcil perceber se se deve trabalhar o contacto e a aceita\u00e7\u00e3o incondicional ou se \u00e9 melhor confrontar as defesas masoquistas, sinalizando a sua hostilidade terr\u00edvel. Um engano provoca um grande sentimento de incompreens\u00e3o. Outras vezes, o confronto \u00e9 necess\u00e1rio, mas desencadeia nele uma atitude manipuladora, de vitimiza\u00e7\u00e3o e tentativa de culpabiliza\u00e7\u00e3o da terapeuta \u201c\u00e9s uma m\u00e3e m\u00e1\u201d. O JM. tem um racioc\u00ednio extremamente l\u00f3gico e racional, o que dificulta imenso o trabalho. Preciso de estar muito centrada para, a todo o momento, surpreend\u00ea-lo e ajud\u00e1-lo a tomar consci\u00eancia das suas emo\u00e7\u00f5es, do seu verdadeiro self escondido por tr\u00e1s da sua enorme armadura. O medo esconde a raiva assassina e paraliza-o. Em termos contratrasferenciais, sinto uma grande impot\u00eancia, e isso \u00e9 riqu\u00edssimo. Faz-me mergulhar num trabalho de escava\u00e7\u00e3o profunda e de lapida\u00e7\u00e3o de um diamante em bruto. Outras vezes, \u00e9 a hostilidade que esconde o medo e a vital necessidade de contacto. Aqui, preciso de estar dispon\u00edvel e de cora\u00e7\u00e3o muito aberto, para n\u00e3o morder a isca que ele me lan\u00e7a para o rejeitar.<!--nextpage--><\/p>\n<p>A dan\u00e7a com este cliente \u00e9 muito particular porque ora envolve movimentos muito lentos, simples e regressivos, ora envolve movimentos fortes. O trabalho de descongelamento do medo e de cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o afectivo de aceita\u00e7\u00e3o incondicional que apoie a redescoberta da espontaneidade da crian\u00e7a tem sido o meu grande objectivo para este processo terap\u00eautico. Faltou a este cliente o sentido da vis\u00e3o, o contacto de pele e o olhar atento dos pais direccionado para as suas necessidades vitais. A aus\u00eancia de referenciais deixaram-no numa situa\u00e7\u00e3o de medo permanente, sem orienta\u00e7\u00e3o. Ajud\u00e1-lo a descobrir cada parte do corpo, os movimentos de gatinhar, de levantar e baixar, de levar \u00e0 boca, de cuspir, de afastar e de chamar, de saltar e rebolar, de fazer sons, de tocar e explorar, de brincar, e a minha confirma\u00e7\u00e3o constante dessa descoberta, permite ajud\u00e1-lo a estruturar referenciais corporais e a aumentar o seu sentimento de exist\u00eancia. A pele tamb\u00e9m v\u00ea e, no contacto com esse espelho, a emo\u00e7\u00e3o surge. O seu \u201colhar\u201d \u00e9 de uma riqueza sem tamanho e tem-me ensinado muito a ver com os olhos de dentro!<\/p>\n<p>Nesse dia o JM. trazia uma viv\u00eancia profissional de humilha\u00e7\u00e3o e encurralamento. O seu relato foi breve, ao contr\u00e1rio do que acontecia na maior parte das sess\u00f5es, e o tom da sua voz traduzia cansa\u00e7o e des\u00e2nimo. O seu corpo pendia como um fardo, com um olhar para um horizonte escuro sem norte nem sul. \u00c0 minha frente estava um homem perdido e profundamente s\u00f3. Quase uma inexist\u00eancia. Fazia sil\u00eancio porque a inexist\u00eancia n\u00e3o tem palavras. Senti uma profunda tristeza e um impulso enorme para o proteger. Ao mesmo tempo, tinha consci\u00eancia de que aquele colo que eu lhe podia dar n\u00e3o teria a resson\u00e2ncia necess\u00e1ria. Seria preciso, simbolicamente, morrer e nascer de novo, para sentir o prazer e o calor de ser recebido com alegria.<\/p>\n<p>Deitei-o e suportei-lhe a cabe\u00e7a. Os m\u00fasculos do pesco\u00e7o pareciam cordas grossas. A tens\u00e3o era fort\u00edssima. Enquanto massajava os seus m\u00fasculos, incentivava-o a soltar a voz. Apenas sa\u00eda um sorriso defensivo e um riso de c\u00f3cegas, ao mesmo tempo que encaixava o pesco\u00e7o nos ombros e contorcia o seu corpo. Pressionava mais e ele continuava a contorcer-se de c\u00f3cegas, com um sorriso de submiss\u00e3o. O JM. \u00e9 um homem alto e forte, quase o dobro de mim. Pressionei ainda com mais for\u00e7a. A dor era vis\u00edvel, mas a sua atitude continuava a ser de submiss\u00e3o e de paralisa\u00e7\u00e3o total. O que levaria este homem a n\u00e3o ser capaz de me tirar as m\u00e3os do seu pesco\u00e7o e a submeter-se \u00e0quela viol\u00eancia sem qualquer resist\u00eancia? Eu podia mat\u00e1-lo se quisesse. Devolvi-lhe isso e ele respondeu: \u201dj\u00e1 senti esse medo. Tive medo que o meu pai me matasse\u201d. \u201cComo foi isso, JM?\u201d, perguntei-lhe. \u201cUm dia, ele agarrou-me pelo pesco\u00e7o e levantou-me. Tive tanto medo que pedi desculpa por uma coisa que n\u00e3o merecia pedido de desculpa\u201d, respondeu com aquele sorriso meio sarc\u00e1stico. \u201cO que sentiu?\u201d \u201cHumilha\u00e7\u00e3o e muita revolta comigo mesmo, por me ter submetido\u201d. E o seu rosto encheu-se de uma enorme tristeza, apesar do sorriso persistente. Fi-lo respirar um pouco, nesse sil\u00eancio, para sentir mais. Todo o corpo apresentava uma tens\u00e3o enorme, como se estivesse preso, encurralado, e n\u00e3o se pudesse mexer. Pedi-lhe que mobilizasse o seu corpo todo. E ele mexia-se pouco. Desistia facilmente, esperando as minhas instru\u00e7\u00f5es, como se o corpo n\u00e3o soubesse o caminho. Pedi-lhe, ent\u00e3o, que esperneasse, esbracejasse e soltasse a voz. Ele fazia-o en\u00e9rgica, mas mecanicamente. Simulei que lhe apertava o pesco\u00e7o, como o pai o tinha feito. Pedi-lhe que sentisse um pouco isso, antes de reagir. Encolheu o pesco\u00e7o e sorriu, submissamente. O corpo ficou paralisado. As m\u00e3os e os p\u00e9s ficaram r\u00edgidos e levantados como uns olhos com medo. Incentivei-o energicamente a reagir depressa, agarrando as minhas m\u00e3os e afastando-me. Lembrei-o que ele tinha mais for\u00e7a que eu e que, se ele quisesse, eu n\u00e3o podia, nunca, sequer chegar perto. Ele f\u00ea-lo como um menino obediente e logo se punha a jeito para eu voltar l\u00e1 com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>A imobilidade era de tal ordem que resolvi mudar a estrat\u00e9gia. Senti que era preciso lev\u00e1-lo a fazer exerc\u00edcios sem conota\u00e7\u00e3o emocional porque esta provocava-lhe um medo paralisante: exerc\u00edcios de mobiliza\u00e7\u00e3o do corpo todo, num contexto l\u00fadico e com instru\u00e7\u00f5es claras, estimulando-o a empolgar-se cada vez mais. De cada vez que sentisse uma parte do seu corpo a ser tocada, teria que a mexer ou sacudir. E fui criando, assim, uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es a um ritmo crescente de velocidade, de uma forma distraidamente l\u00fadica, e para que ele pudesse desmultiplicar a sua energia at\u00e9 ao ponto de reagir espontaneamente a uma investida mais violenta da minha parte, sem que ele tivesse tempo de se defender. Assim foi. Comecei por deixar cair almofadas em partes do seu corpo, toques subtis, toques mais fortes, toques diferentes ao mesmo tempo em partes diferentes do corpo, etc. A dada altura, \u201csufoquei-o\u201d com almofadas, pondo-me toda em cima dele para o encurralar e ele desatou a sacudir-me. Insisti v\u00e1rias vezes, cada vez mais criativa na minha malvadez. Fui ao pesco\u00e7o dele e ele segurou-me e empurrou-me logo a seguir, soltando um pouco mais a sua voz. Continuei a atac\u00e1-lo, sendo mais invasora, instigando-o a reagir com a mesma vitalidade. O cansa\u00e7o era grande, mas ousei ir cada vez mais longe porque senti que o JM. ainda n\u00e3o tinha entrado em contacto com a raiva. Para al\u00e9m disso, era um menino bem comportado e faria o exerc\u00edcio mecanicamente, at\u00e9 ao fim da sess\u00e3o, caso fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>E nesta dan\u00e7a de pura sobreviv\u00eancia, o meu instinto levou-me a apertar-lhe o pesco\u00e7o com uma das m\u00e3os e a tapar-lhe os olhos com a outra. A sua voz soltou-se como nunca tinha acontecido antes e, com gestos largos, atirou-me, num s\u00f3 golpe, para o ch\u00e3o. \u201cBoa, JM., boa! Nunca mais vai deixar que lhe fa\u00e7am mal!\u201d. Respirava intensa e profundamente. O seu corpo movia-se, solto e harmonioso. O sorriso tinha desaparecido por completo. \u00c0 medida que os minutos passavam, o seu rosto ficava com ar mais grave e o pesco\u00e7o latejava como um cora\u00e7\u00e3o acelerado. Devagarinho, coloquei-lhe a m\u00e3o debaixo da nuca e pedi-lhe que olhasse na minha direc\u00e7\u00e3o. \u201cOlhe para mim, JM\u201d. A sua cabe\u00e7a moveu-se, buscando o meu rosto e a tristeza profunda estava estampada no seu rosto e nos seus olhos brancos. Incr\u00edvel como havia tristeza no olhar! Os olhos ficaram h\u00famidos, mas n\u00e3o conseguia chorar. Tem uma dificuldade org\u00e2nica em chorar. A boca tinha uma express\u00e3o diferente.<\/p>\n<p>O trabalho corporal intenso ajudara este cliente a sair da paralisa\u00e7\u00e3o do medo, a mobilizar a sua energia de sobreviv\u00eancia (raiva) e, finalmente, a sentir a tristeza. Tapar-lhe os olhos ao mesmo tempo que lhe apertava o pesco\u00e7o actualizou a sua viv\u00eancia de terror e deu-lhe a plena consci\u00eancia da sua cegueira e da imensid\u00e3o da sua desprotec\u00e7\u00e3o. Quando, no in\u00edcio da consulta, falou do seu encurralamento e de se sentir completamente perdido, e do seu corpo falar de tudo isso, n\u00e3o imaginava que o trabalho bioenerg\u00e9tico pudesse levar-nos t\u00e3o longe! Mas, entretanto, o seu pesco\u00e7o foi-me falando desse encurralamento e os seus olhos, juntamente com a sua atitude corporal, de desorienta\u00e7\u00e3o. O seu olhar branco, sempre em busca de algo, chamava-me a aten\u00e7\u00e3o. Havia ali uma barreira. Essa falta de contacto comigo perturbava a minha compreens\u00e3o e o meu envolvimento emp\u00e1tico. Faz\u00ea-lo olhar para mim, como se me visse, ajudou-me a estar mais pr\u00f3xima e ajudou-o a ele a conectar-se mais profundamente com o seu sentimento. Respir\u00e1mos juntos, olhando-nos nos olhos da alma. A minha m\u00e3o na sua nuca dava-lhe um grande sentimento de protec\u00e7\u00e3o e de confirma\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>REVELA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>O P. \u00e9 um homem de 40 anos, realizador de filmes de publicidade. \u00c9 estr\u00e1bico, tem uma flagrante assimetria nos olhos e tens\u00f5es fort\u00edssimas em todo o corpo. Em grounding, verga-se para a frente e para um dos lados, olhando por cima dos seus olhos estr\u00e1bicos. Quando respira, franze a testa como se sentisse dor e abre a boca como um animal ferido e enraivecido. O som sai com dificuldade, como se fosse um grito de dor. Os p\u00e9s s\u00e3o arqueados, mal tocando o ch\u00e3o, o pesco\u00e7o \u00e9 um bloco im\u00f3vel encaixado nos ombros erguidos e a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 superficial. As pernas s\u00e3o muito tensas e apresentam reduzida flexibilidade. Altamente sedutor e controlador nas suas rela\u00e7\u00f5es, liga-se aos outros pela cabe\u00e7a. Do ponto de vista psicol\u00f3gico, \u00e9 tamb\u00e9m muito r\u00edgido e inflex\u00edvel. Um dia, fiz-lhe o espelho da sua postura e ficou muito impressionado, dizendo: \u201cn\u00e3o h\u00e1 integridade na minha postura\u201d. Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o um aspecto: procura alcan\u00e7ar, em tudo o que faz, a maior qualidade e pediu-me que o ajudasse a detectar as suas batotas.<\/p>\n<p>Quando se movimenta em direc\u00e7\u00e3o a mim, vem aos ziguezagues, e pisca os olhos alternadamente como quem faz um jogo de esconde-esconde. Eu viro-me de frente para ele e ele foge outra vez, posicionando-se de lado para eu n\u00e3o o ver e ele me poder espreitar e manipular. Fico tonta e com uma enorme tens\u00e3o nos olhos. Pe\u00e7o-lhe que me focalize e respire. Fica assustado e foge de diversas maneiras; fala imenso, co\u00e7a a cabe\u00e7a, revira os olhos de sono e boceja, pisa o ch\u00e3o com for\u00e7a para sentir mais os p\u00e9s. Um desassossego. Defende-se com a conversa, sendo bastante eloquente e quase imposs\u00edvel de o deter.<\/p>\n<p>Este cliente durante muito tempo n\u00e3o me olhava verdadeiramente. Quando falava comigo, desfocava. Um dia, encontrou-me num restaurante e n\u00e3o me reconheceu. Construiu uma imagem de mim que n\u00e3o era eu. Falava de mulheres que eram de uma maneira e, afinal, eram totalmente diferentes. Os seus olhos estavam t\u00e3o desfocados que as suas percep\u00e7\u00f5es o enganavam. A sua consci\u00eancia emocional era quase nula. Por baixo daquela capa de sedu\u00e7\u00e3o e brilhantismo intelectual, percebi nele um medo de morte e uma raiva muito primitiva.<\/p>\n<p>Tenho desenvolvido com este cliente um trabalho de consciencializa\u00e7\u00e3o do corpo e de aumento gradual da vitalidade, bem como um trabalho sobre o contacto. \u00c9 um trabalho subtil e, dado o enorme simbolismo deste cliente, os seus insights s\u00e3o imensos e ricos. Os olhos deste homem do cinema t\u00eam-me conduzido por in\u00fameros cen\u00e1rios onde nos temos encontrado e surpreendido.<\/p>\n<p>Naquele dia, o P. estava aparentemente bem, sem nada de especial para trabalhar. Pedi-lhe ent\u00e3o que olhasse para mim e respirasse, para percebermos melhor o que poderia precisar nesse dia. A dificuldade do contacto era evidente, pela desfocagem, pela falta de emo\u00e7\u00e3o no olhar e pela respira\u00e7\u00e3o superficial acompanhada de tens\u00e3o nos ombros. No entanto, referiu que estava bem e que se sentia bem comigo, apesar de reconhecer o desconforto de olhar para mim.<\/p>\n<p>Propus-lhe um trabalho sobre a constru\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo ao longo da primeira inf\u00e2ncia. Ir\u00edamos situar-nos no tempo em que ainda n\u00e3o havia palavras e a rela\u00e7\u00e3o se estabelecia ao n\u00edvel sensorial e emocional. Regressar\u00edamos ao tempo em que se aprende a empatia, atrav\u00e9s da sincroniza\u00e7\u00e3o do olhar, da respira\u00e7\u00e3o, dos movimentos, numa dan\u00e7a amorosa e prazenteira. O tempo em que o olhar da crian\u00e7a \u00e9 enorme e l\u00facido, capaz de compreender todas as verdades e todas as mentiras. Far\u00edamos um regresso \u00e0 idade da inoc\u00eancia. Fic\u00e1mos sentados frente a frente, em contacto visual e sincronizando a respira\u00e7\u00e3o. A assimetria do seu olhar estava muito acentuada. Esta situa\u00e7\u00e3o provocava no P. uma necessidade imediata de fuga, pelo que lhe sugeri que pusesse as m\u00e3os \u00e0 frente e, atr\u00e1s dos dedos, espreitasse a m\u00e3e, em seguran\u00e7a. Eu n\u00e3o o veria, mas ele poderia ver-me e olhar-me nos olhos sem medo, explorando o olhar da m\u00e3e e o seu pr\u00f3prio. Assim o fez. Percebi que ele estava a tirar partido da experi\u00eancia, brincando e colocando as m\u00e3os em diversos \u00e2ngulos. Deixei-o ficar bastante tempo, enquanto o meu olhar se mantinha caloroso. Percebi que ele estava confiante, provavelmente por estar em contacto mas poder controlar sem ser controlado, e que poder\u00edamos passar \u00e0 etapa seguinte. Agora, o objectivo era ele captar o olhar da m\u00e3e distra\u00edda e desatenta. O estrabismo deste cliente e a sua fuga sistem\u00e1tica ao contacto intrigavam-me. Seria o olhar da m\u00e3e aterrador? Para onde olharia ela quando tratava do seu beb\u00e9? E decidi explorar. Comecei por estar apenas distra\u00edda, olhando para o lado. Ele buscava o meu olhar insistentemente. Assim que eu correspondia, esbo\u00e7ava um sorriso de satisfa\u00e7\u00e3o e imediatamente come\u00e7ava a fazer macacadas defensivas. Nesse momento, eu voltava a olhar para outro lado e ele voltava a buscar-me insistentemente. Eu fugia cada vez mais, para o estimular. Percebi que o P. estava a gostar da brincadeira e que ainda n\u00e3o t\u00ednhamos tocado no ponto crucial. Mas deixei-me levar pela brincadeira, para que ele entrasse cada vez mais no exerc\u00edcio e n\u00e3o tivesse necessidade de controlar racionalmente este trabalho. A dada altura, quando ele conseguia que eu olhasse para ele, ousei fazer olhares diferentes. De zanga, de tristeza, de medo e outros mais brincalh\u00f5es. Ao olhar de zanga, tristeza e medo ele respondia com brincadeira, para me demover, e com uma zanga estudada e fingida. Ao olhar brincalh\u00e3o, respondia com brincadeira.<\/p>\n<p>Continuava a sentir que o contacto conseguido era muito superficial e que as reac\u00e7\u00f5es do P. aos meus olhares eram mais ou menos defensivos. Nenhum daqueles olhares lhe provocavam medo ou descontrolo. Todos eles envolviam contacto. Teria que experimentar a aus\u00eancia de contacto, mas olhando para ele. Teria que desfocar o meu olhar como ele o fazia e, quem sabe, a pr\u00f3pria m\u00e3e. Assim fiz. Via apenas uma mancha e senti no meu corpo uma energia muito reduzida. Senti-me como se n\u00e3o estivesse ali. O P. teve uma reac\u00e7\u00e3o absolutamente surpreendente. Agarrou em mim com for\u00e7a, como se tivesse garras e desatou a gritar. Mantive o olhar desfocado e deixei que ele desesperassse mais. O seu grito era cada vez mais intenso e a for\u00e7a com que me agarrava, maior ainda. Depois, foquei-o e vi o seu olhar plenamente em contacto, desesperado como uma animal ferido e a pedir socorro. Um misto de medo, de raiva e de apelo de sobreviv\u00eancia. Fiz um olhar atento e protector, mas ele n\u00e3o via. Continuou a abanar-me, cada vez mais zangado e pr\u00f3ximo, enfiando as garras nos meus bra\u00e7os. Os seus olhos ficaram enormes, os dois do mesmo tamanho, e completamente focados. O estrabismo desaparecera quase por completo. Eu continuei presente, para que ele pudesse deixar de ter medo e se permitisse zangar sem sentir perigo. Isto durou uns minutos. Quando a raiva assumiu propor\u00e7\u00f5es mais violentas, parou bruscamente o exerc\u00edcio, afirmando espantado: \u201cGoretti, isto mexeu mesmo comigo. O seu olhar era aterrador! Senti-me desamparado e terrivelmene zangado, como se estivesse a correr perigo. Foi forte. Que exerc\u00edcio! Parab\u00e9ns, Goretti!\u201d. N\u00e3o resistiu a elogiar-me. \u201cSabia que o seu olhar \u00e9 igual a esse olhar? Sinto muitas vezes que n\u00e3o me v\u00ea e que o seu contacto comigo \u00e9 muito superficial\u201d, retorqui-lhe com serenidade e firmeza. Ficou sem palavras, olhando para mim e, de repente, percebi-lhe uma tristeza. O P., que tem sempre um argumento e uma racionaliza\u00e7\u00e3o a fazer, ficou sem palavras. A seguir, Falou das sua rela\u00e7\u00f5es com as mulheres e compreendeu que sempre foram funcionais. Desfazia-se em gentilezas, mas isso n\u00e3o eram mais do que manobras sofisticadas para as manter \u00e0 dist\u00e2ncia e controladas. Conduzia as rela\u00e7\u00f5es pela cabe\u00e7a, sendo o mais perfeito dos homens, mas n\u00e3o sentia nada e as necessidades delas n\u00e3o eram sequer tidas em conta, tal como a m\u00e3e fazia com ele. Nesses processos sofisticados de manipula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o olhava para elas, para al\u00e9m de escolher sempre mulheres dependentes e com baixa auto-estima que receavam n\u00e3o estar \u00e0 sua altura. Um dia, uma delas, por quem pensou ter-se apaixonado, foi-se embora e ele perdeu o ch\u00e3o. Foi nessa altura que procurou a terapia.<\/p>\n<p>Pedi-lhe que olhasse para mim. Os seus olhos mantinham-se mais vivos e centrados, apesar da evidente tristeza. Devolvi-lhe o qu\u00e3o gratificante era v\u00ea-lo assim t\u00e3o integrado e t\u00e3o perto de si pr\u00f3prio. De mim, tamb\u00e9m estava mais perto porque percebia agora que n\u00e3o se defendia, nem me tentava agradar. Nesse instante, segurou-me nas m\u00e3os e percebi-lhe uma ternura verdadeira no olhar. \u201cObrigada, Goretti. Foi muito bom ter sentido e compreendido um pouco mais. Mas acredito que talvez nunca seja capaz de mergulhar na intimidade com algu\u00e9m. Isto \u00e9 possivelmente o mais longe que conseguirei ir.\u201d<\/p>\n<p>Nestes momentos de verdade, sinto que o sil\u00eancio e o olhar emp\u00e1tico s\u00e3o a \u00fanica coisa a fazer. \u00c9 preciso aceitar que os nossos clientes possam n\u00e3o ir t\u00e3o longe quanto gostar\u00edamos. E nesse momento de verdade, encontrei-me tamb\u00e9m com a minha pr\u00f3pria tristeza, com a minha impot\u00eancia. Fiquei um pouco com a minha crian\u00e7a interna, a recordar os meus sonhos de amor e as minhas separa\u00e7\u00f5es, compreendendo que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel para o outro confiar e deixar-se amar. Serei eu capaz tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>Hoje em dia, \u00e9 interessante constatar como o P. tem modificado o seu olhar sobre a vida. Consegue olhar para os olhos dos pais e v\u00ea-los a eles, distanciadamente, sem ressentimento. Muitas vezes, deambula pela cidade, observando as pessoas e vendo coisas pela primeira vez. Teve um per\u00edodo em que nem conseguia formular muito bem as suas ideias. A eloqu\u00eancia que lhe era peculiar deu lugar ao ver e ao sentir, e parecia fascinado. Entretinha-se a observar o rosto de velhos amigos e descobriu que eles eram totalmente desconhecidos e que, com o passar dos tempos, n\u00e3o tinham rigorosamente nada a ver com ele. A coisa mais extraordin\u00e1ria \u00e9 que descobriu que uma determinada mulher, a quem reconheceu desde sempre uma beleza inigual\u00e1vel, era de facto feia e desarmoniosa e que foram os seios grandes e o colo de m\u00e3e que o encantaram e o cegaram. Hoje em dia percebe que aquele padr\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o o seduz e que os amigos tinham raz\u00e3o quando lhe diziam que ela n\u00e3o era assim t\u00e3o linda! Um dos seus passatempos favoritos \u00e9 brincar com a sua sobrinha de um ano. Observa-a intensamente e brinca com ela, com o olhar. Promove o v\u00ednculo e, com isso, cura um pouco as suas velhas feridas. Est\u00e1 tamb\u00e9m mais sozinho, mas menos s\u00f3. O trabalho sobre o olhar conduziu-o ao seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e f\u00ea-lo compreender melhor a natureza e a qualidade dos seus v\u00ednculos. Percebeu que alimentou, durante anos, rela\u00e7\u00f5es funcionais e sem rosto e que a separa\u00e7\u00e3o faz parte do v\u00ednculo. Percebeu tamb\u00e9m que o seu cora\u00e7\u00e3o tem feridas demasiado profundas para que algum dia seja capaz de conhecer a verdadeira intimidade, mas que est\u00e1 a aprender a ser mais \u00edntegro e verdadeiro nas suas rela\u00e7\u00f5es. A grande mudan\u00e7a reflecte-se nos seus filmes que deixaram de ser idealizados e passaram a ser mais reais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Goretti &#8211; Psicoterapeuta Viajava com uma amiga, \u00e0 procura de encontrar paisagens diferentes e algo de novo no horizonte. 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