{"id":118,"date":"2011-01-11T02:34:00","date_gmt":"2011-01-11T02:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.analisebioenergetica.com\/site\/?p=118"},"modified":"2011-01-11T02:34:00","modified_gmt":"2011-01-11T02:34:00","slug":"alegria-e-corporalidade-afro-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/alegria-e-corporalidade-afro-brasileira\/","title":{"rendered":"ALEGRIA E CORPORALIDADE AFRO-BRASILEIRA"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>    4 &#8211; T\u00edtulo do Trabalho:<br \/>    ALEGRIA E CORPORALIDADE AFRO-BRASILEIRA<\/p>\n<p>MUNIZ SODRE Ph.D.,<br \/>Professor e Presidente dos Cursos de Gradua\u00e7\u00e3o de Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro apresentar\u00e1 o tema \u00abAlegria e Cultura : A Experi\u00eancia Brasileira\u00bb Ele ir\u00e1 aprofundar a afirmativa de Alexander Lowen \u00aba alegria est\u00e1 ligada ao reino das sensa\u00e7\u00f5es positivas do corpo\u00bb a fim de discutir o conceito de alegria por si s\u00f3 e as maneiras como usualmente isto se evidencia na cultura Brasileira. Ele ir\u00e1 considerar os efeitos que parecem ser inerentes a natureza paradoxal da alegria (a ess\u00eancia l\u00f3gica e irracional, a crueldade, condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias de vida) e mostrar\u00e1 como a alegria se afirma em uma cultura popular e em pr\u00e1ticas lit\u00fargicas negras, como resultado de uma cultura que \u00e9 preponderantemente som\u00e1tica e menos psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p>    \u201cEsta m\u00fasica \u00e9 alegre, mas n\u00e3o com uma alegria francesa ou alem\u00e3. Sua alegria \u00e9 africana. O destino cego pesa sobre ela, sua felicidade \u00e9 breve, repentina, sem piedade\u201d. Nesta instigante observa\u00e7\u00e3o de Nietzsche sobre o sentimento diferente evocado pela Carmem, de Bizet, aparece igualmente uma distin\u00e7\u00e3o radical entre dois tipos de regime afetivo identificados como \u201calegria\u201d. A africana \u00e9 propriamente tr\u00e1gica, no sentido nietzscheano deste termo, que \u00e9 o de \u201cdizer sim \u00e0 vida mesmo nos seus problemas mais estranhos e \u00e1rduos; a vontade de vida regozijando-se de sua inesgotabilidade no sacrif\u00edcio em que lhe s\u00e3o imolados os seus mais elevados representantes \u2013\u2013 a isso que eu chamo dionis\u00edaco, isso foi o que eu intu\u00ed como ponte que leva \u00e0 psicologia do poeta tr\u00e1gico\u201d.<br \/>    O sacrif\u00edcio de que fala Nietzsche \u00e9 a entrega radical do indiv\u00edduo \u00e0 comunidade, a recusa da autopreserva\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou moral diante dos interesses maiores do grupo. Tr\u00e1gica n\u00e3o \u00e9 a purga\u00e7\u00e3o do temor e da compaix\u00e3o, tal como interpretava Arist\u00f3teles as obras dos grandes poetas gregos, mas a experi\u00eancia po\u00e9tica do sacrif\u00edcio que leva o indiv\u00edduo a ser ele mesmo, num prazer de transforma\u00e7\u00e3o que inclui o pr\u00f3prio aniquilamento. Uma alegria tr\u00e1gica n\u00e3o exclui o destino e d\u00e1-se, para al\u00e9m da consci\u00eancia, num transbordamento de for\u00e7as, sem depend\u00eancias de passado nem futuro, no aqui e agora de uma situa\u00e7\u00e3o existencialmente excessiva.<br \/>    A id\u00e9ia de um transbordamento ou ultrapasse da consci\u00eancia pelo destino ou por qualquer outra for\u00e7a maior faz-se presente na concep\u00e7\u00e3o de alegria, um dos movimentos mais vivos da sensibilidade, para o qual existem em latim termos diferenciados: gaudium, laetitia, alacer. O g\u00e1udio refere-se a uma extravas\u00e3o imediata, mais profana, atinente a um gozo ou um regozijo incitado por um m\u00f3vel prontamente discern\u00edvel. J\u00e1 laetitia (do latim castrense, termo preferido por Espinosa) implica \u201cgra\u00e7a\u201d, isto \u00e9, o investimento da consci\u00eancia pelo dom divino.<br \/>    Gra\u00e7a, que significa sauda\u00e7\u00e3o, traduzia na Antiguidade o espanto e a celebra\u00e7\u00e3o da vida, raz\u00e3o pela qual estavam colocadas as tr\u00eas Gra\u00e7as na entrada da acr\u00f3pole de Atenas. Alacer, alacris (no latim vulgar, alicer, alecris) s\u00e3o adjetivos semanticamente referidos \u00e0 liberdade da asa (ala) no c\u00e9u e \u00e0 perman\u00eancia da terra (acer deriva de ager, campo). Alegria \u00e9 o regime afetivo que propicia ao indiv\u00edduo, ainda que preso \u00e0 gravidade ou \u00e0 const\u00e2ncia da terra (ou seja, as conven\u00e7\u00f5es e suas exig\u00eancias), a experi\u00eancia do movimento no c\u00e9u, que \u00e9 na pr\u00e1tica um \u201cdesligamento\u201d ou um \u201cdesapego\u201d.<br \/>    Esse desligamento est\u00e1 filologicamente assinalado nas palavras alacer, alacris, que relacionam a terra ao c\u00e9u. Movendo-se, as nuvens tornam o firmamento claro (hilarus, em latim) que tamb\u00e9m se pode se traduzir como \u201cjovem\u201d. A hilaridade (que terminaria sancionando o riso) e a jovialidade (palavra derivada do deus J\u00fapiter) caracterizam, por exemplo, aquele instante em que o indiv\u00edduo, abrindo-se sensivelmente ao mundo \u2013\u2013 o sol que nasce, a \u00e1gua corrente, o ritmo das coisas, um encantamento \u2013\u2013, abole o fluxo do tempo cronol\u00f3gico e, com o corpo livre de qualquer gravidade, experimenta uma sensa\u00e7\u00e3o intensa de presente, capaz de envolver os sentidos e libertar a consci\u00eancia de seus entraves imediatos.<br \/>    Seja calma ou exuberante, a alegria \u00e9 ao mesmo tempo um \u201cespanto de ser\u201d (Bergson) e uma san\u00e7\u00e3o l\u00facida da vida tal e qual se manifesta, aqui e agora. N\u00e3o uma san\u00e7\u00e3o intelectual (n\u00e3o existe um \u201cideal\u201d da alegria, assim como pode haver o da felicidade) ou apenas espiritual, mas corporal e concretamente ligada ao prazer constitutivo de viver. A alegria n\u00e3o \u00e9 retrospectiva, mas presente. Um prazer ou bem-estar circunstancial, sim, pode reportar-se ao passado e manifestar-se numa imagem de futuro.<br \/>    N\u00e3o a alegria, enquanto g\u00e1udio profundo: esta maneira de extravas\u00e3o afetiva, provocada pela concord\u00e2ncia de todos os sentidos \u2013\u2013 reconhec\u00edvel pelos sentimentos de j\u00fabilo, regozijo, gozo \u2013\u2013 surge de uma temporalidade pr\u00f3pria, diferente da cronol\u00f3gica, como na celebra\u00e7\u00e3o festiva, quando a alma ganha autonomia e for\u00e7a diante das agruras f\u00edsicas e mentais. O real n\u00e3o emerge a\u00ed da temporalidade abstratamente criada e controlada pelo valor que ordena o mundo do trabalho. Da singularidade das coisas, no aqui e agora do mundo, adv\u00e9m, \u00e1lacre, a sua presen\u00e7a.<br \/>    H\u00e1 algo de permanente ou eterno nessa apari\u00e7\u00e3o singularizada do presente, algo como o eterno retorno da vida, cuja aceita\u00e7\u00e3o consiste precisamente na alegria. Uma outra condi\u00e7\u00e3o para isto, como j\u00e1 vimos, \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o do mundo. Tudo redunda numa aprova\u00e7\u00e3o livre, incondicional ou irrestrita do real, diz Rosset \u2013\u2013 sem a justificativa de uma representa\u00e7\u00e3o, uma causa ou qualquer motivo abstrato que impressione a consci\u00eancia. N\u00e3o que o sentimento de regozijo n\u00e3o possa ser motivado por um objeto ou por uma circunst\u00e2ncia. Mas na alegria, como ele justamente observa, o efeito \u00e9 maior do que a causa, o regozijo n\u00e3o se esgota no objeto ou na circunst\u00e2ncia. Ela prescinde de qualquer racionaliza\u00e7\u00e3o, exige t\u00e3o s\u00f3 a capacidade de sentir, o que n\u00e3o exclui a capacidade de \u201cver\u201d o real tal e qual se apresenta, numa a\u00e7\u00e3o \u201cpositiva\u201d.<br \/>    As no\u00e7\u00f5es de \u201cver\u201d e de \u201ca\u00e7\u00e3o positiva\u201d concorrem para o esclarecimento do regime afetivo denominado \u201calegria\u201d. Para um terapeuta bioenergetista como Lowen, a alegria pertence justamente \u201cao reino das sensa\u00e7\u00f5es corporais positivas; n\u00e3o \u00e9 uma atitude mental. N\u00e3o se pode decidir ser alegre\u201d. O positivo deve aqui ser entendido, dentro da dualidade constitutiva das sensa\u00e7\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es humanas, como uma excita\u00e7\u00e3o oposta a uma outra, negativa, de medo ou de culpa. \u201cQuando a excita\u00e7\u00e3o prazerosa aumenta, a partir da linha de origem de uma sensa\u00e7\u00e3o boa, a pessoa conhece a alegria. Se a alegria transborda, torna-se \u00eaxtase\u201d, diz Lowen. O bioenergetista vai localizar a sensa\u00e7\u00e3o de alegria (assim como a da tristeza) na barriga: \u201cO envolvimento da barriga tanto na tristeza como na alegria est\u00e1 refletido em express\u00f5es como \u201cchorei de doer a barriga\u201d e \u201cri de doer a barriga\u201d.<br \/>    Apesar da diferen\u00e7a de vocabul\u00e1rio e de certas nuances de pensamento, o bioenergetista encontra-se nas imedia\u00e7\u00f5es do ensinamento da Advaita Vedanta de Sv\u00e2mi Prajnanpad quando assinala que a sensa\u00e7\u00e3o positiva \u00e9 o outro termo, opositivo, de uma sensa\u00e7\u00e3o negativa e quando ambos convergem para o ponto de mostrar que a experi\u00eancia da n\u00e3o-dualidade n\u00e3o pode ser compreendida intelectualmente, \u00e9 algo a ser vivido: saber equivale a ser. Na alegria, o \u201cver\u201d e \u201ca\u00e7\u00e3o positiva se entendem como caminhar para a n\u00e3o-dualidade. Implica, portanto, deixar de recusar a realidade tal e qual se mostra, mas tentar chegar \u00e0 consci\u00eancia da n\u00e3o-separa\u00e7\u00e3o.<br \/>    Corpo e ritual<br \/>    O que expusemos at\u00e9 aqui n\u00e3o est\u00e1 distante de certas configura\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que celebram a Arkh\u00e9, isto \u00e9, a ritualiza\u00e7\u00e3o da origem e do destino, dentro do pr\u00f3prio espa\u00e7o geogr\u00e1fico em que a sociedade moderna procura implementar a todo custo a lei estrutural de organiza\u00e7\u00e3o do mundo pelo valor econ\u00f4mico, que \u00e9 o capital. O simbolismo da liturgia e dos mitos permanece, em meio ao imp\u00e9rio do racionalismo empirista, como uma porta de acesso a imagens primais e a anseios de transcend\u00eancia.<br \/>    Claro exemplo desse tipo de configura\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u00e9 oferecido pelos cultos afro-brasileiros, que atestam e continuamente confirmam a presen\u00e7a na Hist\u00f3ria nacional de um complexo paradigma civilizat\u00f3rio, diferencialmente distante do paradigma europeu, centrado nos poderes da organiza\u00e7\u00e3o capitalista e da racionalidade s\u00edgnica. Na cosmovis\u00e3o desses cultos, de modo an\u00e1logo \u00e0 atitude hindu, colocam-se em primeiro plano o reconhecimento do aqui e agora da exist\u00eancia, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais concretas, a experi\u00eancia simb\u00f3lica do mundo, o poder afetivo das palavras e a\u00e7\u00f5es, a pot\u00eancia de realiza\u00e7\u00e3o das coisas e a alegria frente ao real.<br \/>    Inexiste, como bem se sabe, um homog\u00eaneo paradigma africano: h\u00e1 quem fale de quarenta e cinco e, mesmo, cinq\u00fcenta \u201c\u00c1fricas\u201d diferentes. Entretanto a diversidade das realidades s\u00f3cio-econ\u00f4micas e das tradi\u00e7\u00f5es culturais converge para pontos paradigm\u00e1ticos comuns, um dos quais \u00e9 a atitude m\u00edstica, chamada de \u201canimismo\u201d pelo racionalismo teol\u00f3gico do Ocidente, mas que de fato se trata da experi\u00eancia do sagrado em sua radicalidade.<br \/>    Decorre da\u00ed a grande import\u00e2ncia outorgada ao corpo. O fato de ser o corpo um lugar de inscri\u00e7\u00f5es da representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz dele objeto inerte de uma posse por palavras. N\u00f3s n\u00e3o \u201ctemos\u201d simplesmente um corpo, j\u00e1 que \u201csomos\u201d igualmente um corpo. Para al\u00e9m do corpo inerte e do corpo em movimento, h\u00e1 nas culturas tradicionais o \u201csi mesmo\u201d corporal, que consiste na sua pot\u00eancia afetiva de a\u00e7\u00e3o, na dimens\u00e3o t\u00e1cita, e n\u00e3o-s\u00edgnica, de seu funcionamento.<br \/>    Para al\u00e9m da carne, o corpo e suas representa\u00e7\u00f5es (portanto, a corporalidade) podem ser concebidos como um territ\u00f3rio onde se entrecruzam elementos f\u00edsicos e m\u00edticos e se erigem fronteiras e defesas. No interior da di\u00e1spora escrava (bantos, iorubas ou nag\u00f4s) nas Am\u00e9ricas, a presen\u00e7a do paradigma africano \u00e9 atestado pelo posicionamento do corpo no primeiro plano das cosmovis\u00f5es negras. A experi\u00eancia sacra \u00e9 mais corporal do que intelectual, mais som\u00e1tica do que propriamente ps\u00edquica, quando se entende psiquismo como um registro de interioridade n\u00e3o ritual\u00edstico.<br \/>    Na Arkh\u00e9, o corpo define-se ritualisticamente, resolvendo a dicotomia entre singular e plural, integrando-se ao simbolismo coletivo na forma de gestos, posturas, dire\u00e7\u00f5es do olhar, mas tamb\u00e9m de signos e inflex\u00f5es microcorporais, que apontam para outras formas perceptivas. O ritual \u00e9 o lugar pr\u00f3prio \u00e0 plena express\u00e3o e expans\u00e3o do corpo. Diferentemente da teologia crist\u00e3 ou da medita\u00e7\u00e3o oriental, ele n\u00e3o racionaliza os seus conte\u00fados, mas constitui, em \u00faltima an\u00e1lise, o modo de ser reflexivo da comunidade. O ritual \u00e9 uma forma som\u00e1tica de pensar.<br \/>    Na ordem da Arkh\u00e9, o desejo afirma-se primordialmente como pot\u00eancia (ao inv\u00e9s da falta) de desfrute, gozo e realiza\u00e7\u00e3o. A pot\u00eancia torna poss\u00edvel a atividade e a expans\u00e3o corporais. Esta \u00e9 a id\u00e9ia contida na palavra nag\u00f4 ax\u00e9, que d\u00e1 conta de for\u00e7a e a\u00e7\u00e3o, qualidade e estado do corpo e seus poderes de realiza\u00e7\u00e3o. Ax\u00e9 \u2013\u2013 no\u00e7\u00e3o animista ou fetichista na vis\u00e3o da antropologia ocidental, influenciada pela interpreta\u00e7\u00e3o reducionista dada por Malinowski ao mana dos melan\u00e9sios\u2013\u2013 \u00e9 na verdade um potencial de realiza\u00e7\u00e3o apoiado no corpo. Em outros termos, \u00e9 um princ\u00edpio bio-simb\u00f3lico de movimenta\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica dos seres (divindades, homens e ancestrais) atinente \u00e0 for\u00e7a contida em subst\u00e2ncias do reino mineral, vegetal e animal.<br \/>    A m\u00fasica \u00e9 parte necess\u00e1ria de toda essa din\u00e2mica. A pot\u00eancia do ax\u00e9 afina-se com a sua energia poliss\u00eamica, cujos elementos b\u00e1sicos (melodia, harmonia, ritmo, timbre, tessitura, etc.) produzem matizes e matrizes de som, contempl\u00e1veis pela imagina\u00e7\u00e3o e pass\u00edveis de absor\u00e7\u00e3o pelo corpo. As imagens sonoras s\u00e3o tanto auditivas quanto t\u00e1teis. Numa din\u00e2mica regida pelo ax\u00e9, como \u00e9 o caso da liturgia afro, a m\u00fasica orienta-se pelas modalidades da execu\u00e7\u00e3o r\u00edtmica, do canto e da dan\u00e7a, em que a tatilidade \u00e9 fundamental. Se o rito \u00e9 a express\u00e3o corporal e afetiva do mito, o ritmo \u00e9 um rito suscet\u00edvel de realimentar a pot\u00eancia existencial do grupo.<br \/>    Rh\u00fdtmos deriva, em grego, de rheim, que significa fluir, escorrer. Trata-se, como diz Benveniste, da \u201cforma no instante em que \u00e9 assumida pelo movente, m\u00f3bil, fluida, a forma do que n\u00e3o tem consist\u00eancia org\u00e2nica (&#8230;) \u00c9 a forma improvisada, moment\u00e2nea, modific\u00e1vel\u201d. Instaurando uma temporalidade diversa da cronol\u00f3gica, o ritmo cria um espa\u00e7o pr\u00f3prio e suscita um imagin\u00e1rio espec\u00edfico. Isto quer dizer que ritmo n\u00e3o \u00e9 apenas um artif\u00edcio t\u00e9cnico no contexto da musicalidade, mas uma configura\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que, conjugada \u00e0 dan\u00e7a, constitui ela pr\u00f3pria um contexto, uma esp\u00e9cie de \u201clugar\u201d, ou de cen\u00e1rio sinest\u00e9sico e sinerg\u00e9tico, onde ritualisticamente algo acontece.<br \/>    \u00c9 do espa\u00e7o lit\u00fargico que, na cosmovis\u00e3o afro, adv\u00eam os saberes da festa, isto \u00e9, os c\u00e2nticos, os toques percussivos, os gestos e os passos coreogr\u00e1ficos de base. Dessa organiza\u00e7\u00e3o r\u00edtmica e gestual origina-se uma matriz corporal, que se desterritorializa e viaja, acionada pela alegria. De fato, a comunh\u00e3o e o j\u00fabilo coletivos fazem parte da natureza profunda do culto \u00e0s divindades.<br \/>    Um c\u00e2ntico exemplar<br \/>    Nos cultos afro-brasileiros, os ritos de renova\u00e7\u00e3o do ax\u00e9 est\u00e3o estreitamente associados \u00e0 experi\u00eancia da alegria. Isto fica expl\u00edcito na pr\u00e1tica ritual, mas tamb\u00e9m em aforismos e c\u00e2nticos, a exemplo de alguns daqueles que celebram o poder feminino nas comunidades de culto (\u201cterreiros\u201d).<br \/>    Cultuadas e invocadas como ancestrais, as \u201cgrandes m\u00e3es\u201d (Iya) representam personalidades femininas de linhagens e comunidades liturgicamente importantes, raz\u00e3o por que s\u00e3o fortes transmissoras de valores comunit\u00e1rios e do ax\u00e9 imprescind\u00edvel \u00e0 continuidade da exist\u00eancia f\u00edsica. S\u00e3o ditas Ialax\u00e9, zeladoras da pot\u00eancia m\u00edtica, do poder de realiza\u00e7\u00e3o. No culto, elas se modulam miticamente em divindades genitoras associadas a elementos da natureza (\u00e1gua, lama, etc.) e simbolizadas por p\u00e1ssaro e peixe \u2013\u2013 penas e escamas aludem simbolicamente a peda\u00e7os do corpo materno, ao poder de gesta\u00e7\u00e3o.<br \/>    Por isso, como relata Juana Elbein, \u201cum longo poema, composto de uma s\u00e9rie de cantigas, celebra nas comunidades a primeira Ialax\u00e9 do mais antigo terreiro da Bahia, Marcelina da Silva, Oba-Tosi, sacerdotisa de Xang\u00f4, filha da legend\u00e1ria Ialuso Odanadana, da tradicional linhagem dos Axip\u00e1, cujo \u201coriki\u201d Axip\u00e1 Borogum Elese Kan Gongo \u00e9 invocado depois de cinco gera\u00e7\u00f5es por seus descendentes e por todos os integrantes dos egb\u00e9 tradicionais. Essa homenagem se estende a todas as Iya fundadoras e transmissoras da Arkh\u00e9 nag\u00f4. O canto expande seu ax\u00e9, os v\u00ednculos se renovam e renascem\u201d.<br \/>    Oriki \u00e9 um c\u00e2ntico de celebra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma \u201cjanela\u201d de mem\u00f3ria que se abre sobre o passado coletivo. Aqui nos interessa particularmente o seu in\u00edcio: \u201c\u00ccy\u00e1 o bogunde (a guerra trouxe a M\u00e3e),\/ Omo Afonja o bogunde (filha de Xang\u00f4, que chegou com a guerra).\/ E ma be ru j\u00e1 (mas n\u00e3o tema a batalha),\/ Iya asa o (Pois a M\u00e3e perdeu o medo).\/ Eni ma be \u201c\u00f2r\u00ecs\u00e0 (Roguemos aos orix\u00e1s),\/ Aiye b\u00b4ode. (Para que a alegria se expanda no mundo\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m particularmente relevante um outro trecho: \u201cAwa de tere tere (Chegamos e estamos aqui com divertimento)\/ Awa de t\u00b4ayo (Estamos aqui com muita alegria)\u201d.<br \/>    Como se percebe, o c\u00e2ntico come\u00e7a falando da vicissitude da di\u00e1spora escrava, em raz\u00e3o das guerras entre os reinos africanos, e a conseq\u00fcente chegada \u00e0 Bahia. Mas ao inv\u00e9s de um discurso lamentoso, de vitimiza\u00e7\u00e3o ou mesmo de recalcamento de tudo o que aconteceu, a liturgia negra reconhece a realidade da mudan\u00e7a, de modo an\u00e1logo \u00e0 prajn\u00e2na (sabedoria) hindu que diz: \u201ctudo \u00e9 sams\u00e2ra, tudo muda\u201d. O antigo pr\u00edncipe, o antigo guerreiro, o antigo sacerdote, o antigo artes\u00e3o e o antigo agricultor tornaram-se escravos em terra alheia. \u00c9 imperativo aceitar o real dessa transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>    Seria essa uma consci\u00eancia resignada? N\u00e3o, muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 a consci\u00eancia de quem v\u00ea tudo o que lhe acontece, ou seja, o fluxo de uma mudan\u00e7a que comporta uni\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o, nascimento e morte, sorte e azar, satisfa\u00e7\u00e3o e insatisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de assumir tristemente o seu destino, j\u00e1 que a luta ou a guerra podem fazer parte do processo, e sim de afirmar que, uma vez perdido o controle do curso dos acontecimentos exteriores (\u201cA guerra trouxe a M\u00e3e) \u00e9 preciso perder o medo (\u201cPois a M\u00e3e perdeu o medo&#8230;\u201d) para se ter o \u201ccontrole\u201d interior, isto \u00e9, a abertura l\u00facida para o novo, que n\u00e3o exclui absolutamente a possibilidade de nova luta (\u201cN\u00e3o tema a batalha\u201d). A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 ao mesmo tempo um sentimento, uma sensibilidade l\u00facida, o que implica um afeto ligado a uma a\u00e7\u00e3o positiva, n\u00e3o emocionalmente reativa.<br \/>    O c\u00e2ntico \u00e9, assim, uma celebra\u00e7\u00e3o e um convite a que se fa\u00e7a a experi\u00eancia vital das coisas, isto a que a tradi\u00e7\u00e3o hindu chama de bhoga, ou seja, a experi\u00eancia completa e gozosa do real, porque demanda ao mesmo tempo corpo e esp\u00edrito. N\u00e3o se trata de emo\u00e7\u00f5es, nem de sensa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, mas de uma reg\u00eancia, ou uma subordina\u00e7\u00e3o de sentimentos a uma maneira, resultante de um inter-relacionamento din\u00e2mico (garantido pelo ax\u00e9) em que a linguagem \u00e9 indissociavelmente sem\u00e2ntica, afetiva e c\u00f3smica.<br \/>    Sobre o amor, diz Her\u00e1clito ser \u201che auton aukson\u201d, ou seja, promotor de si mesmo, sem causa. O aforismo heracliteano traduziu-se em latim, tamb\u00e9m referido a esse afeto, como amor se ipse augens, para indicar a din\u00e2mica de algo que se expande a partir de seu pr\u00f3prio movimento, fora de uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade expl\u00edcita. Ao movermos um objeto qualquer num espa\u00e7o determinado, a for\u00e7a que imprimimos inicialmente \u00e9 a causa do deslocamento; mas o espa\u00e7o onde isto ocorre n\u00e3o tem causa, \u00e9 he auton aukson, uma condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de movimento.<br \/>    Nessa ordem de sentimentos, a alegria \u00e9 igualmente autopotenciadora, coincide com a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do real, quer dizer, com o fluxo transformador das coisas no espa\u00e7o-tempo. \u00c9 a alegria, singular e concreta, e n\u00e3o um abstrato amor universal, que norteia a pr\u00e1tica lit\u00fargica da Arkh\u00e9 negra. Alegria \u00e9 algo paradoxalmente s\u00e9rio \u2013\u2013 pode modular-se em sensualidade e conten\u00e7\u00e3o \u2013\u2013 por ser a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da comunica\u00e7\u00e3o, do proferimento da palavra. E esta n\u00e3o se descola jamais da a\u00e7\u00e3o, ou seja, o indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 conduzido por abstra\u00e7\u00f5es, mas por signos ou palavras que induzem \u00e0 a\u00e7\u00e3o. \u00c9 imprescind\u00edvel o concurso do poder-fazer, da pot\u00eancia de realiza\u00e7\u00e3o em que consiste o ax\u00e9.<br \/>    Na concretude da liturgia negra, a palavra \u00e9 sempre som, isto \u00e9, uma presen\u00e7a f\u00edsica singular, que se expressa na inten\u00e7\u00e3o do Outro, para desaparecer logo em seguida e renascer, renovada, na repeti\u00e7\u00e3o em que implica o ritual. A pot\u00eancia de movimenta\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica do ax\u00e9 aciona a palavra-som e emerge grupalmente como alegria, onde a m\u00fasica est\u00e1 virtualmente implicada (mesmo quando n\u00e3o se fa\u00e7a materialmente presente) por partilhar com o ritual a caracter\u00edstica de uma direta intensidade sens\u00edvel na celebra\u00e7\u00e3o do real.<br \/>    A profunda afinidade da m\u00fasica com a alegria est\u00e1 precisamente nessa partilha do sens\u00edvel e da condi\u00e7\u00e3o de he auton aukson, de uma realiza\u00e7\u00e3o que se auto-engendra. \u00c9 verdade que a m\u00fasica \u00e9 expressiva, mas n\u00e3o representativa, isto \u00e9, n\u00e3o duplica, nem copia ou imita uma refer\u00eancia qualquer situada na realidade imediata. Na musicalidade negra, \u00e9 a temporalidade r\u00edtmica em sua fluidez instant\u00e2nea, assim como o aqui e agora da palavra cantada, que se comunica aos corpos, liberando-os das refer\u00eancias que os encadeiam \u00e0 gravidade da terra (acer, ager) e propiciando-lhes a asa (ala) da flutua\u00e7\u00e3o, da leveza. Alacer, alegre (uma reg\u00eancia l\u00facida, jamais um descontrole emotivo) \u00e9 a realidade dessa experi\u00eancia musical. Neste jogo, mais do que uma \u201caprova\u00e7\u00e3o irrestrita do real\u201d (a palavra aprova\u00e7\u00e3o ainda guarda tra\u00e7os de um exame intelectual), a alegria aparece como uma afina\u00e7\u00e3o perfeita com o mundo. O contr\u00e1rio dela n\u00e3o \u00e9 exatamente a tristeza, mas o ressentimento ou o rancor.<br \/>    A alegria reserva-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o que prioriza afetivamente \u2013\u2013 logo, por meio do corpo em sua concretude pulsional \u2013\u2013 o real humano em seus aspectos familiares, mas tamb\u00e9m o imagin\u00e1rio direta ou indiretamente articulado ao ultra-humano ou ao sagrado. Ela acontece onde a vida possa afinar-se lucidamente com o mundo em suas manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, em suas afeta\u00e7\u00f5es imediatas dos sentidos, sem o retardamento das abstra\u00e7\u00f5es da linguagem ou sem o recalcamento do corpo. A alegria emerge, ent\u00e3o, como a ponta extrema dessa celebra\u00e7\u00e3o de um real que transborda e n\u00e3o se pauta pelo resgate religioso de uma grande falta metaf\u00edsica origin\u00e1ria, nem pela revela\u00e7\u00e3o do desejo divino de que os homens fa\u00e7am grupo.<br \/>    A alegria \u00e9 sem pecado e sem perd\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>4 &#8211; T\u00edtulo do Trabalho: ALEGRIA E CORPORALIDADE AFRO-BRASILEIRA MUNIZ SODRE Ph.D.,Professor e Presidente dos Cursos de Gradua\u00e7\u00e3o de Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura da Universidade Federal do<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-118","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-congresso-2003"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=118"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=118"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=118"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/analisebioenergetica.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=118"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}