{"id":151,"date":"2011-01-11T03:33:00","date_gmt":"2011-01-11T03:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.analisebioenergetica.com\/site\/?p=151"},"modified":"2011-01-11T03:33:00","modified_gmt":"2011-01-11T03:33:00","slug":"palestra-consciencia-e-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/palestra-consciencia-e-saude\/","title":{"rendered":"[PALESTRA] CONSCIENCIA E SA\u00daDE"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>CONSCIENCIA E SA\u00daDE<\/p>\n<p>ANA L\u00daCIA FRANCISCO<br \/>Psicoterapeuta &#8211; Doutora em Psicologia Clinica PUC &#8211; SP<br \/>Professora &#8211; Pesquisadora no Mestrado em Psicologia Clinica &#8211; Universidade Cat\u00f3lica &#8211; PE<\/p>\n<p>Somos herdeiros da modernidade, o que implica em dizer que tomamos como ide\u00e1rio, seja de ci\u00eancia seja de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, a busca pelo controle e pela previsibilidade, ambi\u00e7\u00e3o que deveria ser operada pela raz\u00e3o instrumental. De pronto, a mente, muitas vezes reduzida \u00e0 raz\u00e3o, tornou-se separada do corpo, passando a ter sobre ele dom\u00ednio; o homem passou a se perceber como distinto da natureza, tamb\u00e9m pass\u00edvel de ser a ele submetida; a busca pela univocidade da verdade produziu um homem fragmentado e tantas outras dicotomias passaram a reger nosso modo de pensar, de agir e de sentir: interior x exterior, sa\u00fade x doen\u00e7a, afeto x raz\u00e3o. A raz\u00e3o, ent\u00e3o soberana, deveria forjar um corpo obediente, disciplinado, pouco afeito \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o dos afetos e \u00e0s possibilidades de afetar-se. Cria-se um corpo m\u00e1quina, agora tornado objeto: corpo biol\u00f3gico e fisiol\u00f3gico, regido por leis capazes de explicar o seu funcionamento. Tamb\u00e9m neste contexto e como reflexo deste modo de pensar, sa\u00fade \u00e9 concebida, portanto, como aus\u00eancia de doen\u00e7a e consci\u00eancia reduzida \u00e0 apreens\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e\/ou conhecimentos.<\/p>\n<p>O que pretendo, nesta comunica\u00e7\u00e3o, tomando como referencia este solo no qual aprendemos a pensar e sentir, \u00e9 apresentar uma outra possibilidade para se olhar este homem, tomando-o n\u00e3o como fragmentado, mas totalmente sist\u00eamico, como um organismo.  Pensar o homem como um organismo exige que revisitemos alguns de nossos conceitos e coloquemos sob quest\u00e3o o paradigma simplista e reducionista que se encontra na base deste modo de pensar.<br \/>Para come\u00e7ar vou tomar de empr\u00e9stimo algumas reflex\u00f5es trazidas por Leonardo Boff (1997) em um riqu\u00edssimo texto que tem por t\u00edtulo Identidade e Complexidade. Em seu inicio o autor nos prop\u00f5e uma instigante quest\u00e3o: o que comp\u00f5e a carteira de identidade do ser humano?  Frente a esta proposi\u00e7\u00e3o, seguem suas palavras: \u201cA historia pessoal \u00e9 parte da hist\u00f3ria bio-s\u00f3cio-cultural. Esta, por sua vez, \u00e9 parte da hist\u00f3ria c\u00f3smica. Esse enraizamento confere ao ser humano concreto uma qu\u00e1drupla identidade\u201d (p.61). Neste sentido, somos c\u00f3smicos porque vivemos das mesmas part\u00edculas que comp\u00f5em o universo, os \u00e1tomos de carbono, oxig\u00eanio e nitrog\u00eanio imprescind\u00edveis \u00e0 vida, vitais em nossos processos de respira\u00e7\u00e3o. Somos terrenos porque representantes de um processo de desenvolvimento de formas primitivas de vida que se anunciaram na terra h\u00e1 bilh\u00f5es de anos, constituindo-nos, dentre outras esp\u00e9cies vivas, como Homo Sapiens. Temos uma identidade cultural: \u201co ser humano criou a cultura, realidade especificamente humana. Criou-a a partir de interven\u00e7\u00f5es sobre si mesmo e sobre a natureza\u201d. (p.62). Estas interven\u00e7\u00f5es, por sua vez, permitiram a cria\u00e7\u00e3o de um habitat humano, uma morada humana, um ethos, palavra origin\u00e1ria de \u00e9tica em grego. Finalmente, temos uma historia pessoal, um nome pr\u00f3prio, mas, tamb\u00e9m um sobrenome, o que nos confere uma radical singularidade, ainda que atravessada, testemunha e porta-voz daqueles que me antecederam e daqueles que vir\u00e3o. O \u201ceu sou\u201d porta o coletivo, os tantos outros que me fundaram como humano.<\/p>\n<p>Carteira de Identidade bastante complexa porque fruto de um qu\u00e1druplo enraizamento: o c\u00f3smico, o terrenal, o cultural e o pessoal, que n\u00e3o podem ser vistos como dissociados, mas, ao contr\u00e1rio, formam uma intricada teia de solidariedades e interdepend\u00eancias, exigindo um modo de pensar a partir de um principio auto-eco-organizativo. Autonomia implica em depend\u00eancia, sa\u00fade implica em doen\u00e7a, mente-corpo compondo uma mesma realidade, sendo ambos passiveis de serem subjetivamente objetivados e objetivamente subjetiv\u00e1veis.<\/p>\n<p>Abandonando, portanto, o paradigma simplista e reducionista a favor de um pensar complexo; abrindo m\u00e3o de uma perspectiva fragmentada e fragment\u00e1ria do humano em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 compreens\u00e3o do profundo di\u00e1logo e m\u00fatua afeta\u00e7\u00e3o entre todas as dimens\u00f5es que o comp\u00f5em, o que lhe confere  uma realidade bio-psico-s\u00f3cio-cultural e espiritual, sem deixar de considerar as especificidades de cada um destes campos; ser\u00e1, neste contexto, que pretendo contribuir com reflex\u00f5es sobre esta tem\u00e1tica \u2013 sa\u00fade e consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Partirei de duas premissas que considero fundamentais: a primeira \u00e9 a de que sa\u00fade e doen\u00e7a n\u00e3o se referem ao corpo ou a psique, como entidades distintas e que, ao contr\u00e1rio,  s\u00e3o parte de um mesmo processo. A segunda, diz respeito \u00e0 consci\u00eancia, compreendendo-a como constru\u00e7\u00e3o permanente, o que implica em um cont\u00ednuo educar-se. Consci\u00eancia, portanto, como atitude reflexiva, viabilizada no cotidiano das pessoas, o que permite avalia\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as de posturas que visam o crescimento pessoal e a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o de mentalidades dirigidas a constantes posicionamentos frente ao mundo que nos cerca e do qual somos parte.<\/p>\n<p>Isto posto, nosso primeiro movimento ser\u00e1 retomar o conceito de sa\u00fade, tal como nos apresentado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (1948): \u201csa\u00fade \u00e9 o completo bem estar f\u00edsico, mental e social e n\u00e3o aus\u00eancia de doen\u00e7a\u201d. Sem desmerecer a importante evolu\u00e7\u00e3o que este conceito comporta, acreditamos que ele possa ser questionado, mesmo porque nos parece que ele parte de premissas equivocadas. Poder\u00edamos indagar: \u00c9 poss\u00edvel um completo bem estar? O que consideramos Bem-estar? \u00c9 poss\u00edvel uma exist\u00eancia sem dores, sem agonias?<\/p>\n<p>Se o bem-estar f\u00edsico se manifesta\/expressa em um corpo, mais uma reflex\u00e3o se faz necess\u00e1ria: O que \u00e9 o corpo? Apenas um organismo biol\u00f3gico e fisiol\u00f3gico, regido por leis capazes de explicar o seu funcionamento? Um objeto a ser disciplinado e corrigido pelas in\u00fameras tecnologias que prometem beleza e perfei\u00e7\u00e3o? Acreditamos que n\u00e3o. A perspectiva que nos guia compreende o corpo tal como sugerido por Leonardo Boff (1999): \u201ccorpo \u00e9 aquela por\u00e7\u00e3o do universo que n\u00f3s animamos, informamos, conscientizamos e personificamos\u201d (p.142) e, neste sentido, o corpo \u00e9 um ecossistema vivo que se articula com outros sistemas mais abrangentes. O corpo, portanto, nos apresenta, nos situa, nos realiza em um mundo junto com outros e com todas as coisas vivas que nos cercam. Freud j\u00e1 sinalizava para este aspecto m\u00faltiplo do corpo ao dizer que o \u201ceu \u00e9 antes de tudo corporal\u201d. Somos introduzidos ao mundo pelo corpo e \u00e9 nele que se encontram inscritas n\u00e3o s\u00f3 nossa trajet\u00f3ria pessoal, mas a nossa mem\u00f3ria mais arcaica. Mas a contribui\u00e7\u00e3o trazida por Freud vai al\u00e9m quando, para al\u00e9m de um corpo biol\u00f3gico e fisiol\u00f3gico, prop\u00f5e um corpo er\u00f3geno, um corpo capaz de ser subsidio e subsidiar as nossas experi\u00eancias, um corpo subjetivo, portanto, o que torna sem fundamento a dicotomia corpo-mente.<\/p>\n<p>Nestes termos, doen\u00e7a n\u00e3o significa comprometimento apenas de um \u00f3rg\u00e3o ou de uma faculdade mental, mas um dano a toda a exist\u00eancia. Quando se adoece, \u00e9 a vida que adoece em suas v\u00e1rias dimens\u00f5es. Se entendermos sa\u00fade e doen\u00e7a como dois lados de uma mesma moeda, n\u00e3o h\u00e1 um estado de equil\u00edbrio permanente, mas sempre provis\u00f3rio rompido por desequil\u00edbrios que impulsionam o organismo como um todo \u00e0 busca de uma auto-eco-organiza\u00e7\u00e3o. Sa\u00fade como meta-estabilidade, designando um processo de adapta\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o das mais diversas situa\u00e7\u00f5es. Sa\u00fade, portanto, n\u00e3o \u00e9 um estado nem um ato existencial, mas uma atitude face \u00e0s varias situa\u00e7\u00f5es, que podem ser doentias ou s\u00e3s. Como tamb\u00e9m lembra Leonardo Boff (1999): Ser saud\u00e1vel significa realizar um sentido de vida que englobe a sa\u00fade, a doen\u00e7a e a morte. &#8230; Como dizia um conhecido m\u00e9dico alem\u00e3o: \u201csa\u00fade n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de danos. Sa\u00fade \u00e9 a for\u00e7a de viver com esses danos\u201d. Sa\u00fade como potencia de vida e adoecimento como despotencializa\u00e7ao, inibi\u00e7\u00e3o ou fratura do ethos humano, desenraizamento em uma ou mais dimens\u00f5es do existir.<\/p>\n<p>Provavelmente \u00e9 para o adoecimento compreendido como desenraizamento, como fratura do ethos humano que o mal estar da contemporaneidade est\u00e1 nos indicando.  Desenraizados de nossa condi\u00e7\u00e3o humana, a sa\u00fade passa a ter apenas uma fun\u00e7\u00e3o estetizante, operada pelos mais variados procedimentos de manipula\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o sobre ela. Ter sa\u00fade \u00e9 uma palavra de ordem, associada \u00e0s in\u00fameras f\u00f3rmulas e receitas dirigidas a uma sa\u00fade perfeita.  Mas, paradoxalmente, quanto mais \u201ccuidamos\u201d da sa\u00fade, mais adoecemos, ainda que sejam crescentes as campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o voltadas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e cuidados \u00e0 sa\u00fade, parecendo, no entanto, longe de atingirem os seus objetivos.  <\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que na base destas campanhas preventivas, chamadas campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o, exista o equivoco j\u00e1 referido por n\u00f3s no inicio desta reflex\u00e3o, qual seja, a cren\u00e7a de que conscientiza\u00e7\u00e3o resulte, apenas, de um processo de apreens\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es ou  de esclarecimentos formais. N\u00e3o que estes n\u00e3o sejam necess\u00e1rios, mas, para al\u00e9m de tomar consci\u00eancia de, nos parece necess\u00e1rio construir consci\u00eancia para, e, neste sentido, consci\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 processo que se realiza a partir de dentro. Retomando as palavras de Merleau-Ponty (1999:269):<\/p>\n<p>&#8230;o corpo n\u00e3o \u00e9 um objeto. Pela mesma raz\u00e3o, a consci\u00eancia que tenho dele n\u00e3o \u00e9 um pensamento, quer dizer, n\u00e3o posso decomp\u00f4-lo e recomp\u00f4-lo para formar dele uma id\u00e9ia clara&#8230;. Quer se trate do corpo do outro ou do meu pr\u00f3prio corpo, n\u00e3o tenho outro meio de conhecer o corpo humano sen\u00e3o viv\u00ea-lo, quer dizer, retomar por minha conta o drama que o transpassa e confundir-me com ele.  <\/p>\n<p>Vale ressaltar que um dos dramas que transpassa este corpo \u00e9 a sua    inevit\u00e1vel finitude, o que se inicia desde o momento em que nascemos. Ter consci\u00eancia de nossa condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica de finitude e mortalidade, longe de levar-nos a um processo de resigna\u00e7\u00e3o, de acomoda\u00e7\u00e3o ou de uma vida inconseq\u00fcente, pode ser propulsora de uma constru\u00e7\u00e3o existencial pautada no mais absoluto compromisso com a vida, j\u00e1 que, nas palavras do poeta Lenine, ela \u00e9 t\u00e3o cara e t\u00e3o rara.<\/p>\n<p>Finalmente, cumpre lembrar que consci\u00eancia e sa\u00fade se articulam com cuidado: cuidado com a vida que nos anima, cuidado para com a realidade que nos circunda (alimenta\u00e7\u00e3o, higiene, o ar que respiramos, o modo como moramos, o espa\u00e7o ecol\u00f3gico em que vivemos) e para com as pessoas que nos s\u00e3o significativas. Consci\u00eancia e sa\u00fade significando a busca de assimila\u00e7\u00e3o criativa de tudo o que nos possa ocorrer na vida, compromissos e trabalhos, encontros significativos e crises existenciais, sucessos e fracassos, sa\u00fade e sofrimento. \u00c9 poss\u00edvel que este seja um dos caminhos para nos tornarmos mais amadurecidos, o caminho que torna poss\u00edvel transformar sofrimento em sabedoria.<\/p>\n<p>REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:<\/p>\n<p>BOFF, Leonardo. Identidade e Complexidade. In Ensaios de Complexidade. Coordena\u00e7\u00e3o de Gustavo de Castro et.al. Porto Alegre:Sulina, 1997.<\/p>\n<p>_________ Saber cuidar: \u00e9tica do humano -compaix\u00e3o pela terra. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1999.<\/p>\n<p>MERLEAU PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percep\u00e7\u00e3o. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1999. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CONSCIENCIA E SA\u00daDE ANA L\u00daCIA FRANCISCOPsicoterapeuta &#8211; Doutora em Psicologia Clinica PUC &#8211; SPProfessora &#8211; Pesquisadora no Mestrado em Psicologia Clinica &#8211; Universidade Cat\u00f3lica &#8211; PE<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-151","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-congresso-2008"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=151"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}