{"id":148,"date":"2011-01-11T03:29:00","date_gmt":"2011-01-11T03:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.analisebioenergetica.com\/site\/?p=148"},"modified":"2011-01-11T03:29:00","modified_gmt":"2011-01-11T03:29:00","slug":"palestra-wilhelm-reich-60-anos-de-genialidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/palestra-wilhelm-reich-60-anos-de-genialidade\/","title":{"rendered":"[PALESTRA] WILHELM REICH 60 ANOS DE GENIALIDADE"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>WILHELM  REICH<br \/>60 ANOS DE GENIALIDADE<\/p>\n<p>T\u00c2NIA ALDA BUARQUE DA SILVA<br \/>Sociedade de An\u00e1lise Bioenerg\u00e9tica da Bahia \u2013 SABBA &#8211; Trainer Local<br \/>Este trabalho foi realizado por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de 50 anos da morte de Wilhelm Reich. Novembro de 2007<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de sua genialidade come\u00e7a na inf\u00e2ncia farta, livre e tr\u00e1gica, vivida numa fazenda da fam\u00edlia, em uma prov\u00edncia da \u00c1ustria. Primeiro filho de Leon Reich e Cec\u00edlia Roniger Reich, nascido em 24.03.1897. Foi o filho preferido de uma mulher sens\u00edvel, m\u00e3e afetuosa e indulgente e de um homem pr\u00e1tico e r\u00edgido, pai autorit\u00e1rio e dominador (Sharaf). A trag\u00e9dia se anuncia em sua vida quando, por volta dos 11 anos, acompanha com crescente interesse, medo e excita\u00e7\u00e3o ao romance de sua m\u00e3e com um de seus tutores. Se por um lado isto, de alguma forma, o excitava e fazia-o sentir-se vencedor diante do pai, por outro lado enchia-o de culpa e p\u00e2nico com a possibilidade de que este viesse a descobrir a trai\u00e7\u00e3o &#8211; tamb\u00e9m sua. Assim foi, tingida por cores t\u00e3o fortes, sua entrada na puberdade. Como t\u00e3o bem o pequeno Reich pode sentir, a roda da trag\u00e9dia come\u00e7a a mover-se quando seu pai arranca-lhe o segredo e, descobrindo-se tra\u00eddo pela mulher, transtornado pelo ci\u00fame e a \u201cdesonra\u201d, descarrega sobre ela sua raiva, na forma de intensas cenas ci\u00fames, acusa\u00e7\u00f5es e maus tratos. Ela, n\u00e3o suportando o peso da situa\u00e7\u00e3o, entra em depress\u00e3o e, pouco mais de um ano depois, comete suic\u00eddio. Reich estava, ent\u00e3o, com 13 anos. N\u00e3o bastasse ter perdido a m\u00e3e, nesta idade e de forma t\u00e3o traum\u00e1tica, quatro anos depois, seu pai, torturado pelo remorso e a culpa, descuida de si e adquire uma tuberculose da qual morre, deixando o jovem Reich \u00f3rf\u00e3o aos 17 anos, tendo apenas seu irm\u00e3o, Robert, tr\u00eas anos mais jovem, como companheiro. Um ano depois, em fun\u00e7\u00e3o de dificuldades financeiras e da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds, os dois irm\u00e3os perdem a fazenda ficando na mais completa pobreza. Robert vai morar com a av\u00f3 materna e Reich entra no ex\u00e9rcito da \u00c1ustria onde, em 1916 se torna oficial e participa da primeira guerra mundial.<\/p>\n<p>Ao retornar da guerra, em 1918, entra na Faculdade de Direito de Viena, mas, antes do final do ano transfere-se para a Faculdade de Medicina. Seu interesse volta-se logo para a psican\u00e1lise, uma ci\u00eancia que estava florescendo e que, podemos supor, mostrava-lhe um caminho para compreender e talvez aplacar o gosto amargo da trag\u00e9dia em sua vida.<\/p>\n<p>Teve seu primeiro contato com a psican\u00e1lise no segundo ano de medicina, atrav\u00e9s de Otto Fenichel que, \u00e1 \u00e9poca, organizava um semin\u00e1rio para estudo da psican\u00e1lise. Reich participa ativamente e j\u00e1 no final deste ano dirige o semin\u00e1rio. Este \u00e9 um fato t\u00edpico de sua vida, quando se interessava por algo ia fundo e logo assumia posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a, tendo a capacidade de agregar muitas pessoas em torno de si mesmo e de uma causa.<\/p>\n<p> \u00c9 nesta \u00e9poca que come\u00e7a a desenvolver sua cren\u00e7a de que a sexualidade \u00e9 o centro da resolu\u00e7\u00e3o dos problemas pessoais e sociais do ser humano. Cren\u00e7a esta que, de uma forma ou de outra, perpassa sua obra e o acompanha por toda sua vida.<\/p>\n<p>Toda a d\u00e9cada de 20 e metade da d\u00e9cada de 30 Reich dedicou muito do seu g\u00eanio \u00e0 psican\u00e1lise e ao desenvolvimento de sua Teoria do Orgasmo e da An\u00e1lise do Car\u00e1ter. Durante quase 10 anos foi l\u00edder do semin\u00e1rio de t\u00e9cnica psicanal\u00edtica de Viena e, foi neste per\u00edodo que desenvolveu os conceitos de Potencia org\u00e1stica (1924); descobriu que a todo processo psicoter\u00e1pico subj\u00e1s uma transfer\u00eancia negativa e que isto \u00e9 uma forma muito intensa de resist\u00eancia; defendeu que esta transfer\u00eancia deve ser conscientizada e trabalhada com o cliente antes de se tratar  dos conte\u00fados inconscientes, mesmo que estes apare\u00e7am antes, sob o risco de perder-se o trabalho terap\u00eautico; introduziu a quest\u00e3o de que devemos olhar a forma do cliente se expressar e se relacionar com o terapeuta, n\u00e3o apenas escutar o que \u00e9 dito, pois a linguagem do corpo n\u00e3o mente enquanto que as palavras podem ser manipuladas em favor das defesas do ego. Foi este olhar para o corpo que o tornou precursor de todas as psicoterapias de abordagem corporal.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m, nesta \u00e9poca, que desenvolveu a an\u00e1lise do car\u00e1ter como um trabalho cuidadoso e sistem\u00e1tico sobre as resist\u00eancias, postulou que estas devem ser analisadas do mais superficial para os mais profundos n\u00edveis da personalidade; compreendeu que a atitude do cliente precisava ser dissecada, pois, para que houvesse mudan\u00e7a, n\u00e3o bastava que o cliente compreendesse o que se passava consigo, mas, principalmente, como atuava, pois esta forma de agir \u00e9 o que mantinha sua neurose. Trouxe uma atitude mais ativa por parte do analista, que at\u00e9 ent\u00e3o ficava \u201cesperando\u201d que o cliente associasse livremente. Os psicanalistas mais jovens gostavam das inova\u00e7\u00f5es, viam a\u00ed uma possibilidade de amplia\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica. Mas alguns dos mais antigos discordavam, criavam forte resist\u00eancia, e, ao que parece, Reich n\u00e3o foi muito tolerante com as discord\u00e2ncias, tanto neste momento como em muitos outros ao longo de sua vida.  Sempre teve um g\u00eanio dominador e, \u00e1s vezes, tornava-se explosivo quando confrontado ou questionado, em seu trabalho, por pessoas que ele n\u00e3o colocasse em posi\u00e7\u00e3o de autoridade, ou por quem n\u00e3o tivesse grande respeito como profissional. E n\u00e3o eram muitas as pessoas que ocupavam este lugar para ele.<\/p>\n<p>Acredito que sua escolha de trabalhar e investigar determinados aspectos da teoria psicanal\u00edtica, assim como sua rela\u00e7\u00e3o emocional, t\u00e3o intensamente transferencial, com Freud foi profundamente influenciada por sua hist\u00f3ria de vida. Ao que parece projetou neste a figura do pai e aspirava por ser seu filho predileto, coisa que nunca aconteceu. Sentiu-se magoado e rejeitado quando Freud n\u00e3o o aceitou como cliente. Freud era caloroso e o admirava por sua criatividade e dedica\u00e7\u00e3o, mas foi tornando-se frio e distante quando as novas descobertas de Reich foram se contrapondo aos caminhos que a psican\u00e1lise estava tomando (Sharaf). Creio que a intransig\u00eancia de Reich tamb\u00e9m contribuiu para o distanciamento de Freud.<\/p>\n<p>Enquanto trabalhava com intensidade, tamb\u00e9m com intensidade levava sua vida pessoal. Em Mar\u00e7o de 1922 Reich se casa com Annie Pink, uma estudante de medicina, que havia sido sua paciente e que, tamb\u00e9m, se tornaria psicanalista. Em 24 nasce Eva, primeira filha do casal e em 28 Lore, a segunda filha. A vida conjugal de Reich com Annie foi bastante conturbada. Em parte porque, apesar de estarem apaixonados, o casamento aconteceu em fun\u00e7\u00e3o da press\u00e3o do pai de Annie, e com isto Reich nunca se conformou; em parte tamb\u00e9m porque Reich tinha a expectativa de que a esposa se envolvesse com interesse e anu\u00eancia nas causas \u00e1s quais ele se dedicava, o que nem sempre acontecia. Segundo  Sharaf esta era uma expectativa que ele sempre tinha com rela\u00e7\u00e3o \u00e1s pessoas de seu conv\u00edvio: amigos, colaboradores, etc.; e muitas vezes sentia-se magoado ou at\u00e9 raivoso quando isto n\u00e3o acontecia.<\/p>\n<p>Abril de 26, outro duro golpe na vida de Reich: morre de tuberculose, seu \u00fanico irm\u00e3o, com apenas 26 anos de idade. No ano seguinte o pr\u00f3prio Reich fica internado durante seis meses num sanat\u00f3rio na Su\u00ed\u00e7a, tamb\u00e9m com tuberculose. Neste per\u00edodo torna-se um tanto paran\u00f3ico e tamb\u00e9m desenvolve a cren\u00e7a de que tem \u201cum destino her\u00f3ico e que contribuiria muito para o bem da humanidade\u201d. Ao mesmo tempo em que temia, como falou em alguns momentos, \u201cmorrer s\u00f3, como um c\u00e3o\u201d- palavras suas.<\/p>\n<p>Foi nesta \u00e9poca que aumentou seu interesse pelas quest\u00f5es sociais. At\u00e9 ent\u00e3o priorizava as quest\u00f5es internas como causa da neurose, a partir da\u00ed ficou mais consciente de como os fatores sociais interferiam no desenvolvimento e no tratamento dos dist\u00farbios emocionais. Este foi um dos temas que o separou do pensamento psicanal\u00edtico. Enquanto Freud acreditava que os conflitos sexuais tinham origem no conflito entre for\u00e7as intrapsiqu\u00edcas (instinto de vida e instinto de morte), para Reich o conflito se dava entre o desejo sexual e a repress\u00e3o social \u00e1 sexualidade. Acreditou que as mudan\u00e7as sociais junto ao trabalho na cl\u00ednica psicol\u00f3gica, resolveria o problema da neurose humana. Come\u00e7ou a trabalhar junto ao Partido Comunista que na \u00e9poca estava se expandindo e que parecia mostrar um caminho para a melhora de qualidade na vida das pessoas, pois, al\u00e9m de pregar igualdade s\u00f3cio-econ\u00f4mica, apontava para uma maior abertura nos valores de um modo geral e, em particular, nas quest\u00f5es que diziam respeito \u00e1 sexualidade. Reich defendeu id\u00e9ias, que s\u00f3 algumas d\u00e9cadas depois puderam se incorporadas \u00e1 vida das pessoas, tais como: igualdade de direitos  entre homens e mulheres, inclusive na divis\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas e no cuidado com os filhos; independ\u00eancia econ\u00f4mica e liberdade sexual para a mulher; liberdade sexual para os jovens, com orienta\u00e7\u00e3o sobre contracep\u00e7\u00e3o e cuidados com a higiene sexual; educa\u00e7\u00e3o sexual, clara e direta, para crian\u00e7as e, a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto.<\/p>\n<p> Se pensarmos que tudo isto se deu nas d\u00e9cadas de 20 e 30, que a revolu\u00e7\u00e3o sexual e dos costumes s\u00f3 se concretizou ap\u00f3s a segunda metade do s\u00e9culo passado, podemos imaginar o quanto este homem estava \u00e1 frente de sua \u00e9poca. Foi um pioneiro, um vision\u00e1rio e por isto foi muitas vezes visto como pervertido, mal intencionado e, at\u00e9 mesmo, louco.<\/p>\n<p>Acreditou que poderia unir os conceitos Freudianos com a teoria Marxista, no entanto o mundo n\u00e3o estava preparado para id\u00e9ias t\u00e3o libert\u00e1rias e em 32 foi expulso do Partido Comunista de Berlim, por sua defesa das quest\u00f5es sexuais que, segundo o partido, iam de encontro ao pensamento Marxista.<\/p>\n<p>No inicio de 33 Hitler sobe ao poder, o nazismo come\u00e7a a ascender na Alemanha. Neste mesmo ano Reich escreveu Psicologia de Massas do Fascismo, no qual analisa a quest\u00e3o do nazismo e da submiss\u00e3o das massas. Em Mar\u00e7o, num jornal nazista, foi publicado um ataque a um artigo seu, sobre a sexualidade na juventude, e ele, temendo repres\u00e1lia por suas atividades, seus escritos e por ser judeu, deixa Berlim com a fam\u00edlia de volta a Viena, de onde havia sa\u00eddo em 1930 e onde permaneceria por mais alguns meses.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a\u00ed sua peregrina\u00e7\u00e3o pela Escandin\u00e1via, que s\u00f3 termina com sua mudan\u00e7a para os EUA, em meados de 39, no \u00faltimo navio a deixar a Noruega rumo aos EUA antes da irrup\u00e7\u00e3o da II Guerra Mundial. Mais uma vez fugindo da persegui\u00e7\u00e3o dos inimigos.<\/p>\n<p>Chamo de peregrina\u00e7\u00e3o a esta \u00e9poca porque ao longo destes seis anos mudou-se in\u00fameras vezes. Em Maio de 33 chegou a Copenhague, na Dinamarca onde muitas pessoas o procuraram para fazer terapia e para estudar com ele. Neste per\u00edodo tratou de uma mulher que, durante a terapia, tenta o suic\u00eddio e foi denunciado \u00e1s autoridades, pois o m\u00e9dico que a atendeu disse que a tentativa era resultado do tratamento com Reich, quando, na verdade a paciente j\u00e1 tinha um hist\u00f3rico de tentativas anteriores. Sofreu uma persegui\u00e7\u00e3o por parte da imprensa,  um jornal pediu sua expuls\u00e3o do pa\u00eds e seu visto n\u00e3o foi renovado. Em 1\u00ba de Dezembro seguiu para Malmo, na Su\u00e9cia onde ficou por mais seis meses quando seu visto expirou e, outra vez, n\u00e3o foi renovado porque havia, a\u00ed tamb\u00e9m, suspeitas relativas \u00e1s suas atividades. Os rumores diziam, quase sempre, respeito ao seu trabalho com as quest\u00f5es sexuais. Muitas vezes alunos, pacientes e supervisandos seus, eram interrogados pelas autoridades, que queriam saber o que eles faziam. Esta persegui\u00e7\u00e3o, neste e em muitos outros momentos de sua vida, foi o pre\u00e7o que Reich pagou por estar \u00e1 frente do seu tempo.  Retorna, ent\u00e3o, para a Dinamarca, desta vez ilegalmente com o nome falso de Peter Stein. Fica a\u00ed mais alguns meses e, no outono de 34, muda-se para a Noruega convidado por um proeminente professor de psicologia que lhe oferece a oportunidade de ter dispon\u00edvel um laborat\u00f3rio para suas pesquisas &#8211; estava iniciando suas pesquisas com os bions, como veremos adiante. Apesar de todas estas mudan\u00e7as nunca parou seu trabalho seja como pesquisador seja como psicoterapeuta. Muitas pessoas vinham de outros paises para ter sess\u00f5es com ele.<\/p>\n<p> Neste per\u00edodo, come\u00e7ou a pesquisar e desenvolver t\u00e9cnicas de trabalho com o corpo. Comprovou, atrav\u00e9s de experimentos com o potencial el\u00e9trico na superf\u00edcie da pele, sua teoria do orgasmo. Ampliou sua teoria do car\u00e1ter e observou o papel da respira\u00e7\u00e3o no organismo: quando o paciente liberava a emo\u00e7\u00e3o adequada, muitas vezes estimulado por toques &#8211; imaginem naquela \u00e9poca tocar no paciente! &#8211; a respira\u00e7\u00e3o flu\u00eda profunda e naturalmente, restabelecendo a pulsa\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e a sa\u00fade emocional. Foi deixando de lado a quest\u00e3o das mem\u00f3rias infantis e dando aten\u00e7\u00e3o ao jogo de for\u00e7as entre o fluir da energia e das emo\u00e7\u00f5es por um lado, e por outro, a rigidez muscular e o medo do prazer; dedicou-se ao estudo das correntes vegetativas no organismo e do sistema nervoso aut\u00f4nomo. Inovou de v\u00e1rias outras formas: atendia sentado frente a frente com o cliente; muitas vezes respondia a perguntas de sua vida pessoal, pois acreditava que era ben\u00e9fico para o cliente ver a humanidade do terapeuta; come\u00e7ou a atender os pacientes sem, ou com pouca roupa, o que era um esc\u00e2ndalo para os padr\u00f5es da \u00e9poca. Nomeou esta nova forma de terapia de Vegetoterapia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m neste per\u00edodo iniciou seu trabalho como cientista natural. Quando fez sua pesquisa sobre o potencial el\u00e9trico da pele, numa s\u00e9rie de experimentos observou que havia uma diferen\u00e7a no potencial el\u00e9trico da pele das zonas er\u00f3genas para a pele do resto do corpo. Nas primeiras o potencial era menos est\u00e1vel, ou seja, variava mais e, tamb\u00e9m, apresentava um aumento da carga que crescia proporcionalmente na medida em que aumentava a sensa\u00e7\u00e3o de prazer e decrescia na medida em que este diminu\u00eda, ficando muito mais baixo na situa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia &#8211; estava estabelecida a ant\u00edtese entre sexualidade e ang\u00fastia; percebeu, tamb\u00e9m, que o potencial diminu\u00eda com a inspira\u00e7\u00e3o e aumentava com a expira\u00e7\u00e3o. Com isto pode comprovar pelos meios cient\u00edficos da \u00e9poca, quest\u00f5es que j\u00e1 observava na sua pr\u00e1tica clinica. Mas, com sua t\u00e3o caracter\u00edstica sede de conhecimento n\u00e3o parou por a\u00ed, queria saber mais sobre o ser humano e sobre os movimentos plasm\u00e1ticos do organismo. Iniciou, ent\u00e3o, uma s\u00e9rie de pesquisas com protozo\u00e1rios, e o desenvolvimento desta pesquisa levou-o a encontrar em mat\u00e9ria inorg\u00e2nica, part\u00edculas com caracter\u00edsticas org\u00e2nicas, que ele chamou de bions. Acreditou ter encontrado algo que estava na transi\u00e7\u00e3o entre o inorg\u00e2nico e o org\u00e2nico. Prosseguindo sua pesquisa com os bions percebeu que havia dois tipos que funcionavam de forma antag\u00f4nica, um em rela\u00e7\u00e3o ao outro; a um destes tipos chamou de bions Pa e ao outro de bacilos-t. Estes \u00faltimos provocavam c\u00e2ncer em ratos com eles inoculados, enquanto os bions Pa pareciam dificultar, e at\u00e9 mesmo impedir, o desenvolvimento dos tumores. Um engano, de uma de suas assistentes, levou ao desenvolvimento de uma nova cultura, que Reich chamou de bions sapa. Estes eram semelhantes aos bions Pa s\u00f3 que possu\u00eda forte irradia\u00e7\u00e3o, emitia uma luz azulada, causava vermelhid\u00e3o e comich\u00e3o na pele e mostrou, tamb\u00e9m, ter efeitos curativos. E como Reich descobriu isto? Aplicando esta irradia\u00e7\u00e3o sobre uma verruga em seu rosto, que sabia conter bacilos-t. A verruga desapareceu! Estava dado o pontap\u00e9 inicial para sua futura pesquisa na \u00e1rea do c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Aqui, como em muitos outros momentos, havia muita cr\u00edtica, a sempre presente descren\u00e7a e, tamb\u00e9m, a sempre presente campanha dos jornais contra seu trabalho. Mas muitos de seus experimentos foram comprovados por cientistas de renome, como tamb\u00e9m foram recha\u00e7ados por outros, como sem valor, sendo que, estes \u00faltimos n\u00e3o repetiram os experimentos dentro dos crit\u00e9rios estabelecidos por Reich em suas pesquisas. Ao que parece suas descobertas foram pesquisadas \u00e1 exaust\u00e3o e um novo passo s\u00f3 era dado quando o anterior j\u00e1 havia sido bastante explorado.<\/p>\n<p> Parece-me ser uma caracter\u00edstica de Reich o fato de que quanto mais discordavam dele, quanto mais o perseguiam e o provocavam mais ele se sentia estimulado a produzir, mais seu interesse se agu\u00e7ava, mais sua criatividade flu\u00eda; outra caracter\u00edstica sua \u00e9 que sempre estava numa posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a, sempre cercado por muitos seguidores que o admiravam, que se dedicavam \u00e1 ele e ao seu trabalho. Ao mesmo tempo, sempre havia pessoas que o detestavam e o perseguiam fazendo tudo para diminuir suas descobertas, quando n\u00e3o, destruir seu trabalho. Isto se repetiu muitas vezes em sua vida e para mim \u00e9 um reflexo de sua hist\u00f3ria. Se por um lado foi o filho predileto, amado e cercado de mimos e aten\u00e7\u00f5es, por outro lado teve que enfrentar a dor, o desamparo e a solid\u00e3o da perda prematura de sua m\u00e3e. Por tudo isto precisou \u201cficar adulto\u201d rapidamente e desenvolveu fortes mecanismos de defesa para n\u00e3o sucumbir, n\u00e3o se deixar destruir pela culpa e ang\u00fastia resultantes de sua trag\u00e9dia infantil. Aquilo que poderia t\u00ea-lo destru\u00eddo, ao contr\u00e1rio, parece que gerou nele uma for\u00e7a vital e uma determina\u00e7\u00e3o \u00e1 qual ele precisaria recorrer em muitos momentos de sua vida.  <\/p>\n<p>Voltemos, outra vez, para sua vida pessoal. O per\u00edodo entre 34 e 37 foi um dos mais felizes de sua vida afetiva. Reich separou-se de Annie quando retornaram para Viena e, quando foi para a Escandin\u00e1via, teve uma rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel com Elsa Lindenberg, uma bailarina alem\u00e3 que havia conhecido em seus \u00faltimos meses em Berlim e com a qual iniciara um romance. Ao que parece a rela\u00e7\u00e3o com Elsa foi o estopim para a separa\u00e7\u00e3o de um casamento j\u00e1 h\u00e1 muito deteriorado. Elsa era uma mulher de seus 25 anos, atraente, inteligente e ativista do partido Comunista de Berlin, no qual ela e Reich se conheceram. Alem de terem em comum a atividade pol\u00edtica ela admirava muito seu trabalho, apoiava-o e participava escutando-o e dando opini\u00f5es, o que para ele era muito importante &#8211; ela, no entanto, nunca deixou de se dedicar \u00e1 sua pr\u00f3pria atividade profissional. Foi Elsa quem lhe deu apoio quando, em 34, Reich, chegando ao Congresso Psicanal\u00edtico de Lucerna, na Su\u00ed\u00e7a, no qual faria uma apresenta\u00e7\u00e3o como membro da Sociedade Psicanal\u00edtica de Berlin, foi informado de que havia sido expulso desta Sociedade. Como era t\u00edpico de seu car\u00e1ter, n\u00e3o se rendeu a isto e, embora tenha se sentido insultado e ficado revoltado, insistiu na apresenta\u00e7\u00e3o de seu trabalho, mesmo que fosse como convidado. E assim foi!<\/p>\n<p>Reich e Elsa tinham muitos amigos, e mantinham uma vida social bastante ativa. Um \u00fanico aspecto o angustiava: a distancia de suas filhas, que ficaram morando em Viena e com as quais tinha pouco contato. Quando, mais para o final da d\u00e9cada, as campanhas contra si foram aumentando, a press\u00e3o foi ficando muito grande e seu equil\u00edbrio interno foi abalado, come\u00e7ou a ficar controlador, ciumento e autorit\u00e1rio com Elsa. A rela\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, foi se deteriorando e rompeu-se ap\u00f3s uma irracional e violenta cena de ci\u00fames protagonizada por Reich. Por\u00e9m a separa\u00e7\u00e3o definitiva s\u00f3 se deu quando ele, alguns meses depois foi para os EUA. Mas, ao que tudo indica este foi o grande amor de sua vida e, parece, foi correspondido com a mesma intensidade, com um amor genu\u00edno e profundo. Segundo Sharaf, nenhuma das mulheres que entrevistou, falou de Reich com a ternura, a paix\u00e3o e a qualidade de amor expressos por Elsa. Quando chegou aos EUA Reich enviou-lhe uma carta na qual a convidava a juntar-se a ele, porem, ela escolheu permanecer na Europa.<\/p>\n<p>Ao que parece Reich n\u00e3o tinha aptid\u00e3o para viver sem uma companhia feminina e, n\u00e3o tardou a ter uma outra companheira quando chegou \u00e0 Am\u00e9rica. Em Outubro conhece Ilse Ollendorff e dois meses depois v\u00e3o morar juntos. E o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o afetiva e de companheirismo profissional que dura at\u00e9 1953, quando o casal se separa \u2013 em 55 Reich tem uma outra companheira chamada Aurora Karrer, com a qual fica junto at\u00e9 sua morte. Diferente de suas duas mulheres anteriores, Ilse tinha como centro de sua vida profissional o trabalho de Reich. Ajudava-o em suas pesquisas, e tamb\u00e9m era respons\u00e1vel pelas quest\u00f5es administrativas e financeiras. Um dos acontecimentos mais felizes da vida de Reich, neste per\u00edodo, foi o nascimento de seu filho Peter, em Abril de 44 e \u00e9 com grande alegria que acompanha seu desenvolvimento. Tamb\u00e9m volta a ver suas filhas, que haviam emigrado para a Am\u00e9rica, em 38. Principalmente Eva, com quem sempre teve uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Sua vida pessoal nos EUA foi muito diferente de seu per\u00edodo feliz na Escandin\u00e1via. Sentia-se incompreendido, suas explos\u00f5es eram mais freq\u00fcentes, tornou-se menos soci\u00e1vel, vivia mais isolado e dedicava-se com afinco e exclusivamente ao trabalho. Parece que as adversidades que tivera que enfrentar come\u00e7ava a cobrar seu pre\u00e7o, mas o pior ainda estava por vir.<\/p>\n<p>Reich mudou-se para os EUA ajudado por Theodore Wolfe, um psiquiatra su\u00ed\u00e7o, que morava nos EUA e que foi para a Noruega estudar e fazer terapia com ele; Wolfe seguiu sendo seu colaborador at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 50 quando os dois se desentenderam. N\u00e3o foi o primeiro nem o \u00fanico a se deslocar de t\u00e3o grande distancia para se tratar e aprender com Reich e, como muitos outros, antes e depois dele, afirmava que sua vida recome\u00e7ou a partir da terapia com Reich (Sharaf).<\/p>\n<p>Quando Reich chegou aos EUA a psicoterapia n\u00e3o era o lado profissional que mais o interessava. Embora fosse muito procurado e continuasse atendendo pacientes, seu interesse se concentrava mais na pesquisa com os bions sapa. Atrav\u00e9s das repetidas experi\u00eancias ficou evidente que a radia\u00e7\u00e3o provocava uma diminui\u00e7\u00e3o e, em alguns casos, o completo desaparecimento dos tumores nos ratos. Ficou evidente, tamb\u00e9m, que o tratamento com a radia\u00e7\u00e3o tinha um efeito mais efetivo do que o tratamento feito com inje\u00e7\u00f5es de bions sapa.<\/p>\n<p>Chegando a esta conclus\u00e3o, Reich tratou de desenvolver um aparato muito simples, uma caixa feita com metal, l\u00e3 de vidro e madeira, ao qual chamou de acumulador de orgonio. Colocava os ratos com tumor dentro da caixa, por alguns minutos, todos os dias e observou que os tumores, em sua maioria, iam desaparecendo.  Orgonio, \u00e9 um neologismo que Reich criou para dar nome a esta energia, que mais tarde ele veio a compreender ser a energia presente no organismo, na atmosfera, em todos os seres org\u00e2nicos e inorg\u00e2nicos, ou seja, \u00e9 a energia c\u00f3smica primordial, presente em tudo que existe. Reich, diante de sua evidencia, queria comprov\u00e1-la cientificamente e n\u00e3o podemos dizer que obteve completo sucesso no que diz respeito a este prop\u00f3sito, mas, produziu efeitos test\u00e1veis, como a dissolu\u00e7\u00e3o de tumores cancer\u00edgenos. Citando Sharaf: \u201cfoi preciso muita autoconfian\u00e7a e coragem para acreditar que poderia tratar uma doen\u00e7a terr\u00edvel como o c\u00e2ncer, com um aparato t\u00e3o simples.\u201d Mas curas aconteceram, em ratos e em pessoas, isto \u00e9 ineg\u00e1vel! Para mim fica uma pergunta: porque isto n\u00e3o foi levado a s\u00e9rio?<\/p>\n<p>Para Reich o c\u00e2ncer era uma biopatia, ou seja, uma doen\u00e7a resultante de um dist\u00farbio cr\u00f4nico da pulsa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Ocorria quando havia uma forte retra\u00e7\u00e3o interna, intenso encolhimento, resigna\u00e7\u00e3o. O acumulador de orgonio era uma terapia expansiva. A carga de orgonio nos tecidos promovia a regenera\u00e7\u00e3o natural, ativando as defesas auto-imunol\u00f3gicas. Percebeu que o acumulador funcionava melhor em quem tinha mais movimento energ\u00e9tico no organismo, da\u00ed compreendeu que havia uma intera\u00e7\u00e3o entre os dois campos de energia: o do organismo e o do acumulador. Come\u00e7ou a usar o acumulador com pessoas em Maio de 41, e utilizou-o com sucesso tamb\u00e9m em outras enfermidades como doen\u00e7as card\u00edacas, do sangue e da pele, s\u00f3 para citar algumas.<\/p>\n<p> Houve muita controv\u00e9rsia quanto ao uso e \u00e1 efic\u00e1cia dos acumuladores. Reich foi acusado de charlatanismo, pois alguns pesquisadores n\u00e3o encontravam o mesmo resultado que ele. Outra vez, como na Escandin\u00e1via, Reich afirmava que estes pesquisadores n\u00e3o seguiam os procedimentos corretamente. Quem estava com a raz\u00e3o? O fato \u00e9 que em 1947, a partir de dois artigos publicados na imprensa, onde o trabalho de Reich era apresentado de forma deturpada, iniciou-se uma campanha contra ele. Sofreu v\u00e1rios ataques em jornais e, inclusive, da Associa\u00e7\u00e3o Psiqui\u00e1trica Americana e da Associa\u00e7\u00e3o de M\u00e9dicos Norte Americana. Foi chamado de esquizofr\u00eanico e acusado de \u201cestar impedindo que pacientes com c\u00e2ncer recebessem tratamento apropriado colocando-os numa caixa cujo prop\u00f3sito era ativar a masturba\u00e7\u00e3o\u201d. Este tipo de coment\u00e1rio, no m\u00ednimo leviano, nos d\u00e1 uma id\u00e9ia daquilo que Reich teve de enfrentar e do tipo de pessoas que estavam por tr\u00e1s destas acusa\u00e7\u00f5es. Mas esta hist\u00f3ria vai ficar para depois porque gostaria de continuar falando dos desenvolvimentos posteriores de sua pesquisa.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 50 seu interesse voltou-se para o estudo dos efeitos do orgonio sobre a radioatividade. Com a explos\u00e3o da bomba at\u00f4mica, em Agosto de 45, e suas conseq\u00fc\u00eancias nefastas Reich come\u00e7ou a pensar que o orgonio, com seu potencial curador poderia funcionar como um ant\u00eddoto ou, ao menos, melhorar os dist\u00farbios associados aos efeitos da radia\u00e7\u00e3o.  A este projeto chamou de ORANUR \u2013 uma abrevia\u00e7\u00e3o de energia orgone versus energia nuclear, no ingl\u00eas. Atrav\u00e9s do Centro de Energia At\u00f4mica, conseguiu pequena por\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio para iniciar sua nova pesquisa. A id\u00e9ia era, como fizera em sua pesquisa com o c\u00e2ncer, tratar ratos contaminados pelo material radioativo com o acumulador de orgonio. Porem, antes destes procedimentos colocou material radioativo no acumulador e o contato deste com o orgonio potencializou a radioatividade de tal maneira que seus efeitos foram devastadores. Apesar de todas as precau\u00e7\u00f5es tomadas, para a prote\u00e7\u00e3o das pessoas, quem trabalhava no projeto sofreu fortes rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e emocionais. Apresentaram n\u00e1useas, dores de cabe\u00e7a, perda de equil\u00edbrio, inflama\u00e7\u00e3o da pele e, alguns, tiveram o recrudescimento de alguma doen\u00e7a anterior. Emocionalmente, o principal efeito foi o de intensificar as caracter\u00edsticas negativas da personalidade das pessoas. O pr\u00f3prio Reich, a partir da\u00ed, tornou-se muito mais explosivo, tir\u00e2nico e paran\u00f3ico. Come\u00e7ou a apresentar id\u00e9ias de persegui\u00e7\u00e3o: inicialmente achou que havia uma conspira\u00e7\u00e3o dos comunistas contra ele e que os bolcheviques queriam destruir seu trabalho; depois que a conspira\u00e7\u00e3o era interplanet\u00e1ria e n\u00e3o s\u00f3 contra ele, mas que seres de outro planeta queriam destruir o mundo. Se por um lado tinha estas id\u00e9ias delirantes, por outro, mantinha uma lucidez fant\u00e1stica no que dizia respeito ao seu trabalho, suas pesquisas e seus escritos. Tanto que, j\u00e1 sob os efeitos de ORANUR, no final da d\u00e9cada de 40, criou um centro &#8211; Orgonomic Infant Research  Center (OIRC), com o objetivo de pesquisar e treinar pessoas para trabalhar com gestantes e crian\u00e7as na perspectiva da orgonomia. Com  m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, enfermeiros, educadores e assistentes sociais, forma uma equipe para acompanhar a gesta\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da crian\u00e7a at\u00e9 a adolesc\u00eancia. Acreditava que proporcionando os cuidados para uma gesta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e um nascimento natural; fazendo grupos de acompanhamento com as m\u00e3es para orienta\u00e7\u00e3o sobre os cuidados f\u00edsicos e emocionais com as crian\u00e7as, poderia prevenir o desenvolvimento da coura\u00e7a muscular e possibilitar o livre fluir da energia. Sua inten\u00e7\u00e3o, como em Berlin no in\u00edcio da d\u00e9cada de 30, era fazer um trabalho preventivo e profil\u00e1tico da neurose. Tamb\u00e9m ensinava que as crian\u00e7as deveriam se educadas com liberdade, responsabilidade social e sem repress\u00f5es sexuais. Este trabalho teve influencia no movimento progressista da educa\u00e7\u00e3o, no s\u00e9culo passado. Tamb\u00e9m neste per\u00edodo escreveu sobre a praga emocional e fez pesquisas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; desenvolveu um aparato, ao qual deu o nome de cloud-busting, e com o qual poderia fazer altera\u00e7\u00f5es no clima, chegando a provocar chuvas em uma regi\u00e3o onde n\u00e3o havia previs\u00e3o para tal.<\/p>\n<p>Era impressionante a capacidade que Reich tinha de abrir novas frentes de pesquisa, de realizar tantas produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas ao mesmo tempo em que enfrentava, bem ou mal \u2013 e muitas vezes mal, como veremos adiante &#8211; os ataques ao seu trabalho e todos os conflitos advindos destes ataques. Porem num determinado momento sua paran\u00f3ia se intensificou e sua lucidez se rompeu. Se isto foi resultado dos efeitos de ORANUR ou da persegui\u00e7\u00e3o real que sofreu, ou das duas, nunca saberemos. Uma vez, em 1945, Reich disse: \u201co primeiro enfrentamento com a irracionalidade humana, foi um choque gigantesco.  E  incompreens\u00edvel que eu tenha sobrevivido a ele, sem ficar mentalmente doente\u201d(Sharaf). Creio que se referia a sua trag\u00e9dia infantil, como creio, tamb\u00e9m, que os instrumentos que encontrou para sobreviver a ela utilizou-os em todos os outros enfrentamentos pelos quais passou ao longo de sua vida. Mas todo ser humano tem seu ponto de fiss\u00e3o, onde sua integridade ps\u00edquica n\u00e3o mais pode ser mantida. O de Reich foi a campanha da F.D.A. .- Food and Drugs Administration, institui\u00e7\u00e3o do governo americano respons\u00e1vel pelo controle de alimentos, drogas e cosm\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Em 47 a F.D.A, a partir dos artigos acima citados, come\u00e7ou uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o trabalho de Reich, que durou seis anos e que, por um per\u00edodo, foi sigilosa. Iniciou j\u00e1 repleta de id\u00e9ias pr\u00e9-concebidas, tais como: \u201caquilo \u00e9 um neg\u00f3cio escuso com sexo estranhamente ligado a uma caixa\u201d. Ou ainda: \u201c\u00e9 alguma coisa pornogr\u00e1fica\u201d. Aqui, de novo, temos a dimens\u00e3o do quanto o pensamento de Reich era avan\u00e7ado para a \u00e9poca.<\/p>\n<p> Esta distor\u00e7\u00e3o, associada \u00e0 id\u00e9ia de que ele estava sendo charlat\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e1 cura do c\u00e2ncer \u2013 por usar o acumulador de orgonio &#8211; resultou numa intima\u00e7\u00e3o contra ele e a Funda\u00e7\u00e3o Wilhelm Reich, em 1954. A acusa\u00e7\u00e3o era de viola\u00e7\u00e3o da lei por fazer uso de um tratamento n\u00e3o comprovado cientificamente e n\u00e3o autorizado pela F.D.A. Reich n\u00e3o compareceu a audi\u00eancia para a qual foi intimado. Compreendeu que seria suficiente enviar uma carta ao juiz, explicando seus procedimentos, a veracidade e os benef\u00edcios de seu trabalho. O juiz considerou que sua aus\u00eancia ao tribunal  estava fora dos tramites legais e o julgamento correu \u00e1 revelia. Seu resultando foi: proibi\u00e7\u00e3o da venda e aluguel dos acumuladores de orgonio; recolhimento dos que estavam em uso; recolhimento dos 10 livros publicados por Reich, embora s\u00f3 um tratasse do acumulador; destrui\u00e7\u00e3o de um panfleto sobre o acumulador e de 35 edi\u00e7\u00f5es de revistas editadas pelo Instituto Orgone, nas quais havia cerca de 150 artigos de diversos autores e sobre diversos temas. Como pudemos observar por algumas passagens de sua vida, Reich n\u00e3o se curvava facilmente diante daquilo que ele considerava injusti\u00e7a, e esta senten\u00e7a n\u00e3o foi justa. O fato \u00e9 que ele n\u00e3o acatou a proibi\u00e7\u00e3o na \u00edntegra e em Mar\u00e7o de 56 \u00e9 outra vez intimado sob a acusa\u00e7\u00e3o de haver violado o mandado anterior.<\/p>\n<p>O julgamento foi marcado para Abril de 56 e Reich, mais uma vez, n\u00e3o compareceu. No dia seguinte foi preso; dois dias depois foi libertado sob fian\u00e7a, no mesmo dia em que come\u00e7ou o segundo julgamento. Ele escolheu ser seu pr\u00f3prio advogado e baseou sua defesa na inconstitucionalidade do mandado, quando a quest\u00e3o posta em julgamento era, seu cumprimento, ou n\u00e3o. E, claro que, no estado emocional em que se encontrava, n\u00e3o podia fazer uma defesa muito coerente. Ao final ele foi condenado a dois anos de pris\u00e3o e a Funda\u00e7\u00e3o a pagar uma multa de U$ 10.000. Reich apelou da senten\u00e7a at\u00e9 a suprema corte, mas perdeu em todas as instancias e finalmente em 12.03.57 \u00e9 levado para uma pris\u00e3o federal. Doze dias depois faria 60 anos, quarenta dos quais dedicados \u00e1 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Na pris\u00e3o foi examinado por um jovem psiquiatra que, ironia do destino, havia estudado sua obra dos anos 20 e era seu admirador. Recebeu o diagn\u00f3stico de paran\u00f3ia com ilus\u00e3o de grandeza. Por esta raz\u00e3o, foi transferido para uma outra penitenciaria onde poderia receber melhor tratamento psiqui\u00e1trico. Nesta, os m\u00e9dicos que o examinaram conclu\u00edram que seu estado psic\u00f3tico se devia a uma situa\u00e7\u00e3o de intensa press\u00e3o emocional.<\/p>\n<p> Receberia liberdade condicional em 11 de Novembro, ap\u00f3s o cumprimento de um ter\u00e7o de sua pena. Tinha o desejo e a esperan\u00e7a de continuar seu trabalho de pesquisa, como confidenciou a seu filho Peter, em uma de suas visitas. Mas a morte chegou antes, no dia 03.11.57, \u00e1s 7hs da manh\u00e3, foi encontrado morto por um guarda penitenci\u00e1rio.<\/p>\n<p> Morreu dormindo, de ataque card\u00edaco. S\u00f3, mas n\u00e3o como um c\u00e3o, pois teve a dignidade de lutar pelo que acreditava e n\u00e3o teve medo de levar esta luta \u00e1s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias, deixando para a humanidade um legado como poucos antes dele, haviam deixado.<\/p>\n<p>T\u00e2nia Alda Buarque da Silva<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>BOADELLA, David. Nos Caminhos de Reich. S\u00e3o Paulo, Summus, 1985.<br \/>MANN, W. Edward. Orgonio, Reich e Eros: a teoria da energia vital de Wilhelm Reich. S\u00e3o Paulo, Summus, 1989.<br \/>REICH, Ilse Ollendorff. Wilhelm Reich, A Personal Biography by Ilse Ollendorff Reich. New York, St. Martin\u2019s Press, 1969.<br \/>REICH, Wilhelm. Passion de Juventud. Una Autobiografia, 1827-1922. Barcelona, Paid\u00f3s, 1990.<br \/>REICH, Wilhelm. A Fun\u00e7\u00e3o do Orgasmo. S\u00e3o Paulo, Editora Brasiliense S.A., 1986.<br \/>REICH, Wilhelm. A An\u00e1lise do Car\u00e1ter. Lisboa, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 1979.<br \/>SHARAF, Myron R. Fury on earth: a biography of Wilhelm Reich.  New York, Da Capo Press, 1994.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>WILHELM REICH60 ANOS DE GENIALIDADE T\u00c2NIA ALDA BUARQUE DA SILVASociedade de An\u00e1lise Bioenerg\u00e9tica da Bahia \u2013 SABBA &#8211; Trainer LocalEste trabalho foi realizado por ocasi\u00e3o do<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-148","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-congresso-2008"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=148"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}